EUROPA PRESS - FERNANDO SÁNCHEZ
Ele defende que suas memórias são um “livro sincero” para as futuras gerações e que nelas já reconhece seus erros MADRID 21 fev. (EUROPA PRESS) -
A escritora francesa Laurence Debray passou dois anos em Abu Dhabi com o rei emérito para ajudá-lo a escrever suas memórias. Esse tempo permitiu-lhe conhecer um homem com um grande senso de dever, que não quer incomodar seu filho, Felipe VI, e que reconheceu os erros cometidos, por isso não entende que em Espanha ainda haja quem continue a pensar que ele deve um pedido de desculpas aos espanhóis pelo seu comportamento.
A elaboração de “Reconciliação”, publicado em novembro na França e em dezembro pela Planeta na Espanha (onde já teve seis edições e foi um dos mais vendidos de 2025), foi “um processo longo porque eu queria que fosse a voz dele”, conta Debray em entrevista à Europa Press. Os dois passaram muitas horas conversando, depois ela tinha que escrever e o ex-monarca revisava até se sentir “totalmente confortável com o resultado”.
No final, o livro é um compêndio de suas “memórias” e “recordações”, já que ele não teve acesso aos seus arquivos no Palácio da Zarzuela, embora em algumas ocasiões tenha entrado em contato com amigos “para ter certeza da data, da pessoa ou do contexto”, explica. Segundo Debray, desde o início, tanto o emérito quanto ela tinham claro que o livro deveria cobrir toda a sua vida. “Ele queria falar sobre sua infância e sua família” porque queria revelar “um pouco do homem por trás do rei”. “Parecia-me normal que ele falasse não apenas do lado bom, mas também do lado ruim”, afirma. “É assumir tudo e acho que não houve nenhuma dúvida sobre esse fato”, acrescenta, ressaltando que “ele reconhece seus erros”.
A escritora defende que Don Juan Carlos queria escrever um livro dirigido “aos jovens espanhóis e do mundo” para “dar sua visão dos fatos e sua maneira de sentir e viver as coisas”. Portanto, “vocês têm que entender que este livro não é dedicado aos espanhóis”, mas que o que ele busca é “deixar um testemunho” para as futuras gerações. É UM LIVRO PARA A HISTÓRIA
E, nesse sentido, e dado que o livro foi publicado primeiro na França, já foi publicado também em Portugal e está sendo preparada uma versão em inglês, não fazia sentido entrar em “detalhes” sobre as relações extraconjugais, porque não é algo que ficará para a história. “É um livro para a história com ‘H’ maiúsculo”, argumenta. Em sua opinião, é mais importante falar sobre sua relação com Franco, sobre a Transição, sobre a Constituição, “mas às vezes os espanhóis se esquecem de que é um livro também para o mundo, não apenas para a imprensa sensacionalista espanhola”.
Nesse sentido, quando questionada sobre se Juan Carlos I já pensou em pedir desculpas pelos erros que reconheceu, como alguns reclamam na Espanha, onde o presidente, Pedro Sánchez, disse que ele devia “explicações” por suas ações e o PSOE foi ainda mais longe e afirmou que ele devia um “pedido de desculpas”, ela responde categoricamente: “Mas desculpas por quê?”.
Debray não esconde sua perplexidade, como francesa, pelo fato de que na Espanha querem que o antigo monarca peça desculpas, levando em conta que “há problemas de gestão do Estado, há pessoas que morrem, há pessoas que vivem muito mal, e o chefe do governo pede desculpas por algo? Alguém renunciou a algo?”.
“Pedem ao rei coisas que nem sequer aplicam a si mesmos. Acho isso muito estranho, desculpem”, acrescenta. “Sou francesa e não quero meter-me na política espanhola, mas às vezes o contexto faz-me rir um pouco”, continua. “E o que eles querem? Que ele peça desculpas por quê? Ele abdicou, deixou o poder para o filho e vive fora sem incomodar ninguém”, reforça. ACREDITA QUE SEU EXÍLIO É O MELHOR PARA A COROA
Por outro lado, ela reconhece a tristeza que representa para o emérito não ter uma relação mais próxima com seu filho e com a princesa Leonor. “Ele é um avô de 88 anos, que vive longe de seu país e de sua família, muito isolado, mas aceita isso do ponto de vista institucional” porque considera que “é melhor assim para a Coroa”.
