FRANCISCO J. OLMO/EUROPA PRESS - Arquivo
MADRID, 3 jul. (EUROPA PRESS) -
O coordenador federal da Izquierda Unida (IU), Antonio Maíllo, insta os partidos da Sumar a escolherem o mais rápido possível o candidato e a marca da futura candidatura às eleições gerais, pois isso é fundamental para recuperar o apoio eleitoral e aproveitar o desgaste do PSOE, diante dos casos de corrupção que o envolvem.
Ele também volta a se distanciar das teses apresentadas pelo porta-voz do ERC, Gabriel Rufián, sobre o futuro da esquerda alternativa, ressaltando que não deseja meras alianças com o único objetivo de “maximizar os votos”.
É o que ele expõe no rascunho do relatório político, ao qual a Europa Press teve acesso, e que será submetido à apreciação da Coordenadora Federal da IU, o órgão máximo de direção do partido que se reúne neste sábado.
Maíllo insta à construção de uma “alternativa nacional” da esquerda transformadora e defende que há bases para isso a partir do projeto comum mantido pela IU, Más Madrid, Comuns e Movimento Sumar, sob o lema “Um passo à frente”.
APROVEITAR A “DETERIORIZAÇÃO” DOS SOCIALISTAS
A esse respeito, ele detalha que a esquerda alternativa possui uma base eleitoral “nada desprezível” e que é possível recuperar o fluxo de votos que a coalizão Sumar obteve nas eleições gerais de 2023 se aproveitar o “deterioramento” pelo qual passa o PSOE, que continua manchado pelos “últimos escândalos”, ou seja, os processos judiciais que afetam o entorno do partido.
No entanto, ele alerta que essas bases “são insuficientes se não for resolvida o mais rápido possível a personificação desse espaço político em uma liderança elegível” para as eleições gerais. Publicamente, ele defendeu na última semana que a futura figura de referência eleitoral deveria estar definida “o mais tardar em setembro”.
Ele também pede que se defina o novo nome da futura coalizão, que é outra das incógnitas que ainda persistem, e que se tente integrar novamente as forças políticas que concorreram juntas em 2023, no que parece ser uma alusão a aliados atuais como o Compromís e o Podemos, que rompeu com o Sumar no final de 2023.
NÃO SE TRATA DE RECONSTRUIR O SUMAR, MAS DE CRIAR ALGO NOVO
Para isso, ele sugere elaborar um “programa comum” e buscar a participação da sociedade civil, uma vez que não se trata de recompor “o espaço do passado”, mas de construir uma “nova confluência” em um cenário político marcado pelo “declínio do PSOE, a ascensão do bloco reacionário e a fragmentação da esquerda”.
O líder da IU pede, nesse documento, “visão de longo prazo”, sabendo que a construção de alianças se dá a partir dos territórios e do reconhecimento das organizações que desejam fazer parte da “coalizão” e do projeto “estatal”, que reúna tanto partidos nacionais quanto regionais. Além disso, ele acredita que é preciso tecer acordos para as eleições gerais, regionais e municipais.
ACORDOS PARA AS ELEIÇÕES GERAIS, REGIONAIS E MUNICIPAIS
De qualquer forma, ele afirma que, neste próximo ciclo eleitoral, é preciso mobilizar “frentes amplas e programas transformadores”, mas deixando claro que “não se trata de construir alianças políticas conjunturais para maximizar os votos”, e sim de construir um bloco histórico que contenha a extrema direita com “ambição”.
Essa referência marca uma distância em relação à abordagem de Rufián, que voltou a apelar pela criação de uma esquerda à maneira do Sumar, diante da crise interna que atravessa a formação criada por Yolanda Díaz e liderada pelos partidos nacionalistas.
Vale lembrar que, justamente o Movimento Sumar, em seu rascunho de documento político, se mostra aberto à possibilidade de construir uma aliança conjuntural com forças soberanistas, mesmo que não seja possível construir com elas um projeto comum.
