Publicado 23/08/2026 09:01

Mónica García responde a Feijóo que confinar migrantes em Ceuta “poderia ser contraproducente” e “desproporcional”

Ela afirma que imigrantes e moradores de Ceuta “não convivem nos mesmos espaços” e que as breves interações nas ruas “não são suscetíveis de constituir um risco à saúde pública”

Imigrantes acampados nos galpões do Tarajal, em 21 de agosto de 2026, em Ceuta (Espanha). Ceuta continua enfrentando uma grave crise humanitária após a histórica entrada em massa de mais de 70 mil migrantes que atravessaram a nado o Tarajal nos dias 30 e
Marcos Moreno - Europa Press

MADRID, 23 ago. (EUROPA PRESS) -

A ministra da Saúde, Mónica García, afirmou que o confinamento de migrantes na cidade autônoma de Ceuta “não só não parece justificado, como também poderia ser contraproducente”, além de que “parece injustificado e totalmente desproporcional se a justificativa apresentada for por motivos de saúde pública”.

Foi assim que García se pronunciou em resposta às declarações que o presidente do PP, Alberto Núñez Feijóo, fez em uma entrevista à Europa Press, na qual solicitou ao presidente do Governo, Pedro Sánchez, que decretasse o confinamento em Ceuta devido ao “risco sanitário” devido a doenças infecciosas e contagiosas, como a sarna ou a tuberculose, que foram detectadas após a entrada em massa de “mais de 70 mil migrantes ilegais” no final de julho.

A ministra lembrou que a Lei Orgânica 3/1986, de 14 de abril, sobre Medidas Especiais em Matéria de Saúde Pública, “menciona a existência de indícios racionais, e não parece que, com o que temos até o momento, isso ocorra” para decretar um confinamento, conforme afirmou em uma postagem neste domingo na rede social X.

“Os confinamentos, como medida de saúde pública, devem estar relacionados ao mecanismo de transmissão das doenças que se pretende controlar”, afirmou García, ao mesmo tempo em que destacou que, neste caso, “isso poderia ser muito mais prejudicial do que benéfico em termos de saúde pública”.

Nesse sentido, a ministra da Saúde lembrou que “as competências em matéria de saúde pública em Ceuta pertencem ao Governo da Cidade de Ceuta”, pelo que “sempre que Feijóo afirma que se trata de uma emergência de saúde pública, a primeira coisa que ele deveria fazer é perguntar ao governo da cidade o que está sendo feito”.

Sobre as quatro doenças citadas por Feijóo — tuberculose, varicela, sarna e gastroenterite —, a ministra explicou que, no que diz respeito à tuberculose, há “três casos confirmados”, dos quais “um já estava em tratamento, não sendo contagioso”, “outro era um caso de tuberculose cerebral, que não é contagiosa” e “o terceiro era uma pessoa que já estava em Ceuta há algum tempo, que vinha passando por um processo de diagnóstico há algum tempo e que iniciou o tratamento”. Nesse sentido, ela contextualizou o número ao destacar que “desde o fechamento das fronteiras em 2020, tivemos cerca de 90 casos de tuberculose em Ceuta e cerca de 20.000 em toda a Espanha”.

Quanto à varicela, a ministra indicou que foram detectados “três casos suspeitos”, um deles proveniente da Operação Paso del Estrecho, “que não tem nada a ver com o que estamos discutindo”, e que foi descartado, e outros dois “internados aguardando confirmação diagnóstica”, mas que “não têm nada a ver com a população migrante” nem relação entre si. García ressaltou que “a varicela não foi erradicada do nosso país e há casos de vez em quando”.

Sobre a sarna, García citou um estudo publicado em 2025 na Eurosurveillance, segundo o qual a escabiose “na Espanha era muito mais frequente do que se pensava”, sendo mais comum “onde havia programas de detecção mais bem definidos”, citando como exemplo o caso do País Basco. Além disso, ela apresentou o dado de que “entre 2021 e 2023 foram detectados 1.529 surtos, com um total de 11.301 casos na Espanha”. A ministra destacou que o controle desses casos “está a cargo do governo da cidade de Ceuta”.

