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MADRID, 5 jun. (EUROPA PRESS) -
O ministro das Relações Exteriores do México, Roberto Velasco, destacou que tanto a presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, quanto a deputada espanhola Cayetana Álvarez de Toledo “são bem-vindas sempre que quiserem vir ao México para dar palestras ou passar férias”, após uma nova polêmica em torno de declarações desta última durante uma palestra em uma universidade do país norte-americano.
“Espero que, como nações iguais que somos, como povos irmãos, Cayetana e Isabel percebam que, no México, estamos sempre abertos ao diálogo, à compreensão e ao aprofundamento do conhecimento de nossa história e dessas culturas”, disse Velasco, que ressaltou que ambas “são bem-vindas sempre que quiserem vir ao México para dar palestras ou passar férias”.
“Há um costume que se tornou frequente: visitantes vêm ao México para nos dizer, a nós, mexicanos, quem somos”, ironizou durante uma coletiva de imprensa ao lado de seu homólogo alemão, Johann Wadephul. “Há algumas semanas foi Isabel Díaz Ayuso, agora foi Cayetana Álvarez, que vem nos alertar sobre essas ameaças à soberania que ela vê”, afirmou, em referência ao discurso mencionado durante um encontro na Universidade da Liberdade.
Assim, Velasco pediu que “se parasse para refletir primeiro sobre o paradoxo de que falam que o México é um país perigoso e, no entanto, visitam continuamente nosso país, aproveitam-no, dão palestras”. “Acho que isso diz muito a favor do México. Há países dos quais se parte, e o México é um país para o qual se volta”, destacou o chefe da diplomacia mexicana.
Nessa linha, ele defendeu “dimensionar corretamente a soberania”. “Quando falamos de soberania, estamos falando de algo que se manteve ao longo dos séculos e que é anterior até mesmo a 1521, que vem de culturas milenares que continuam vivas e que não apenas continuam vivas, mas que falam de centenas e milhares de anos de tradições das quais nos sentimos muito orgulhosos”, afirmou.
“Uma historiadora deveria saber disso”, destacou, em referência a Álvarez de Toledo, que é porta-voz adjunta do PP no Congresso. "No que diz respeito à soberania, gostaria de sublinhar que a soberania não é um conceito qualquer. Nem mesmo cinco séculos conseguiram apagá-la dessas civilizações tão antigas, e não é um conceito que estejamos simplesmente defendendo; é um conceito que sempre permanecerá de pé para nós", argumentou.
“Vemos com um sorriso essa ideia de que se veio aqui para promover o avanço da civilização durante a conquista, quando aqui já existiam civilizações muito antigas que possuíam, desde antes, arquitetura, astronomia, matemática, calendários e cidades”, argumentou, ao mesmo tempo em que enfatizou que essa história “faz parte da identidade” do país. “Temos muito orgulho disso”, destacou.
Velasco questionou ainda “essa ideia de liberdade que querem vender” a partir de certos círculos políticos e argumentou que se trata de “uma ideia muito tendenciosa”. “A liberdade é um conceito universal, não pertence a uma corrente política”, destacou, antes de defender uma “reinterpretação” do conceito.
“É tendenciosa sobretudo porque falam de algumas liberdades, mas não falam, por exemplo, da liberdade que as pessoas têm de decidir sobre o próprio corpo; também não falam da liberdade que as pessoas devem ter para sair da pobreza, caso tenham nascido nela, de poder suprir todas as suas necessidades básicas e, dessa forma, realmente escolher como querem viver suas vidas”, concluiu.
SHEINBAUM FALOU DE VISITA “UM POUCO KAFKIANA”
As palavras de Velasco surgiram poucos dias depois de a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, ter ironizado igualmente a visita de Álvarez de Toledo e suas declarações na referida universidade, um fato que ela descreveu como “um pouco kafkiano”.
“Já trouxeram outra deputada da Espanha. Isso é ótimo, é genial. Os novos quadros da política mexicana”, brincou. “Ter que trazer uma deputada espanhola para falar sobre a soberania nacional é um pouco kafkiano, no mínimo”, disse ela durante uma de suas “mañaneras”, nas quais responde à imprensa sobre os acontecimentos no país. “É curioso, é muito curioso”, acrescentou.
Álvarez de Toledo proferiu na ocasião um discurso centrado na “soberania”. “O que resta da soberania nacional mexicana quando milhões de cidadãos perderam a soberania sobre suas próprias vidas diante do narcotráfico, diante do poder político, diante da dependência econômica?”, perguntou-se, antes de ressaltar que “a soberania não é uma bandeira, não é um discurso inflamado contra o estrangeiro, não é uma reprovação histórica lançada a partir de uma coletiva matinal”.
"A soberania começa em algo muito mais elementar: poder sair à rua sem pedir permissão a um criminoso", afirmou. Nas redes sociais, ela insistiu que "a escolha é simples". "Soberania ou crime organizado. Soberania ou populismo autoritário. Soberania ou dependência. Ou seja: soberania ou Morena. Soberania ou Sheinbaum”, argumentou.
A visita de Álvarez de Toledo ocorreu após a polêmica visita de Díaz Ayuso ao México para participar de vários eventos institucionais e encontros — incluindo uma cerimônia em homenagem a Hernán Cortés— antes de cancelar parte de sua agenda e retornar a Madri antes do previsto, após denunciar um “clima de boicote” do qual acusou Sheinbaum e o “governo de extrema esquerda mexicano”, algo rejeitado pelas autoridades do país norte-americano.
De fato, o governo mexicano sustentou que a visita de Díaz Ayuso ocorreu “em total liberdade” e ressaltou que “em nenhum momento se tentou impedir qualquer uma de suas apresentações públicas ou privadas”. “O México vive em total liberdade, o que permite o debate aberto de ideias, de uma cidadania cada vez mais participativa”, argumentou por meio de um comunicado.
Fontes do governo regional de Madri chegaram a acusar a líder mexicana de “boicotar” a cerimônia do Prêmio Platino de cinema ibero-americano caso Díaz Ayuso comparecesse, embora o grupo Xcaret, ao qual pertence o complexo hoteleiro onde o evento é realizado, tenha negado “categóricamente” ter recebido “ameaças ou instruções” por parte de Sheinbaum e garantiu que foram eles que solicitaram a retirada do convite a Díaz Ayuso por suas “declarações infelizes”.
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