Segundo Debray, “ele está sempre atento para não incomodar seu filho, para fortalecer a Coroa, para se sacrificar pela Coroa, para viver longe e fora do país para deixar seu filho em paz” e já internalizou isso. Também por esse motivo, certamente Dona Sofia não viajou até agora para visitá-lo em seu exílio nos Emirados Árabes Unidos, comenta. A autora explica que ele ficava muito emocionado ao falar da rainha, sobretudo do início de seu relacionamento e de sua lua de mel, assim como ao falar de seu pai, Don Juan. Nesse caso, também demonstrava certo remorso por “não ter dado pompa suficiente quando lhe entregou os direitos dinásticos” dos Bourbon em 1977, embora depois lhe tenha feito um funeral digno de um rei. NÃO PROCURA SER POLITICAMENTE CORRETO
“O livro é muito honesto” e em nenhum momento tenta ser “politicamente correto” e dizer certas coisas para ficar bem. “É um livro escrito com o coração aberto, é a sua verdade e é muito sincero”, argumenta Debray, que garante que em nenhum momento da sua elaboração a Casa Real entrou em contato com ela, embora diga não saber se Felipe VI falou com seu pai.
Debray afirma que “Reconciliação” “será a versão final”, descartando a possibilidade de uma edição ampliada ser publicada no futuro. “Já é bastante denso e acho que os livros tendem a ser reduzidos porque as pessoas leem pouco”, ironiza, ressaltando que, além disso, existem outros livros sobre a figura de Juan Carlos I e seu reinado.
Quanto ao fato de não ter havido uma apresentação pública com quem foi monarca durante quase quatro décadas, explica que, no caso da França, era necessário “mais contexto” e, por isso, optou-se por vários jornalistas viajarem a Abu Dhabi para entrevistá-lo. “Na Espanha, ele gostaria de ter feito uma apresentação com alguns atores da Transição ou que foram muito ativos durante seu reinado, mas fizeram-no entender que isso não era bem visto”, acrescenta.
No que diz respeito ao seu estado de saúde, Debray confirma que “ele está bem”, embora continue sendo um homem de 88 anos com problemas de mobilidade, e que os médicos o aconselharam a diminuir o ritmo e não viajar tanto. Esse foi precisamente o motivo alegado para não comparecer no mês passado ao funeral da princesa Irene, irmã de Dona Sofia. “Ele ficou muito triste por não poder comparecer” e ficou muito afetado com a morte dela, garante. Don Juan Carlos se preocupa em não saber o que será dele quando morrer. “Ele já aceitou isso, mas não deixa de ser doloroso para ele, mas ele não reclama e diz ‘que horror, vou acabar aqui sozinho em Abu Dhabi’”, afirma. “Ele não entra em esses detalhes porque não quer incomodar”, observa. METICULOSO, SÉRIO E TRABALHADOR
Debray reconhece que tinha uma imagem preconcebida do emérito, sobre quem havia escrito dois livros, mas “sem ter suas confidências”. “Eu imaginava um homem muito mais maquiavélico” e mais apegado ao poder, levando em conta que ele havia esperado durante anos por Franco “para se tornar rei e depois montar a Transição”, “um processo muito sutil que ficará na história”.
“Isso desmoronou totalmente”, afirma. “Vi um homem muito instintivo, muito mais reflexivo (...) com muito mais autoridade do que eu pensava”, já que foi ele quem negociou com os militares, com os comunistas, com Suárez... embora estivesse cercado de conselheiros, apesar de “ele não costumar se destacar”.
“Posso testemunhar que ele é uma pessoa muito meticulosa, muito mais séria, trabalhadora e determinada, sem se cansar, sem reclamar, determinada a terminar o livro”, confessa após os dois anos que passaram juntos na sua elaboração.
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