CRITICA A FALTA DE AUTOCRÍTICA DE SÁNCHEZ
Por outro lado, Maíllo denuncia que há uma “operação de derrubada” contra o governo e a existência de “manobras golpistas”, como a condenação do ex-procurador-geral Álvaro García Ortiz ou o “lamentável assédio e perseguição” do juiz Juan Carlos Peinado a Begoña Gómez, esposa do presidente Pedro Sánchez.
No entanto, ele ressalta em seu relatório preliminar que isso não é “obstáculo” para exigir com veemência que o PSOE assuma suas responsabilidades, sobretudo após a condenação do ex-ministro José Luis Ábalos no “caso Mascarillas”, ou reprovar a falta de “autocrítica” de Sánchez durante sua “decepcionante” audiência no Congresso, ao destacar, por exemplo, que sua defesa do ex-presidente José Luis Rodríguez Zapatero já é “insustentável”.
Ele também detalha que todas as medidas sociais das quais Sánchez se orgulha têm a marca do parceiro minoritário, em muitos casos “superando a resistência” do próprio PSOE, e que agora são necessárias medidas contundentes contra a corrupção e ambição no anteprojeto do novo Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2027.
O PGE NÃO PODE SER A DESCULPA PARA ELEIÇÕES
No entanto, ele adverte mais uma vez que o Orçamento “não pode ser a saída política do PSOE para evitar o debate sobre a corrupção”, nem “o passo prévio para convocar eleições” ou “a apresentação oficial do programa” com o qual Pedro Sánchez disputará as eleições de 2027.
Da mesma forma, Maíllo está ciente de que há dificuldades parlamentares para aprovar suas principais propostas em áreas como a habitação, mas percebe que há uma maioria disposta a “democratizar a justiça” e evitar que “parte do judiciário trabalhe para derrubar” o governo.
Assim, ele cita como exemplo o desbloqueio da tramitação da lei para conceder a cidadania aos saharauis ou a reforma para descriminalizar os delitos de opinião. E aponta como prioridade fundamental para o final da legislatura conseguir a revogação dos aspectos mais prejudiciais da Lei de Segurança Cidadã, conhecida por seus detratores como “Lei da Mordaça”. “Este é o caminho, não a paralisia”, concluiu.
JUANMA MORENO “ENGOLIU TODA A AGENDA EXTREMISTA”
Quanto à situação na Andaluzia após o acordo de governabilidade entre o PP e o Vox, ele ressalta que a investidura de Juanma Moreno era “previsível” e que ele “engoliu toda a agenda extremista”. “É mais um peão na operação Feijóo-Abascal para a tomada do Governo da Espanha”, afirma o coordenador da IU, que insta à mobilização social para não permitir retrocessos nos direitos.
PP E VOX JÁ ESTÃO NO DISCURSO DA “FRAUDE ELEITORAL”
Por outro lado, o líder da IU alerta que o PP e o Vox já estão delineando que sua “linha de ataque é o não reconhecimento do resultado eleitoral”, chegando até a “acusar preventivamente de fraude eleitoral” o governo, em alusão a toda a polêmica suscitada pela naturalização de exilados durante o franquismo, prevista na chamada ‘Lei dos netos’.
“Se não vencerem, não reconhecerão o resultado, e a desculpa que vão usar já foi revelada”, alertou Maíllo, instando a uma resposta ao seu “racismo repulsivo”, pois a direita está “desesperada” e “tentará de tudo”.
Em seu relatório, Maíllo destaca que estes são momentos de “urgência democrática” e que a luta é “contra uma ameaça autoritária” que pretende implantar os postulados da “extrema direita global” por meio de uma “operação judicial, política e midiática” cada vez “mais agressiva”.
Dessa forma, ele prevê que, para as próximas eleições gerais, “ninguém tenha dúvidas” de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fará “tudo o que for possível para influenciar o resultado” dessas eleições, assim como já faz, em sua opinião, na América Latina. No entanto, o coordenador da IU apela para que não se caia no “desânimo nem no derrotismo”, mas sim para que se forme essa frente de esquerda.
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