Rouzbeh Fouladi / Zuma Press / Europa Press
Teerã fala em “duplo padrão” e critica o fato de o texto ter sido impulsionado pelos EUA, após o papel desempenhado por esse país na ofensiva ao lado de Israel
MADRID, 10 set. (EUROPA PRESS) -
As autoridades do Irã criticaram a resolução aprovada na quarta-feira pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para levar, pela primeira vez em duas décadas, o programa nuclear de Teerã ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, tendo denunciado o “duplo padrão” em torno do caso, em pleno conflito causado pela ofensiva lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o país.
O primeiro vice-presidente do Irã, Mohamad Reza Aref, criticou a votação do texto, proposto pelos Estados Unidos e pelos países do E3 — Reino Unido, França e Alemanha —, antes de destacar que o documento foi apresentado “por aqueles que possuem bombas atômicas, os responsáveis pelo ataque a Hiroshima e aqueles que violam o acordo do Plano de Ação Conjunto Global (PACG)”, nome oficial do acordo nuclear firmado em 2015, do qual Washington se retirou unilateralmente em 2018.
Assim, ele declarou nas redes sociais que esse fato “é um símbolo do duplo padrão no mundo atual”. “Aqueles que ameaçam nossa infraestrutura e nossa civilização não têm legitimidade para julgar. A nação iraniana permanece firme em seus direitos legais e em sua estratégia para uma energia nuclear pacífica”, acrescentou.
O vice-ministro das Relações Exteriores para Assuntos Jurídicos e Internacionais, Kazem Qaribabadi, também criticou a decisão do Conselho de Governadores da AIEA, atacando novamente os Estados Unidos por sua ofensiva e por usar o impacto dessa ofensiva sobre o programa nuclear iraniano para promover textos condenatórios contra Teerã.
“Eles atacam as instalações nucleares do Irã que estão sob salvaguardas, interrompem o curso normal das verificações e, em seguida, utilizam essa mesma interrupção como pretexto para emitir resoluções no Conselho de Governadores”, afirmou.
“Com essas manobras, eles não conseguirão compensar o fracasso de suas políticas e ações, nem conseguirão nada no Conselho de Segurança (da ONU)”, ressaltou Qaribabadi por meio de uma breve mensagem publicada nas redes sociais.
UMA RESOLUÇÃO “POLÍTICA”
Nesse sentido, a missão do Irã junto aos órgãos das Nações Unidas em Viena lamentou que “mais uma vez, uma resolução política sobre o Irã tenha sido aprovada sem consenso pela AIEA”, após as críticas expressas pela Rússia, China e Irã sobre o conteúdo do texto apresentado pelos Estados Unidos e pelo E3.
“Isso segue uma tendência reveladora e contribui para uma maior erosão e o colapso definitivo do regime de não proliferação como um todo. A situação atual surgiu exclusivamente devido aos atos criminosos de agressão perpetrados pelos Estados Unidos e pelo regime israelense”, afirmou.
A missão ressaltou que “o objetivo ilusório dos Estados Unidos de forçar a grande nação iraniana a ‘se render’ e de saquear seu petróleo jamais se concretizará”, antes de afirmar que “apesar de dois anos de guerra total travada pelos próprios Estados Unidos, juntamente com todos os seus aliados, parceiros e agentes intermediários, esse objetivo perverso não foi alcançado nem jamais será”.
“Nunca poderão reverter essa derrota por meio da aprovação de uma resolução tendenciosa na AIEA. No passado, resoluções semelhantes do Conselho de Governadores da AIEA elogiavam uma ‘solução diplomática’, mas Washington recorria quase imediatamente ao uso ilegal da força”, lembrou.
Nesse sentido, ele acusou os Estados Unidos de “ignorar todos os esforços para alcançar uma solução diplomática” e bombardear “instalações nucleares pacíficas” e outros alvos civis, “violando princípios fundamentais do Direito Internacional”, em suas ofensivas ao lado de Israel em junho de 2025 e fevereiro de 2026.
A APROVAÇÃO DO TEXTO
A resolução aprovada pelo órgão sustenta que o Irã ainda não forneceu “explicações técnicas credíveis sobre a presença de partículas de urânio de origem antropogênica em instalações não declaradas” e que deve “cumprir suas obrigações” nos termos do Acordo de Salvaguardas do Tratado de Não Proliferação (TNP), do qual Teerã é signatária.
O texto exige que as autoridades iranianas “cooperem plenamente” com a AIEA, incluindo “garantir acesso imediato e irrestrito a todos os locais, equipamentos e documentação necessários”, depois que Teerã impediu essas ações alegando violações de seus direitos como signatária do TNP em decorrência das referidas ofensivas.
O documento ressalta também que essa “falta de informações sobre materiais nucleares, incluindo o material armazenado enriquecido a 60%”, representa “graves preocupações em termos de proliferação”, razão pela qual solicita ao diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, que encaminhe este documento e as resoluções anteriores ao Conselho de Segurança e à Assembleia Geral da ONU.
A votação resultou em 23 votos a favor, oito abstenções e três votos contra — China, Rússia e Níger — no Conselho de Governadores da AIEA, composto por 35 países. Dentre eles, a China e a Rússia têm direito de veto no Conselho de Segurança, o que reduz as expectativas de que o órgão aprove algum tipo de medida contra o Irã com base nesse documento,
A possibilidade de aprovar uma resolução nesse sentido vem sendo considerada desde junho de 2025, quando o Conselho de Governadores da AIEA declarou que o Irã estava em incumprimento de suas obrigações de não proliferação devido à sua falta de cooperação, após o que Israel lançou, um dia depois, uma ofensiva surpresa contra o país, usando esse fato como justificativa.
Os Estados Unidos aderiram dias depois à ofensiva com bombardeios contra três instalações nucleares iranianas, um fato duramente criticado pelo Irã, que lembrou que, no momento em que Israel lançou sua ofensiva, Washington e Teerã estavam negociando para tentar chegar a um novo acordo nuclear.
Apesar de as partes terem chegado a um cessar-fogo e retomado posteriormente as negociações para tentar alcançar um novo acordo nuclear que substituísse o de 2015 — que ficou vazio de conteúdo após a retirada de Washington do acordo em 2018 —, Israel e os Estados Unidos lançaram novamente uma ofensiva surpresa contra o Irã em 28 de fevereiro, sem que, até o momento, tenha sido alcançado um acordo de paz.
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