Publicado 22/06/2026 14:56

A organização Médicos do Mundo alerta para uma “crise sanitária de grandes proporções” em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano

20 de junho de 2026, Bureij, PS: FAIXA DE GAZA – JUNHO DE 2026: Palestinos deslocados vivem em condições difíceis ao lado de pilhas de lixo acumulado no campo de refugiados de Bureij. Crianças vasculham materiais descartados na tentativa de encontrar iten
Ramzi Abu Amer/Jna Press / Zuma Press / Europa Pre

MADRID 22 jun. (EUROPA PRESS) -

O diretor de Saúde e Mobilização Social da Médicos do Mundo, Ricardo Angora, alertou que a população de Gaza, Cisjordânia e Líbano está passando por uma “crise sanitária de grandes proporções”, como consequência da ofensiva israelense, que está provocando uma situação de insegurança alimentar e hídrica e más condições sanitárias, além da destruição de hospitais e ataques contra profissionais de saúde.

Ele afirmou isso no encontro virtual “Profissionais de saúde em Gaza: viver, resistir e cuidar”, organizado nesta segunda-feira pela Federação de Associações para a Defesa da Saúde Pública (FADSP), a Federação de Enfermagem Comunitária e de Atenção Primária (FAECAP), Médicos do Mundo e a Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS).

Angora lamentou que “não tenha havido realmente um cessar-fogo” na Faixa de Gaza, uma vez que, desde que foi acordado em outubro de 2025, foram registrados 350 ataques, que causaram 1.039 mortos e 2.800 feridos.

Além disso, ele se referiu ao “padrão de destruição em massa de estruturas civis”, que arrasou moradias e áreas residenciais no enclave palestino. Isso fez com que mais de um milhão de pessoas fossem obrigadas a se deslocar e viver em acampamentos, “praticamente sem serviços básicos, com falta de água potável, praticamente sem saneamento, em condições de superlotação e com uma alimentação muito precária”, conforme explicou.

Outro dos problemas aos quais ele se referiu é a falta de energia, o que impossibilita a conservação de alimentos e faz com que não haja aquecimento, água quente nem gás para cozinhar. “As condições de vida são muito precárias e sobreviver nessas condições tão adversas também tem um grande impacto na saúde das pessoas”, alertou.

DOENÇAS GASTROINTESTINAIS, DISENTERIA

O representante da Médicos do Mundo comentou que a insegurança hídrica provoca o surgimento de doenças contagiosas, sobretudo gastrointestinais, disenteria, doenças dermatológicas e dermatites, transmitidas principalmente pela água contaminada.

Além disso, ele destacou a insegurança alimentar, ressaltando que “87% das terras cultiváveis de Gaza estão parcialmente destruídas” e que, atualmente, a fonte de alimento de dois terços dos lares é fornecida pelas agências humanitárias das Nações Unidas.

“Embora a maioria dos habitantes de Gaza tenha, neste momento, acesso a duas refeições por dia, é preciso dizer que 5% passaram algum dia no último mês sem ingerir nenhum alimento durante todo o dia e que entre 17% e 20% comem apenas um prato”, acrescentou ele, para afirmar que isso provoca desnutrição aguda grave, uma situação que afeta cerca de 31.000 crianças menores de cinco anos na Faixa de Gaza.

Paralelamente, ele destacou que, nos campos de deslocados, estão ocorrendo casos de sarampo como resultado da baixa taxa de vacinação, bem como casos de meningite, mais de 100.000 casos de dermatite, 15.000 de varicela, mais de 150 mil de sarna e outros 150 mil de icterícia.

Angora detalhou o impacto nos serviços de saúde, que sofrem com a falta de eletricidade, combustível, água potável e medicamentos, provocando uma “deterioração” dos serviços, que se encontram em situação “crítica”. “O que precisamos levar em conta é que, a 10 ou 15 quilômetros, há material suficiente, há medicamentos, há alimentos suficientes, que estão retidos em caminhões de transporte e cuja entrada não é permitida ou ocorre de forma muito limitada”, criticou.

Nesse sentido, ele destacou que, em Gaza, desde 7 de outubro de 2023, foram registrados 968 ataques a instalações de saúde e, após o cessar-fogo, cerca de 100 ataques. “Pode-se dizer que um terço dos postos de atendimento médico estão em funcionamento, apenas metade dos centros de atenção primária estão operacionais e que apenas metade dos hospitais e clínicas estão funcionando”, precisou ele.

Por sua vez, ele indicou que mais de 1.000 profissionais de saúde morreram em Gaza em consequência dos ataques, e cerca de 2.000 ficaram feridos. Na Cisjordânia, foram registrados 31 mortos e 168 feridos, e no Líbano, mais de 130 paramédicos faleceram.

“COLAPSO” NOS HOSPITAIS

O anestesista Refaat Alethamna, que trabalhava em Gaza até o início da trégua em outubro passado, quando se mudou para a Espanha, relatou que a situação da saúde na região é de “colapso”, já que há “muita demanda”. “Se eu atendia 100 pacientes em um pronto-socorro, agora atendemos 1.000, e isso é exaustivo. Diariamente, o número de pacientes que precisamos atender triplica ou quadruplica, sem descanso”, explicou.

Além disso, ele destacou a falta de equipamentos e medicamentos, o que faz com que muitos pacientes tenham que adquirir remédios comprando-os a um “preço alto”.

Alethamna destacou que um dos principais problemas para os profissionais de saúde de Gaza é que não recebem o salário integral, uma situação que já se arrasta há uma década, antes mesmo do início da última ofensiva de Israel em 2023. Segundo ele, lhe devem cerca de 100.000 dólares (cerca de 87.500 euros) e, durante a ofensiva, recebia no máximo 100 dólares por mês (cerca de 88 euros).

“Infelizmente, recebo ligações de muitos colegas médicos e enfermeiros que buscam uma maneira de sair daqui, pois já perderam muitos anos de vida sem conseguir construir um futuro”, afirmou.

IMPACTO NA SAÚDE MENTAL

O psiquiatra Yamil Mahmoud destacou, em sua intervenção, o impacto da ofensiva na saúde mental da população, que é afetada pela falta de moradia, de assistência médica e de educação. Pela “falta de tudo”, como resumiu o professor universitário.

Nesse contexto, ele pediu que se dedique atenção especial às crianças, para que possam dormir, não tenham medo da própria morte ou da morte de alguém próximo e possam ir à escola com tranquilidade. “Para isso, é preciso uma coisa: acabar com a ocupação”, enfatizou Mahmoud, reivindicando um esforço conjunto de pressão sobre os governos ocidentais para que exerçam pressão sobre os israelenses.

As entidades que organizaram este “webinar” publicaram um manifesto no qual exigem um “cessar-fogo real” e, em seguida, o início da reconstrução da região com a criação de um “fundo especial”. Além disso, exigem que seja garantido o acesso humanitário “sem obstáculos” por parte das organizações e a evacuação dos pacientes que necessitam de tratamento urgente.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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