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O procurador-geral pede a anulação do relatório policial que registra a troca de mensagens entre o magistrado e Daniel Vorcaro
O juiz responsável pelo caso Master solicita uma sessão plenária do Supremo para analisar o documento
MADRID, 2 set. (EUROPA PRESS) -
O juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, Alexandre de Moraes, teria trocado mensagens com o ex-presidente do falido Banco Master, Daniel Vorcaro, investigado por fraudes e irregularidades financeiras, nas quais este último teria solicitado que ele intercedesse para impedir as investigações sobre a instituição financeira e que o aconselhasse sobre como impedir a execução do mandado de prisão preventiva emitido contra ele, segundo um relatório policial.
Isso é refletido em uma série de mensagens coletadas pelo jornal brasileiro “Estadão” a partir de um documento da Polícia Federal e extraídas do celular de Vorcaro, nas quais De Moraes e o ex-banqueiro trocavam mensagens no modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos escritos em um aplicativo de notas. Como consequência desse método, a investigação só conseguiu acessar as imagens enviadas por Vorcaro, sem recuperar nenhuma resposta do magistrado.
A primeira solicitação do ex-diretor do Banco Master ocorreu em 30 de outubro de 2025, quando ele comunicou ao juiz que era “importante reforçar”, junto ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral do Brasil, Paulo Gonet, a orientação de que “ninguém de baixo” cometesse “nenhuma bobagem” com o Banco Master, que, naquele momento, estava prestes a anunciar uma suposta venda para um consórcio com investidores dos Emirados Árabes Unidos.
Naquele momento, segundo o “Estadão”, Vorcaro já havia assinado um contrato de 131 milhões de reais (quase 22 milhões de euros) com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci.
Os pedidos do banqueiro ao juiz se estenderiam até cinco horas antes de sua prisão, na noite de 17 de novembro, no Aeroporto Internacional de São Paulo. “Se Andrei (Rodrigues) puder adiar isso por mais uma semana, já que é feriado, o banco não irá à falência. Tente ligar para ele e convencê-lo, se achar que é possível”, escreveu o “Vorcaro” ao juiz do Supremo.
Dois dias antes de sua prisão, o ex-dirigente do Banco Master chegou a perguntar a De Moraes: “Não podemos reverter isso com o Paulo ou o Andrei? É indignante!”
Além disso, segundo mensagens coletadas pelo jornal “Folha”, Vorcaro teria pedido ao juiz do Supremo que se encontrasse com ele até três vezes nos dias que antecederam sua prisão, confirmando, em alguns casos, horário e local. “Às 14h, então. Passo na sua casa ou na minha?”, dizia em uma das mensagens.
O PROCURADOR-GERAL SOLICITA A ANULAÇÃO DO RELATÓRIO
Na esteira da divulgação dessas mensagens, o procurador-geral do Brasil, Paulo Gonet, solicitou a anulação do relatório da Polícia Federal que registra a troca de mensagens, afirmando que o juiz responsável pelo caso do Banco Master, André Mendonça — também do Supremo Tribunal Federal —, “utilizou a Polícia” para “impor a investigação” de seu colega, realizando “atividades que não lhe cabiam”.
“Não é função do juiz acusar, muito menos conduzir investigações preliminares”, afirmou o procurador no documento em questão, divulgado pelo ‘Folha’.
Um magistrado do Supremo Tribunal Federal só pode ser investigado com a autorização de seus colegas do tribunal. Segundo Gonet, o relatório elaborado pela Polícia Federal a pedido de Mendonça constitui, por si só, uma investigação e, portanto, deve ser invalidado.
“A ordem dada à autoridade policial para investigar pessoas específicas, sem solicitação do Ministério Público e sem iniciativa da própria autoridade policial, é nula e sem efeito, uma vez que excede os limites da competência do magistrado na fase pré-julgamento”, defendeu.
Gonet argumentou que, mesmo que a Polícia tivesse encontrado conversas entre De Moraes e Vorcaro durante a investigação e tivesse solicitado uma investigação ao relator, caberia ao juiz Mendonça encaminhar o pedido ao presidente do Supremo, Edson Fachin, para que este o encaminhasse ao plenário do tribunal para análise.
“Ao solicitar que os elementos da investigação fossem examinados, independentemente de quem fosse a autoridade competente, o ministro relator impôs a investigação ao ministro Alexandre de Moraes, o que acabou ocorrendo em quase 190 das 218 páginas que compõem o relatório policial”, criticou o procurador-geral.
As conversas entre Vorcaro e Moraes constam do material apreendido no celular do ex-banqueiro, material que a Polícia havia conseguido recuperar, embora não tivesse sido analisado até que o juiz Mendonça ordenasse à Polícia Federal que elaborasse um relatório sobre as mensagens no prazo de 72 horas e, posteriormente, enviasse o documento ao Ministério Público para análise.
MENDONÇA SOLICITA SESSÃO PLENÁRIA DO SUPREMO PARA ANALISAR O RELATÓRIO
Por sua vez, Mendonça solicitou uma sessão plenária do STF para analisar mensagens que indicam comunicação entre seu colega De Moraes e Daniel Vorcaro, alegando que esse é “o caminho inevitável” e o “órgão soberano para analisar, de forma técnica e estritamente legal”, as provas apresentadas pela Polícia Federal.
O relator do caso Master afirma que o plenário deve analisar o caso independentemente da posição da Procuradoria-Geral da República e que “deve ocorrer de forma pública e transparente”, em uma sessão presencial, “uma vez que não poderia ser de outra forma, devido ao imperativo constitucional e à consequência inegável do modelo democrático e republicano”.
O caso abalou a política brasileira, na qual o principal rival do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, o ultradireitista Flávio Bolsonaro, teve que se defender de acusações de financiamento irregular ligadas justamente à sua relação com Vorcaro.
“Não houve qualquer tipo de contrapartida para esse investidor durante meu mandato no Senado. Foi um patrocínio que não envolveu nenhuma transferência”, declarou na última sexta-feira, negando que suas interações com o banqueiro, decorrentes do financiamento do filme ‘Dark Horse’ — obra centrada na figura de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado Jair Bolsonaro — implicassem em algum tipo de contrapartida em seu trabalho como senador.
Agora, as revelações decorrentes das decisões do juiz Mendonça viraram o jogo, colocando em foco um De Moraes visto por muitos quase como um aliado de Lula.
Nesse sentido, um magistrado do Supremo alertou em declarações à “Folha” que “o STF, que já se encontrava no cenário eleitoral enfrentando certa animosidade por parte da população, entra agora de cabeça no furacão”. “Ele (Mendonça) acendeu o fósforo dentro do depósito de combustível. Abriu as portas do Supremo Tribunal Federal para o inferno, e ninguém sabe quais serão as consequências”, prosseguiu, apontando também para um hipotético processo de impeachment no futuro de mais de um membro da Corte.
O próprio magistrado afirma acreditar que, em caso de vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro, Mendonça se tornaria uma das pessoas mais poderosas do Brasil, por quem passariam as nomeações de pelo menos três futuros magistrados do Supremo para as vagas que serão abertas no próximo governo.
Outro juiz do STF, em declarações ao mesmo jornal, classificou como “muito questionáveis” os métodos e o momento escolhidos por Mendonça, bem como o vazamento.
“Aqui, todos conduzimos investigações, e sempre se respeita o procedimento e a forma, algo que ele não fez neste caso”, lamentou, antes de ressaltar que é “óbvio” que a situação beneficia Flávio Bolsonaro.
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