MADRID, 4 jun. (EUROPA PRESS) -
A diretora de Programas e Políticas da ONU Mulheres, Sarah Hendriks, não esconde sua preocupação com os retrocessos que estão ocorrendo em matéria de direitos das mulheres e também seu receio de que haja um “efeito contágio” entre países onde estão sendo adotadas políticas que revertem alguns dos avanços alcançados, mas confia que, com “coragem”, é possível combater esse fenômeno, apostando em políticas feministas.
“O progresso da situação das mulheres no mundo é lento e muito frágil e, em muitos casos, conquistas anteriores nas quais se havia avançado estão sendo revertidas”, admite em entrevista concedida à Europa Press durante sua participação em Madri na V Conferência sobre Política Externa Feminista, organizada pelo Ministério das Relações Exteriores.
Hendriks destaca os avanços em termos de paridade no que diz respeito ao acesso à educação, a redução de 40% nas taxas de mortalidade materna nas duas últimas décadas, bem como os muitos “tetos de vidro” que foram quebrados e a maior presença em cargos públicos, mas não esconde que os retrocessos “são muito preocupantes”.
A responsável pela ONU Mulheres chama a atenção para o fato de que 24% dos governos em todo o mundo reconheceram, em 2024, que havia ocorrido um retrocesso em matéria de direitos e igualdade de gênero, o que inclui tanto países pobres quanto mais ricos e representa “um desafio universal”.
FINANCIAMENTO DE ORGANIZAÇÕES DE MULHERES
Ela também denuncia a redução nos fundos recebidos pelas organizações de mulheres. Segundo dados da ONU Mulheres, 51% das organizações de mulheres que atuam em áreas em crise e em conflito em todo o mundo não dispõem de recursos suficientes para continuar operando e, dentro de dois anos, terão que fechar.
“Esta é uma crise significativa”, ressalta Hendriks, tendo em vista que apenas 0,4% dos fundos de ajuda oficial ao desenvolvimento são destinados a esse tipo de organização, apesar de “em muitos lugares elas estarem na vanguarda na prestação de serviços a mulheres e meninas em conflitos e crises”.
Além disso, acrescenta ela, os casos de violência sexual em cenários de conflito dobraram no último ano, chegando a cerca de 10.000, sendo que cerca de 90% das vítimas são mulheres e meninas, enquanto o número de mulheres que vivem em um raio de 50 quilômetros de um conflito ativo chega a 676 milhões, o maior número desde a década de 1990.
“Quando não se tem essas organizações de mulheres equipadas e financiadas para enfrentar essa proporção pandêmica de conflitos e crises que afetam de forma desproporcional a vida das mulheres, então a crise das mulheres é muito mais grave”, alerta.
NADA É CASUAL, SÃO DECISÕES POLÍTICAS
Diante disso, ela ressalta que “tudo isso não é casual, não acontece por acaso”. “Acontece por decisões políticas, pela erosão institucional e acontece porque um em cada quatro governos está afirmando que o retrocesso na igualdade de gênero e a regressão dos direitos das mulheres são reais e têm influência direta na capacidade dos governos de avançar nessa questão em seus países”, alerta.
Além disso, acrescenta, existe “um risco muito real de um efeito de contágio” e de que, quando um governo inicia um “retrocesso democrático” e “os princípios democráticos não são plenamente respaldados”, então “há um efeito equivalente em uma diminuição da segurança das mulheres”.
Diante disso, a responsável pela ONU Mulheres acredita que a aposta em uma política externa feminista, como fez a Espanha a partir de 2021 e como também fizeram outros países, ajuda, pois “busca essencialmente manter os princípios da democracia, dos Direitos Humanos e do Estado de Direito como princípios da cooperação global”.
CORAGEM POLÍTICA
Por isso, ela considera que “se mais governos forem corajosos e se unirem a esse grupo apoiando uma política externa feminista ou uma política externa sensível à igualdade de gênero, então isso contribuirá para o fortalecimento desses valores que desafiam o retrocesso na igualdade de gênero e a regressão nos direitos das mulheres”.
Na sua opinião, é preciso reconhecer que “o progresso na igualdade de gênero e nos direitos das mulheres não é linear e que há avanços que vêm e vão”. Isso “está intimamente relacionado à liderança política, à vontade política, bem como ao financiamento de organizações e ao sistema multilateral, que é chamado a apoiar os princípios da democracia, dos direitos humanos, dos direitos das mulheres e do Estado de Direito”.
Embora tanto na América quanto na Europa tenham surgido governos que chegaram ao poder e abandonaram a política externa feminista, algo que ela considera “muito preocupante”, ela não perde a esperança de que, nesses países, a cidadania e as organizações de mulheres continuem a levantar a voz em favor de políticas progressistas e a exigir avanços nos direitos das mulheres e na proteção de mulheres e meninas.
“Também há esperança de que, assim como pode haver um efeito de contágio e a política regressiva possa se propagar aos países vizinhos, possa haver também um efeito de contágio positivo”, observa ela, citando como exemplo a queda do governo de Viktor Orbán na Hungria, que “inspira outros a pensar que também é possível uma mudança para melhor”.
Por fim, ela defende com firmeza uma maior presença das mulheres em cargos de liderança, bem como nas negociações de paz, lamentando que, atualmente, apenas uma em cada dez pessoas nas mesas de negociação seja mulher, apesar de haver estudos que confirmam que, quando as mulheres participam dos processos de paz, há 35% mais chances de que estes durem mais de 15 anos.
Nesse sentido, ela defende que quem suceder António Guterres no próximo ano como secretário-geral da ONU seja uma mulher, tendo em conta que a organização promove a paridade de gênero e que, em seus 80 anos de história, nunca teve uma mulher à frente. “Não só chegou a hora, não só é o certo, como é o mais justo”, ressalta.
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