BRUXELAS 19 mar. (EUROPA PRESS) -
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, defendeu seu veto ao empréstimo europeu de 90 bilhões de euros destinado a ajudar a Ucrânia, em um debate a portas fechadas com os demais parceiros da União, no qual os líderes procuraram aumentar a pressão, alertando que o bloqueio a uma decisão já acordada pelos Vinte e Sete é “inaceitável” e contraria a cooperação leal que deve existir entre os Estados-membros.
Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia se reúnem nesta quinta-feira para abordar questões de competitividade, a crise no Oriente Médio e medidas para amenizar o aumento dos preços da energia após os ataques ao Irã, mas o veto húngaro surgiu como o primeiro ponto de discussão; em um debate ao qual os líderes dedicaram cerca de 90 minutos e que terminou sem que as posições se alterassem.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, expressou com veemência a decepção pelo fato de Orbán estar colocando obstáculos a um acordo juridicamente vinculativo que os líderes fecharam em dezembro passado; uma posição que foi amplamente apoiada pelos demais líderes ao redor da mesa, segundo indicaram fontes europeias.
O ex-primeiro-ministro português também criticou as ameaças veladas de Kiev contra Orbán, quando o primeiro-ministro da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou que, caso o veto persistisse, daria aos militares ucranianos o número de telefone do húngaro para que falassem com ele “na sua própria língua”.
Em resposta, Orbán avisou que não pretende mudar de opinião e defendeu que seu bloqueio ao empréstimo tem uma base jurídica sólida, apesar de os demais países criticarem o fato de ele vincular o acordo sobre o orçamento aos problemas de abastecimento de petróleo russo que a Hungria enfrenta após o ataque russo que danificou o oleoduto Druzhba na Ucrânia.
Aos olhos dos demais parceiros da UE, a questão do oleoduto — para cuja solução tanto Costa quanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estão mediando — é completamente diferente e não tem nada a ver com a ajuda urgente de que Kiev precisa para atender às suas necessidades financeiras.
De qualquer forma, os líderes encerraram a discussão após 90 minutos sem chegar a uma solução, pelo que o empréstimo continua em aberto, sem que esteja previsto retomarem este assunto mais tarde na cúpula. Após essa discussão entre os 27, os líderes se conectaram virtualmente com Zelenski para discutir com ele a situação do país, sem que esteja previsto abordar, neste momento, as dificuldades para liberar o empréstimo, uma vez que isso é considerado uma questão interna do bloco.
CRÍTICA PÚBLICA DOS LÍDERES
Já à chegada à cúpula, vários líderes, entre eles o presidente da França, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, instaram Orbán a cumprir os compromissos assumidos com os demais parceiros e a levantar o veto ao empréstimo de 90 bilhões de euros à Ucrânia que o bloco acordou em dezembro passado.
“O princípio que rege o funcionamento da União Europeia é o da lealdade e da confiabilidade. E presumo que todos os Estados-membros da União Europeia o respeitem”, afirmou o chanceler alemão, Friedrich Merz, em declarações à imprensa em Bruxelas, ao chegar ao Conselho Europeu.
Também o presidente francês, que afirmou conversar frequentemente com Orbán, apelou ao respeito pelos compromissos acordados em nível de líderes, em referência ao acordo constante no texto das conclusões do Conselho Europeu de dezembro, juridicamente vinculativo para os Estados-membros. “Espero que avancemos no apoio à Ucrânia, que precisa disso, e que cumpramos nossa palavra no que diz respeito ao empréstimo de 90 bilhões de euros”, argumentou.
Na mesma linha, o presidente do Governo, Pedro Sánchez, destacou que os chefes de Estado e de Governo da UE já chegaram a um acordo no final do ano passado e, portanto, “esse acordo deve ser cumprido”. “O que se espera de qualquer presidente, seja da Hungria ou de qualquer outra nação, é que, quando o Conselho chega a um acordo — e chegamos a um acordo no final do ano passado —, esse acordo tenha de ser cumprido”, argumentou.
O primeiro-ministro da Finlândia, Petteri Orpo, elevou o tom e acusou o líder húngaro de “usar a Ucrânia como arma eleitoral” e de “trair” os demais parceiros da UE ao impedir a aplicação de um acordo já fechado pelos 27.
A Alta Representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, por sua vez, criticou o veto e o fato de as decisões de Orbán serem influenciadas pelo cálculo das próximas eleições na Hungria, neste mês de abril. “Em época de eleições, as pessoas não são racionais”, reforçou.
“O veto da Hungria é inaceitável”, considerou, por sua vez, o primeiro-ministro dos Países Baixos, Rob Jetten, que destacou que o acordo foi alcançado ao mais alto nível e, por isso, os parceiros “esperam que seja respeitado”; ao mesmo tempo, valorizou o acordo da Comissão Europeia com Kiev para permitir o envio de uma missão técnica para inspecionar o estado do oleoduto.
ACORDO EM DEZEMBRO COM ISENÇÃO PARA A HUNGRIA
Em dezembro, os líderes, com o apoio de Orbán, acordaram um empréstimo europeu de 90 bilhões de euros, com a condição também validada de que a Hungria, a Eslováquia e a República Tcheca não participassem do crédito.
No entanto, Orbán reativou seu veto a esse empréstimo e ao vigésimo pacote de sanções contra a Rússia, alegando problemas de abastecimento em seu território como consequência do oleoduto Druzhba danificado na Ucrânia, e avisou que não desbloqueará as decisões europeias até que o fluxo de petróleo russo para a Hungria seja restabelecido.
Sobre a posição de Orbán, o primeiro-ministro da República Tcheca, Andrej Babis, afirmou que esse assunto não é de sua competência — “é problema dele, não meu” — e que ele iria concentrar seus esforços nesta cúpula em discutir isenções para o sistema de comércio de emissões ETS que, em sua opinião, está “destruindo” a indústria europeia.
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