Antonio Sempere - Europa Press - Arquivo
O arcipreste da ilha admite que “se tentou”, mas não houve tempo, e garante que a comunidade de El Hierro será reconhecida nas cerimônias
VALVERDE (EL HIERRO), 31 (EUROPA PRESS)
A ilha de El Hierro, principal porta de entrada da migração irregular para as Canárias, com a chegada de mais de 50.000 pessoas desde 2020 — seu pico foi em 2024, com quase 30.000 —, digere a decepção de ter ficado de fora da visita oficial do Papa Leão XIV, que visitará apenas Tenerife e Gran Canaria.
“Tentamos a todo custo”, reconhecem na Diocese de Tenerife, mas as dificuldades logísticas associadas a uma viagem dessas tornaram inviável a realização do desejo do Papa Francisco de rezar diante das canoas no porto de La Restinga.
Isso também é reforçado pelo arcipreste da ilha, Juan Rodríguez, que reconhece que “se pode chegar até onde for possível” e, de qualquer forma, assume a “alegria” que representa a visita do Papa às Canárias para ajudar a sensibilizar sobre a chegada de migrantes e seu acolhimento.
“Os habitantes de El Hierro entenderam isso muito bem”, afirma, ressaltando que uma delegação da ilha estará em Tenerife, tanto na missa quanto no evento com organizações sociais na Praça do Cristo, em La Laguna.
A viagem, que reúne as três paróquias da ilha, conseguiu organizar três ônibus que embarcarão na madrugada de sexta-feira de barco a partir de Valverde e retornarão à ilha já à tarde.
Além disso, um dos padres de El Hierro poderá conversar com Leão XIV; a ONG “Corazón Naranja”, que atende migrantes no centro de San Andrés, estará representada em Tenerife; um jovem da ilha fará uma das leituras e outro morador participará da oferenda.
“A possibilidade foi considerada, tentou-se, mas o tempo não permitiu que ele viesse até El Hierro”, indica, ao mesmo tempo em que reconhece que foi o Papa Francisco quem “sempre” teve a intenção de vir “e ver a realidade em primeira mão”, e León XIV “estará nas Canárias, onde também chegam as embarcações de migrantes, de modo que a realidade será vista, o que era também a intenção do Papa Francisco”.
O arcipreste destaca que a situação migratória na ilha agora está “mais tranquila”, embora sempre “estejam chegando” embarcações, mas o povo de El Hierro “conhece e sabe muito bem o que é emigrar” — seu pai o fez para a América em um veleiro — e ser “artesãos do acolhimento”, como o próprio Papa batizou.
Nessa linha, ele expõe que o objetivo da viagem é “humanizar, personificar o drama que se vive nessa rota tão mortal” e perceber que aqueles que chegam “são pessoas” e devem ser tratados “com dignidade”.
“Esse é o apelo que a Igreja faz para acolher, amar e receber como pessoa todos aqueles que estão chegando a cada um desses lugares, e esse é o trabalho que se faz em El Hierro”, acrescenta.
De fato, ele comenta que a comunidade religiosa da ilha faz parte do voluntariado e presta “a maior colaboração possível” quando chega um cayuco, e “não como padres”, mas como “mais um” na ilha que “está recebendo uma pessoa que chega totalmente destruída, abatida; esse é o nosso trabalho”.
ALPIDIO ARMAS: “EL HIERRO FOI DEIXADA DE LADO”
O presidente do Cabildo de El Hierro, Alpidio Armas, eleva ainda mais o tom e afirma que a população “está absolutamente decepcionada” porque o Papa Francisco “disse claramente que queria vir rezar em La Restinga” e o Papa Leão “não pode ou sua agenda foi organizada de outra forma”.
Armas considera “surpreendente” que, se esta viagem visa “fazer das Canárias o ponto de partida da imigração, da solidariedade e do tratamento humanitário”, o local mais relevante na ilha de El Hierro.
“Alega-se motivos de infraestrutura, motivos logísticos, de que não há capacidade, e eu acredito que isso são desculpas puras e simples”, comenta, já que “não custa nada” pegar um voo e estar em La Restinga por pelo menos “uma hora” para realizar um evento, sendo que esse é o porto das Canárias por onde chega “60% dos migrantes”.
O presidente entende que “perdeu-se uma oportunidade” de reconhecer a “solidariedade, empatia e carinho” com que os migrantes são recebidos e critica até mesmo a falta de informação ao Cabildo sobre a organização da visita. “El Hierro foi deixada de lado”, detalha.
Para Armas, “quem quer que tenha organizado isso, e, repito, desconheço totalmente quem o fez, e se foi uma questão envolvendo várias instituições, agiu mal do nosso ponto de vista, porque não nos consultaram, não conversaram conosco, não nos perguntaram, e se ele quisesse vir a El Hierro, como parece que o Papa Francisco anunciou, bem, teríamos feito tudo o que fosse necessário e mais ainda para que o Papa tivesse a possibilidade de vir".
CORAZÓN NARANJA: PRONTOS DESDE QUE CHEGA UM CAYUCO
Francis Mendoza, coordenador insular da Proteção Civil em El Hierro e um dos impulsionadores do projeto 'Corazón Naranja-Ebrima Sonko', que presta serviços aos migrantes no CATE de San Andrés — Medalha de Ouro do Governo das Canárias —, detalha que são pouco mais de vinte pessoas que estão sempre preparadas “a qualquer hora”.
De fato, assim que um cayuco chega a La Restinga, eles já são avisados para se prepararem em San Andrés.
“Nós cuidamos das refeições, se for preciso levar alguém ao médico, se for preciso levar uma pessoa ao banheiro, ajudar quem não consegue andar, distribuímos cobertores, preparamos chá quente e até ajudamos a polícia”, comenta.
É outra história quando chegam bebês ou crianças muito pequenas: “Começamos a dar banho neles, trocar de roupa, se for preciso preparar uma mamadeira, preparamos uma mamadeira, o que for necessário”.
Francis destaca que são os “únicos voluntários” de toda a rede de acolhimento de migrantes na ilha e não pede “salários”, mas sim “recursos materiais”, admitindo que agora a assistência é “melhor” do que quando chegavam as “ondadas” de cayucos com pessoas muito afetadas pela dureza da travessia.
Assim como o arcipreste, ele valoriza a “integração” da comunidade migrante na ilha, já que as Canárias “por si só são terra de imigrantes” e em El Hierro há muitos descendentes de canários que emigraram para a Venezuela.
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático