Publicado 28/09/2026 23:57

O México abre quatro novas linhas de investigação sobre o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa

26 de setembro de 2026, Cidade do México, México: MÉXICO Cidade do México, MÉXICO, 26 DE SETEMBRO DE 2026: Parentes dos 43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa participam de uma marcha na Cidade do México para marcar o 12º aniversário do desaparecimento
Carlos Santiago / Zuma Press / Europa Press

MADRID 29 set. (EUROPA PRESS) -

O governo mexicano anunciou nesta sexta-feira a abertura e o aprofundamento de quatro linhas de investigação sobre o desaparecimento dos 43 estudantes da Escola Normal Rural “Raúl Castro Isidro Burgos”, de Ayotzinapa, com base na reanálise de documentação, registros telefônicos e outros elementos coletados nos últimos doze anos.

A revisão, centrada nos fatos ocorridos em Iguala (Guerrero) entre a noite de 26 e a madrugada de 27 de setembro de 2014, permitiu relacionar informações que até então haviam permanecido separadas e detectar novos indícios passíveis de investigação.

A primeira linha de investigação concentra-se no estudo das comunicações telefônicas. Esse trabalho permitiu detectar padrões até então desconhecidos e identificar 17 novos alvos para a investigação. A análise também permitiu reconstruir conexões entre membros do cartel Guerreros Unidos, policiais municipais e estaduais, funcionários públicos e pessoas ligadas ao setor funerário.

Concretamente, entre os novos elementos, encontram-se comunicações entre membros da organização criminosa e funcionários de funerárias e do setor de saúde. Uma das pessoas sob investigação era proprietária de estabelecimentos funerários, concessionária do Serviço Médico Forense (SEMEFO) de Iguala e, além disso, participava da administração de um cemitério, informou o Executivo em um comunicado.

O governo identificou, em agosto de 2025, uma descoberta relevante: foi apurado que o proprietário de uma funerária teria utilizado um telefone que pertencia a um dos estudantes desaparecidos, informação que deu origem a diversas ações em outubro daquele mesmo ano, incluindo buscas nas funerárias e no SEMEFO de Iguala.

Durante essas investigações, foram encontrados um fêmur humano, uma arma de fogo, documentos e um forno crematório que não constavam nos registros oficiais. Paralelamente, as autoridades detectaram diversas irregularidades relacionadas ao funcionamento do SEMEFO.

Posteriormente, entre março e junho de 2026, foram realizadas novas buscas nessas instalações. Como resultado desses trabalhos, foram coletadas 23 novas evidências, entre elas centenas de fragmentos ósseos, próteses dentárias, restos biológicos, cartuchos, cápsulas e mais documentos. Todo esse material continua sendo submetido a análises periciais para determinar sua natureza e verificar possíveis correspondências com pessoas desaparecidas.

TRÊS CELULARES FORNECEM NOVAS PISTAS

A segunda linha de investigação foi construída por meio do rastreamento da cadeia de usuários que utilizaram posteriormente os celulares pertencentes a três dos estudantes falecidos.

Em um dos casos, as investigações resultaram em processos criminais e, no último dia 24 de agosto, um juiz emitiu um mandado de prisão contra um ex-funcionário de Iguala pelos crimes de crime organizado e desaparecimento forçado de pessoas.

Outro dos telefones acabou nas mãos de um agente da Polícia Municipal de Iguala. O aparelho registrou atividade durante a noite do desaparecimento dos jovens, razão pela qual as autoridades mantêm aberta a investigação sobre a possível participação desse agente no ocorrido.

A análise do terceiro aparelho trouxe elementos que, segundo o governo, reforçam a hipótese de que alguns dos estudantes foram levados para a delegacia municipal. O celular teria sido utilizado posteriormente por pessoas próximas a um ex-funcionário de Iguala lotado naquela delegacia.

