Marwan Naamani / Zuma Press / Europa Press
Turk denuncia a “destruição total” de locais pelos ataques de Israel e volta a alertar sobre possíveis crimes de guerra
MADRID, 15 set. (EUROPA PRESS) -
As Nações Unidas alertaram nesta terça-feira que a recuperação de corpos na Faixa de Gaza, quase três anos depois que suas casas foram bombardeadas por Israel no início da ofensiva lançada após os ataques de 7 de outubro de 2023, pode ser apenas “a ponta do iceberg” diante da enorme devastação causada pelos ataques do Exército israelense.
“Estão sendo recuperados os restos mortais do que parecem ser famílias inteiras em locais que foram reduzidos a escombros pelos ataques israelenses”, lamentou o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, que afirmou que “é dilacerante que os entes queridos daqueles que estavam desaparecidos há tanto tempo vejam agora seus piores temores se confirmarem”.
“Preocupa-me que os restos mortais recuperados até agora sejam apenas a ponta do iceberg. Grande parte de Gaza foi arrasada pelos bombardeios israelenses ou por operações de demolição e desocupação com maquinário pesado e explosivos”, destacou ele, antes de ressaltar que as tropas israelenses continuam realizando demolições nas áreas sob seu controle, “sem qualquer respeito pelos corpos que jazem sob os escombros”.
Assim, ele enfatizou a importância de preservar as provas de possíveis violações do Direito Internacional e exigiu que investigadores internacionais tenham acesso ao enclave para apoiar a coleta de provas.
“Devem ser envidados todos os esforços possíveis para documentar e identificar essas vítimas, preservar as informações forenses e as amostras biológicas, registrar os locais de sepultamento e informar suas famílias”, ressaltou Turk, de acordo com um comunicado divulgado por seu gabinete.
A Proteção Civil Palestina de Gaza informou sobre a recuperação de 630 corpos e outros restos humanos entre os escombros de edifícios destruídos em Gaza entre novembro de 2025 e setembro de 2026, ao mesmo tempo em que estima em mais de 8.000 o número de desaparecidos, em meio às dificuldades para os trabalhos de busca e resgate devido à proibição imposta por Israel à entrada de máquinas pesadas.
Nesse sentido, o órgão destacou que, entre 27 de junho e 27 de agosto, foram recuperados 233 dos 407 corpos que se acredita estarem sob 20 prédios destruídos pelos bombardeios, principalmente na cidade de Gaza (norte). O número inclui 74 crianças e 106 mulheres.
A esses números somam-se outros 96 corpos ou restos mortais recuperados neste mês em Al Zeitun, a sudeste da cidade de Gaza, após um bombardeio supostamente perpetrado em novembro de 2023. Entre esses corpos e restos mortais estão os de 58 crianças e 23 mulheres.
“Esses esforços meticulosos de recuperação são um lembrete cru da gravidade e da magnitude da destruição ocorrida há três anos, agravada hoje pelo sofrimento e pela miséria prolongados que anos de incerteza trouxeram consigo”, destacou Turk, que reiterou que “o direito das famílias de saber o que aconteceu com seus entes queridos não se esgota na identificação e em um enterro digno”. “Elas merecem saber toda a verdade”, ressaltou.
Nesse sentido, ele reiterou sua “grave preocupação” com os “métodos e meios” empregados por Israel durante a ofensiva, “incluindo o uso extensivo de armas explosivas de efeito de área ampla em zonas densamente povoadas”, algo que “não teria garantido a distinção entre civis e combatentes”.
“A descoberta de numerosos restos mortais sob os escombros na cidade de Gaza reacende a preocupação com a possível prática de crimes de guerra e outros crimes atrozes”, destacou Turk, que lembrou que Israel tem a obrigação, nos termos do Direito Internacional, de procurar e localizar os desaparecidos, bem como de remover os falecidos.
Por outro lado, ele enfatizou que a recuperação e o enterro das vítimas não isentam a necessidade de investigar suas mortes. “A morte de um grande número de membros de famílias, incluindo crianças, mulheres e pessoas com deficiência, em ataques contra edifícios residenciais suscita sérias dúvidas sobre o cumprimento das normas que regem a condução das hostilidades”, argumentou.
“É preciso investigar esses ataques de maneira eficaz. Quando forem confirmadas violações, os responsáveis deverão prestar contas”, destacou, antes de exortar todos os países a “promoverem maior cooperação e coordenação para garantir que a recuperação dos corpos em toda a Faixa de Gaza seja realizada de forma digna e humana”.
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