FRANCISCO J. OLMO / EUROPA PRESS
CÓRDOBA 20 jan. (EUROPA PRESS) - A irmã de um dos garçons do trem Alvia que sofreu um acidente em Adamuz (Córdoba) e está desaparecido, María del Mar Falón, afirmou que seu irmão e outros colegas haviam manifestado em várias ocasiões sua preocupação com o estado dos trilhos e com a forma como os trens circulavam. “Meu irmão chegava e dizia: ‘Como o trem balançava hoje, eu fiquei com medo. Chegamos ao destino com dificuldade’”, relatou. Segundo ela afirmou em declarações à mídia, não se tratava de uma situação pontual. “Muitos usuários da Renfe vinham reclamando há muito tempo que os trens estavam muito ruins, que balançavam muito e que davam medo”, afirmou. Ela acrescentou que “ir trabalhar com medo é muito triste” e que vários colegas de seu irmão compartilhavam dessa sensação. “Meu irmão passou medo no trem e seus colegas também”, reiterou.
Falón também destacou que seu irmão já havia escapado de outro acidente ferroviário no passado, ao trocar de turno com um colega no dia do acidente de Angrois (Santiago de Compostela). “Ele estava de serviço quando o trem da Galícia passou e trocou de turno com o colega”, explicou. “Ele completou 39 anos no dia 3 de janeiro. Comemoramos com seus filhos e agora não vou mais vê-lo", lamentou visivelmente emocionada. "TOTAL FALTA DE INFORMAÇÃO"
Além disso, criticou a “desorganização” e a “falta total de informação” por parte das instituições às famílias das vítimas, bem como a “lentidão” nos processos de identificação, e exigiu “justiça” pelo que aconteceu, garantindo que seu irmão e outros trabalhadores haviam alertado em várias ocasiões sobre o mau estado dos trilhos e as condições em que os trens circulavam.
Assim, Falón explicou que as famílias estão recebendo “todas as informações pela televisão ou pela internet” e que, até o momento, ninguém lhes comunicou oficialmente “nem quantos mortos há, nem como avançam os trabalhos de resgate”. “Não sabemos absolutamente nada. Tudo o que sabemos é porque vemos nas notícias”, lamentou, ao mesmo tempo em que destacou que “não é normal que estejam ligando para uma família, das quatro vítimas fatais, e elas fiquem sabendo quase ao mesmo tempo pela internet”.
Segundo ele, sua família foi uma das primeiras a chegar a Córdoba após o acidente, depois que um colega de seu irmão os levou de Madri. “Fomos ao quartel da Guarda Civil, tiraram uma amostra de DNA da minha mãe às oito da manhã e nos disseram para vir aqui”, detalhou.
Nesse sentido, questionou a demora nas identificações, tendo em conta a proximidade do local do acidente. “Porquê tanta lentidão? A aldeia fica aqui ao lado. Não é como se fosse preciso fazer uma viagem de duas horas”, criticou, reclamando “um pouco de informação” para as famílias.
Falón afirmou que as instituições alegam a lei de proteção de dados para não fornecer informações, uma explicação que considera “vergonhosa”. “Há proteção de dados para o que eles querem”, criticou. Além disso, criticou a falta de coordenação e comunicação entre os órgãos envolvidos. “Eles não sabem nem quantos restam nem como estão indo os trabalhos. Tudo o que sabemos é pela televisão", insistiu, acrescentando que as famílias não sabem se "continuam a resgatar pessoas ou não". A irmã do trabalhador desaparecido sublinhou que a espera está a ser "desesperante" e pediu às autoridades que informem "mesmo que seja pouco a pouco". "Somos humanos. Tenham um pouco de compaixão”, reclamou. CRÍTICAS ÀS INFRAESTRUTURAS E À GESTÃO PÚBLICA Durante sua intervenção, Falón criticou duramente o estado das infraestruturas e o destino dos impostos. “A saúde está péssima, as estradas ainda piores. A estrada da Andaluzia é uma vergonha. É a porta de entrada da Andaluzia e todo mundo passa por lá", apontou. Neste contexto, ela afirmou que seu marido, autônomo com uma barbearia em Boadilla, paga "impostos exorbitantes" sem que, em sua opinião, isso se traduza em serviços públicos de qualidade. “Para quê? Em que é que eles gastam?”, questionou. No entanto, salientou que a Renfe “não tem culpa de nada” no que diz respeito à assistência às famílias, destacando que a empresa facilitou alojamento e apoio psicológico. “Temos apoio de psicólogos da Renfe, da Cruz Vermelha e daqui de Córdoba. A Renfe está a ligar e a perguntar se temos hotel. Para todo mundo”, precisou. Por outro lado, afirmou que nenhum responsável institucional entrou em contato com ela. “Ninguém me ligou. Nenhum conselheiro, ninguém das instituições. E tenho o chefe do meu irmão aqui o dia inteiro preocupado”, disse. EXIGÊNCIA DE JUSTIÇA
A irmã do camarero deixou claro que não procura compensações financeiras. “Não quero o dinheiro de ninguém. Esse dinheiro não vai trazer o meu irmão de volta”, sublinhou, insistindo que o que exige é “justiça”. “Que caiam as cabeças que têm de cair. Isto não é culpa dos cidadãos nem da Renfe. Isto é culpa dos que estão no topo, dos que estão a gastar o dinheiro onde não devem", afirmou. Neste sentido, apontou diretamente o Ministério dos Transportes como entidade competente. "Não me importa de quem é a culpa, mas que rolem cabeças", concluiu.
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