“Talvez o senhor Feijóo pudesse ajudar as equipes de saúde pública da cidade a se reforçarem e, assim, facilitar seu trabalho no exercício de suas competências”, acrescentou ainda a responsável pela Saúde.

No que diz respeito à gastroenterite, García esclareceu o número de 450 casos citado pelo líder do Partido Popular: “Considerando os surtos agrupados e analisados pelo serviço de Medicina Preventiva do Hospital de Ceuta, poderíamos falar de 55 casos de provável E. coli enteroinvasiva, já controlada e sem surgimento de novos casos”, associados “muito especialmente” ao “consumo de água imprópria para consumo humano em Ceuta”.

A URGÊNCIA ESTÁ EM “ACOMODAR AS PESSOAS”

A ministra insistiu que se trata de “doenças presentes em nosso ambiente e cujos sistemas de vigilância estão sempre ativos, ainda mais em uma situação como esta”, e lembrou que, quando um diagnóstico é confirmado, “essas pessoas já são isoladas e é realizado o rastreamento de contatos, de acordo com os protocolos existentes, que são comuns em todas as comunidades autônomas”.

“O fundamental neste caso e o mais urgente é abrigar as pessoas e proporcionar-lhes condições básicas de higiene e saneamento, garantindo água potável, acesso a medidas de higiene e alimentação em condições adequadas”, esclareceu a ministra, uma medida que, em sua opinião, permitiria controlar “a grande maioria dos fatores de risco para o surgimento de surtos”.

Além disso, ela ressaltou que a população migrante e a população de Ceuta “não convivem nos mesmos espaços, nem mesmo na maioria dos procedimentos de assistência à saúde”, e que as interações breves nas vias públicas “não são suscetíveis de constituir um risco à saúde pública”, lembrando que os protocolos para profissionais de saúde em contato com possíveis doenças infecciosas “não são novos nem exclusivos desta crise”.

A ministra citou ainda a avaliação rápida de risco elaborada pelo Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias, que conclui que “o risco de transmissão de doenças transmissíveis entre a população migrante é considerado moderado, devido às condições de superlotação, às situações de vida nas ruas e às limitações no acesso a medidas adequadas de higiene e alimentação”.

Além disso, ela lembrou que “o risco de doenças não transmissíveis no momento mais próximo da chegada é considerado moderado”, principalmente devido a lesões sofridas durante a viagem, sendo que “posteriormente, o risco é baixo”, e que “o risco de aumento de doenças transmissíveis e não transmissíveis para a população residente em Ceuta em consequência desse evento é considerado baixo”.

PEDE A FEIJÓO QUE SOLICITE A CESSÃO DE ESPAÇOS AO GOVERNO DE CEUTA

García explicou que está “trabalhando em estreita colaboração com os profissionais de saúde pública da Cidade de Ceuta”, tanto na vigilância quanto na implementação dos programas de vacinação, “em consonância com o protocolo de vacinação da população migrante e refugiada aprovado em junho de 2026 pela Comissão de Saúde Pública”.

Nesse contexto, ela informou que está prevista para esta segunda-feira uma reunião dessa comissão, dando continuidade à reunião da comissão de vacinas da semana passada, “para facilitar a doação de vacinas à Cidade de Ceuta enquanto o governo municipal adquire mais doses no exercício de suas competências”.

A ministra concluiu pedindo ao líder do Partido Popular que, se quiser “ajudar”, “solicite ao Governo da Cidade de Ceuta a cessão imediata de todos os espaços disponíveis para poder abrigar essas pessoas de maneira higiênica enquanto o processo é conduzido pelos ministérios competentes” e que “pare de incitar o medo e de propor medidas que não traria à tona se a população não fosse composta por migrantes provenientes da África”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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