BAEZA (JAÉN), 19 (EUROPA PRESS)
O poeta e diretor do Instituto Cervantes, Luis García Montero, alertou sobre como a cultura contemporânea vive em um momento em que há “pressa demais” e “tenta-se impedir que os seres humanos sejam donos de suas próprias consciências”. Diante disso, ele defendeu a poesia como “ferramenta fundamental para a sociedade atual”, na qual vê um risco para os “valores democráticos”.
Em entrevista concedida à Europa Press na sede Antonio Machado da Universidade Internacional da Andaluzia (UNIA), em Baeza (Jaén) — onde participa como palestrante do curso de verão “Poesia e flamenco” —, ele expressou seu “temor” diante da situação atual.
Nesse sentido, ele observou que a população “olha para a realidade externa e vê como os valores democráticos estão sendo questionados”, por isso alertou que a liberdade já não serve para definir o respeito à consciência dos outros, mas para “definir a lei do mais forte, que faz livremente o que bem entende”.
“A cultura é o ar que respiramos e esse ar que as pessoas estão respirando é um ar onde a tensão, as reações imediatas e a falta de reflexão predominam”, afirmou ela, após afirmar que “o respeito que antes envolvia o nome de Antonio Machado ou de Federico García Lorca, agora está muito mais diluído em outro tipo de características que não têm a ver com uma civilização da cultura, mas com o que Mario Vargas Llosa estudou como civilização do espetáculo”.
Nesse sentido, o também professor universitário considerou que a reinvenção da poesia consistirá em “devolver-lhe o papel que cabe a tudo o que convive com o ser humano”, ressaltando que a cultura e a poesia “são mais necessárias do que nunca” em uma época marcada pela instantaneidade das redes sociais.
MERCADORIZAÇÃO
“Esta sociedade mercantiliza tudo e mercantilizou conceitos tão importantes quanto o tempo, que se tornou uma mercadoria descartável”. Algo que provocou, em sua opinião, que “o instante imediato substitua a memória, a lentidão da meditação, as heranças recebidas e as possibilidades de conhecimento”
O diretor do Instituto Cervantes criticou o fato de que, para aqueles que mercantilizam tudo, “conveio” que as pessoas não fossem donas de sua própria consciência e que a tendência fosse “falar sem pensar”. Fenômeno que ele também identificou no âmbito da informação, com “impacto imediato e manchetes chamativas”.
“Nas redes sociais, muitas vezes as manchetes circulam sem que ninguém se dê ao trabalho de ler o trabalho de um profissional da informação que explica o que está acontecendo”, comentou. Um problema que se estendeu à política, onde “os privilégios do populismo são privilégios do fanatismo, criados para que as pessoas tenham reações imediatas a serviço de certos dogmas”.
O escritor também reivindicou a figura de María Zambrano e seu conceito de “razão poética” para destacar que a esperança é “indispensável” e que um poeta “não fecha os olhos”, já que “deveria conhecer os problemas da realidade”. Da mesma forma, ele manifestou seu “temor” diante da sensação de perda da identidade poética.
Questionado sobre o poder da poesia de conscientizar, ele analisou as opiniões de autores clássicos como Antonio Machado, Federico García Lorca e Gustavo Adolfo Bécquer sobre o cante jondo. Conforme explicou, quando esses autores falavam de poesia popular ou do povo, “o pessoal e o coletivo estão sempre unidos; por isso, eles começavam falando do cante jondo ou da poesia e acabavam tomando consciência dos problemas da realidade”.
“Existe o risco de ficar preso aos valores do passado, pois a pessoa pode realmente se tornar um velho rabugento e pensar que o mundo pertence aos valores que existiam quando ela nasceu, no final do século XX. O mundo muda, o tempo muda e a pessoa precisa se observar para compreender a época em que vive”, disse García Montero, quando questionado sobre a mudança geracional.
O COLETIVO
Por sua vez, ele expressou preocupação com a confusão entre o coletivo e o individualismo na era digital. Na sua opinião, nas redes sociais existe o risco de confundir “o coletivo com um agrupamento de indivíduos, o que não é a mesma coisa”, diferenciando esses dois conceitos e ressaltando que “o agrupamento e o rebanho de individualistas alimentam rancores e ódio, enquanto o coletivo convida à fraternidade”.
Além disso, ele insistiu na necessidade de uma cultura que preserve a memória histórica. Ele afirmou que lhe preocupa “uma cultura que zele por sua própria consciência, que não apague a memória, que se sinta herdeira do passado e que lute contra a ideia do tempo como algo descartável”. Para García Montero, “o diálogo geracional” é “muito importante” para manter viva essa consciência coletiva.
Por outro lado, ele explicou como seu compromisso poético evoluiu desde o fim do franquismo. Tudo começou no final dos anos 70, quando a Espanha saía da ditadura, e perdurou até o desenvolvimento da democracia. No entanto, ele ressaltou que agora o acompanha a preocupação de que tudo o que foi conquistado não se perca pelo caminho.
“Fico com o coração na boca quando abro os jornais e vejo que a violência machista se multiplica ou que os elogios ao autoritarismo se multiplicam. Parece que o intolerável está voltando a ser normalizado, com genocídios e problemas sociais, e isso a democracia não pode tolerar”, concluiu.
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