Essa informação contradiz a versão apresentada anteriormente por José Ulises 'N', que atuava como juiz de barandilla e prestou depoimento perante a então Procuradoria-Geral da República (PGR).

A terceira linha de investigação surgiu a partir de uma nova análise dos autos do caso. Os investigadores identificaram uma pessoa que teria participado dos acontecimentos e que tinha 14 anos na época dos fatos, mas cuja identidade não havia sido estabelecida até então.

Seu depoimento, prestado em 30 de julho de 2026, trouxe informações que reforçariam as acusações contra membros da Guerreros Unidos.

AS CÂMERAS DO TRIBUNAL SUPERIOR DE JUSTIÇA

A quarta linha de investigação refere-se às gravações das câmeras de segurança do Tribunal Superior de Justiça de Guerrero na noite de 26 e na madrugada de 27 de setembro de 2024. Essa nova análise permitiu reconstruir parte das ações e condutas adotadas por autoridades de alto escalão em relação à ocultação dessas imagens.

As investigações resultaram na prisão da ex-presidente do Tribunal e da ex-inspetora do órgão judicial, ambas atualmente submetidas a processo criminal.

Os depoimentos dessas ex-funcionárias, combinados com outros elementos incorporados recentemente à investigação, serviram de base para a prisão — no último dia 6 de agosto — do ex-governador de Guerrero, a quem é atribuído o crime de desaparecimento forçado de pessoas em detrimento de 43 estudantes.

COLABORAÇÃO INTERNACIONAL

O governo mexicano informou ainda que está trabalhando em uma via de cooperação com o escritório no país do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, órgão que se encarregará de propor especialistas internacionais que possam se incorporar aos trabalhos relacionados ao caso.

Nesse contexto, as autoridades reiteraram que a investigação permanece aberta e que o objetivo central continua sendo localizar os estudantes, esclarecer o que ocorreu e determinar as responsabilidades penais correspondentes.

“O caso não está encerrado e ninguém está acima da lei”, enfatizaram representantes do Executivo, que colocam os pais e as mães dos 43 jovens no centro das ações.

Entre as próximas medidas estão, de acordo com o comunicado do governo, manter e ampliar os trabalhos de busca, avançar no esclarecimento dos fatos e aprofundar a análise das gravações de segurança, incluindo seu destino e a eventual intervenção de pessoas ligadas ao Poder Executivo naquela época.

Além disso, prevê-se ampliar as investigações relacionadas às funerárias e ao SEMEFO, ao mesmo tempo em que se manterá o diálogo com os familiares dos desaparecidos e a atenção às suas necessidades. O Executivo indicou que a Comissão Executiva de Atendimento às Vítimas continuará trabalhando para “garantir seus direitos”.

A nova estratégia parte de uma revisão conjunta das informações acumuladas ao longo de doze anos e busca estabelecer conexões entre indícios que, segundo as autoridades, não haviam sido detectados ou investigados com profundidade suficiente.

O anúncio ocorre depois que familiares e colegas dos 43 estudantes de Ayotzinapa, desaparecidos em 26 de setembro de 2014, lideraram neste sábado um protesto para denunciar os doze anos “sem respostas” que se passaram desde o incidente, repetindo diante de milhares de simpatizantes as perguntas que vêm fazendo desde então: o que aconteceu naquela noite?, quem agrediu os 43 estudantes da escola normal?, quem os levou?, por quê? e, acima de tudo, onde eles estão?.

Os 43 alunos da Escola Normal de Ayotzinapa (Guerrero) desapareceram no município vizinho de Iguala durante um protesto contra as autoridades locais.

A primeira versão oficial foi de que eles foram surpreendidos pela organização criminosa Los Rojos, como parte de um acerto de contas entre grupos rivais, e que os assassinos os mataram, incineraram e se livraram de seus restos mortais no aterro sanitário de Cocula — fatos posteriormente refutados por uma nova investigação que revelou que os policiais entregaram os ativistas aos criminosos.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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