Publicado 19/03/2026 21:30

Macron nega a existência de um "plano B" para o empréstimo a Kiev vetado por Orbán: "Não devemos ceder, está em jogo a credibilidade

Merz critica a "grave falta de lealdade" e Meloni pede "flexibilidade" e que seja reparado o gasoduto que abastece a Hungria com gás russo

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, ao término do Conselho Europeu.
FREDERIC GARRIDO-RAMIREZ / EUROPEAN COUNCIL

BRUXELAS, 20 mar. (EUROPA PRESS) -

O presidente da França, Emmanuel Macron, negou que os líderes estejam considerando um “plano B” para cobrir as necessidades urgentes de financiamento da Ucrânia caso persista o veto da Hungria ao empréstimo europeu de 90 bilhões de euros, pois, segundo ele, não devem “ceder” a um descumprimento de acordos prévios que coloca “em jogo a credibilidade” do Conselho Europeu.

“Não devemos ceder em algo que não tem precedentes. Quando os chefes de Estado e de Governo chegam a um acordo sobre uma decisão, esta deve ser cumprida”, defendeu Macron em uma coletiva de imprensa em Bruxelas, ao término de uma cúpula dos Vinte e Sete na qual Orbán deixou claro que manterá o veto enquanto não for reativado o fluxo de gás russo para a Hungria, suspenso devido aos danos que um ataque russo causou no oleoduto de Druzhba na Ucrânia.

Questionado se os líderes estão estudando algum “plano B” ou se esperam que, após as eleições de 12 de abril na Hungria, a situação se desbloqueie, Macron evitou qualquer referência às eleições e descartou categoricamente a existência de tal “plano B”, embora tenha sugerido que “talvez” a Comissão Europeia esteja trabalhando em “questões técnicas de curto prazo” para as próximas semanas.

No entanto, acrescentou, os chefes de Estado e de Governo da UE “não devemos ceder em algo que não tem precedentes”, porque quando os líderes chegam a um acordo sobre uma decisão, “ela deve ser cumprida”.

“Caso contrário, seria, de certa forma, o colapso do próprio sentido do nosso diálogo. Não há 'plano B', porque o 'plano A' deve ser cumprido. Está em jogo a credibilidade do Conselho Europeu", reforçou, referindo-se ao fato de que os líderes concordaram por unanimidade na cúpula de dezembro em conceder esse empréstimo e que a Hungria e a Eslováquia deram seu aval em troca de uma isenção que as livrava de arcar com o custo — juntamente com a República Tcheca.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, também classificou a atitude de Orbán como uma “grave falta de lealdade” entre os Estados-membros, que “prejudica a capacidade de ação e a reputação da União Europeia como um todo”; ao mesmo tempo em que alertou que essa solução já era o “plano B” acordado em dezembro, quando os líderes descartaram outras opções para financiar Kiev, incluindo a de recorrer aos ativos russos congelados em solo europeu.

De qualquer forma, o chanceler afirmou que a Comissão explorará outras “alternativas” e que, “se necessário”, os Vinte e Sete voltarão a tratar deste assunto na cúpula informal que os reunirá no final de abril em Nicósia (Chipre).

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, por sua vez, pediu “flexibilidade a todas as partes” ao término da cúpula e mostrou-se confiante de que a situação “possa ser resolvida”, de modo que se reabra o fluxo de gás russo pelo gasoduto danificado pelo ataque de Moscou ao território ucraniano e, ao mesmo tempo, se desbloqueie o empréstimo de 90 bilhões. “Acredito que, trabalhando juntos, será possível encontrar uma solução”, concluiu.

90 MINUTOS DE DISCUSSÃO COM ORBÁN

Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia reuniram-se nesta quinta-feira para abordar questões de competitividade, a crise no Oriente Médio e medidas para amenizar o aumento dos preços da energia após os ataques ao Irã, mas o veto húngaro surgiu como primeiro ponto de discussão; em um debate ao qual os líderes dedicaram cerca de 90 minutos e que terminou sem que as posições se alterassem.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, expressou com veemência a decepção pelo fato de Orbán estar colocando obstáculos a um acordo juridicamente vinculativo que os líderes fecharam em dezembro passado; uma posição que foi amplamente apoiada pelos demais líderes à mesa, segundo indicaram fontes europeias.

O ex-primeiro-ministro português também criticou as ameaças veladas de Kiev contra Orbán, quando o primeiro-ministro da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou que, se o veto persistisse, daria aos militares ucranianos o número de telefone do húngaro para que falassem com ele “na sua própria língua”.

Em resposta, Orbán avisou que não pretende mudar de opinião e defendeu que seu bloqueio ao empréstimo tem uma base jurídica sólida, apesar de os demais países criticarem o fato de ele vincular o acordo sobre o orçamento aos problemas de abastecimento de petróleo russo que a Hungria enfrenta após o ataque russo que danificou o oleoduto Druzhba na Ucrânia.

Aos olhos dos demais parceiros da UE, a questão do oleoduto — para cuja solução tanto Costa quanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estão mediando — é completamente diferente e não tem nada a ver com a ajuda urgente de que Kiev precisa para atender às suas necessidades financeiras.

De qualquer forma, os líderes encerraram a discussão após 90 minutos sem encontrar uma solução, pelo que o empréstimo continua em suspenso, sem que esteja previsto retomar este assunto mais tarde na cúpula, nem na videoconferência que mantiveram em seguida com Zelenski, uma vez que se considera que as dificuldades para liberar o empréstimo são uma questão interna do bloco.

ORBÁN E FICO REAFIRMAM SUA POSIÇÃO

Uma vez encerrado o debate sobre a Ucrânia, o primeiro-ministro húngaro reconheceu que essa troca de pontos de vista com seus parceiros foi “dura”, pois recebeu “pressão” de todos os lados, mas que ele se manteve firme em sua posição, além de contar com o apoio de todo o país. “É impossível me chantagear aqui quando há uma unidade nacional” de rejeição à “chantagem” por parte da Ucrânia, argumentou ele, durante um intervalo da cúpula.

Também o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, que atribuiu o bloqueio ao empréstimo ao fato de “não ter sido definida nenhuma data” para a retomada do fornecimento pelo oleoduto, criticou que os demais líderes não tivessem respeitado o direito dos dois países de “receber petróleo russo até o final de 2027”, inclusive por via marítima.

ACORDO EM DEZEMBRO COM ISENÇÃO PARA A HUNGRIA

Em dezembro, os líderes, com o apoio de Orbán, acordaram um empréstimo europeu de 90 bilhões de euros, com a condição também validada de que a Hungria, a Eslováquia e a República Tcheca não participassem do crédito.

No entanto, Orbán reativou seu veto a esse empréstimo e ao vigésimo pacote de sanções contra a Rússia, alegando problemas de abastecimento em seu território em consequência do dano ao oleoduto Druzhba na Ucrânia, e avisou que não desbloqueará as decisões europeias até que o fluxo de petróleo russo para a Hungria seja reativado.

Sobre a posição de Orbán, o primeiro-ministro da República Tcheca, Andrej Babis, afirmou que essa questão não é de sua competência — “é problema dele, não meu” — e que ele iria concentrar seus esforços nesta cúpula em discutir isenções para o sistema de comércio de emissões ETS que, em sua opinião, está “destruindo” a indústria europeia.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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