Europa Press/Contacto/Nasser Ishtayeh
MADRID 25 abr. (EUROPA PRESS) -
Mais de meio milhão de palestinos exerceram seu direito de voto nas eleições municipais realizadas neste sábado na Cisjordânia, e também houve uma participação significativa em Deir al-Balah, a única área da Faixa de Gaza onde foi possível realizar as eleições.
Um porta-voz da Comissão Eleitoral Central Palestina, Farid Taamalá, informou que houve 512.510 eleitores na Cisjordânia, o que representa 53,44% do eleitorado, segundo a agência de notícias oficial palestina, WAFA.
Taamalá destacou que a alta participação reflete o compromisso da população com o processo democrático e o pouco impacto dos apelos à abstenção.
A votação terminou às 19h sem incidentes de destaque. A apuração começou imediatamente na presença de candidatos, observadores e jornalistas, embora se espere que o resultado só esteja disponível no domingo.
Na Faixa de Gaza, as eleições foram realizadas em Deir al-Balah, no centro do enclave palestino, e são as primeiras votações em 20 anos. Nesse caso, as seções eleitorais abriram às 7h, mas fecharam às 17h.
“É um reflexo da unidade dos territórios palestinos, apesar das circunstâncias difíceis”, destacou o presidente da Comissão Eleitoral Central, Rami Hamdalá. Deir al Balá foi escolhida por ser a zona “menos afetada” pela ofensiva militar israelense na Faixa.
No total, havia 1,3 milhão de palestinos recenseados com direito a voto, dos quais 70.000 correspondem a Deir al-Balah, segundo dados oficiais. São eleitos 183 governos municipais e, para isso, concorrem 321 listas com 3.773 candidatos a vereador, bem como 1.358 candidatos aos conselhos municipais.
OS ÚLTIMOS PROCESSOS ELEITORAIS
Desde 2006 não são realizadas eleições em Gaza, uma vez que o Hamas passou a fazer nomeações administrativas no enclave sob seu controle, enquanto na Cisjordânia houve eleições locais — em 2012, 2017 e 2022 —, embora as eleições presidenciais e legislativas tenham sido adiadas em várias ocasiões, o que gerou dúvidas sobre a legitimidade do mandato do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.
De fato, a dissolução “de facto” em 2007 do Conselho Legislativo Palestino — o Parlamento — deixou as mudanças na legislação eleitoral nas mãos do presidente palestino, que recorreu a uma série de decretos que incorporaram um novo sistema eleitoral e a ampliação das cotas reservadas às mulheres para que ocupem cargos nesses órgãos públicos.
No entanto, entre as medidas mais controversas está uma que exige que todos os candidatos assinem um compromisso de “aderir ao programa político e nacional da Organização para a Libertação da Palestina (OLP)”, dominada pelo partido de Abbas, a Al Fatah, e da qual não fazem parte o Hamas e outras facções como a Jihad Islâmica, o que foi interpretado como um obstáculo às suas listas.
A situação resultou na exclusão dessas formações, que não apresentam candidatos sob sua égide, em um contexto em que as autoridades de Gaza têm reivindicado em várias ocasiões que seja autorizada a entrada da equipe de tecnocratas que assumirá a gestão da Faixa de Gaza — o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG) — no âmbito da proposta apresentada pelos Estados Unidos para o futuro do enclave.
O CNAG, liderado por Alí Shaath, foi criado na sequência da formação do Conselho de Paz, liderado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após o acordo de outubro de 2025 para aplicar a referida proposta, que recebeu o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas e que trouxe consigo o referido cessar-fogo, em meio a dúvidas sobre se a segunda fase do pacto será iniciada devido ao descumprimento de alguns compromissos da primeira.
Por isso, há dúvidas sobre a relevância que os resultados das eleições na Faixa de Gaza possam ter, especialmente devido às suspeitas sobre a falta de representatividade e ao contexto de conflito que continua a imperar no enclave, diante da incerteza sobre se o processo político seguirá adiante ou se Israel optará finalmente por relançar sua ofensiva em grande escala, em meio a denúncias internacionais sobre um genocídio em Gaza.
A ONU FALA DE "OPORTUNIDADE IMPORTANTE"
O vice-coordenador especial das Nações Unidas para o Processo de Paz no Oriente Médio, Ramiz Alakbarov, afirmou que "as eleições deste sábado representam uma importante oportunidade para que os palestinos exerçam seus direitos democráticos durante um período excepcionalmente difícil", antes de elogiar a CEC por seus “esforços constantes para preparar um processo confiável, dados os importantes desafios que existem na Cisjordânia e as condições extraordinariamente difíceis que prevalecem em Gaza”.
A ONU exortou todas as partes a garantirem que o processo ocorra “de forma pacífica, ordenada e inclusiva” e que “os eleitores possam exercer seu direito de participar livremente e sem intimidação”, bem como que qualquer eventual disputa que surja após a votação “seja resolvida por meio dos canais legais estabelecidos”.
Por fim, o órgão manifestou seu apoio ao “fortalecimento das instituições palestinas e à promoção da governança democrática”, como parte dos “esforços mais amplos para impulsionar uma paz justa e duradoura, em conformidade com o Direito Internacional, as resoluções pertinentes da ONU, os acordos anteriores e em busca de uma solução viável de dois Estados”.
A votação é considerada um teste decisivo para as eleições legislativas de 1º de novembro, embora ainda haja dúvidas sobre a capacidade de organizá-las, dada a falta de um acordo político entre a Fatah e o Hamas e as dificuldades técnicas para organizar o processo, especialmente no caso de Jerusalém Oriental, onde Israel impediu a votação em 2021, o que provocou o adiamento das eleições.
A tudo isso soma-se a situação de segurança na própria Cisjordânia, onde dezenas de palestinos morreram em ataques perpetrados por colonos e pelas forças de segurança e onde o governo de Israel ampliou a construção de assentamentos e a expropriação de terras palestinas, apesar das críticas internacionais a essas ações, que violam o Direito Internacional e minam a viabilidade da solução de dois Estados.
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