Ele alerta que os países europeus “já estão em guerra” com a Rússia: “É ingênuo pensar que só estaremos em guerra se os tanques russos entrarem em Madri”
MADRI, 20 maio (EUROPA PRESS) -
O ex-presidente do Comitê Militar da OTAN, Rob Bauer, revelou que o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, manteve contato telefônico com o presidente do Governo, Pedro Sánchez, durante “mais de 20 horas” na véspera da cúpula de Haia, quando os países da OTAN acordaram as metas de capacidade, que vêm acompanhadas da nova meta de gastos de 3,5% do PIB em Defesa.
“Sei que o secretário-geral Rutte esteve ao telefone com o presidente do Governo Sánchez durante muitas, muitas horas. Mais de 20 horas em várias ligações para garantir que houvesse um acordo”, afirmou em entrevista à Europa Press, durante sua visita a Madri para participar do VII Fórum Internacional Expansión.
Bauer ressalta que o resultado foi que a Espanha disse “sim” às metas de capacidade, às quais se refere como “a lista de compras” da OTAN em matéria militar para garantir a segurança coletiva, seguindo os planos militares da organização.
“A Espanha, por meio do presidente Sánchez, disse: ‘Sim, estou de acordo’. E a Espanha deveria adquirir essas capacidades”, afirmou ele sobre a polêmica gerada na última cúpula de líderes da OTAN em Haia, quando a posição da Espanha tensionou a reunião após se recusar a aprovar a meta de gastos de 3,5% do PIB em Defesa e limitar-se a aceitar a avaliação militar conjunta das necessidades de meios militares e armamento, sem estabelecer um valor. Afinal de contas, os chamados objetivos de capacidade são o resultado de um conjunto de estratégias militares, planos e listas de requisitos nos quais todos os aliados trabalharam e chegaram a um acordo.
Sobre o papel de Rutte, ele ressalta que “tem 32 chefes” com os quais mantém contato regular, minimizando o tom bajulador que mantém com Trump. “Cada líder traz seus próprios problemas nacionais para a mesa da OTAN. Basicamente, eles esperam que, como por magia, o secretário-geral resolva seus problemas nacionais em Bruxelas ou durante a cúpula, o que, é claro, não é possível”, explicou.
De qualquer forma, o chefe militar da OTAN até janeiro de 2025 insiste que a avaliação anual que a OTAN fará sobre o andamento dos compromissos de capacidades deixará claro se os aliados estão cumprindo o acordado em Haia. “Se a Espanha não comprar o que prometeu comprar, então pode-se legitimamente repreender a Espanha, assim como outras nações que não cumpram o prometido”, observou.
Os gastos com Defesa de um aliado têm repercussões na defesa de todos os membros da OTAN, adverte Bauer, que traça um paralelo com um “escudo construído coletivamente” para dissuadir a ameaça da Rússia e de grupos terroristas internacionais. “Se faltar uma peça porque a Espanha, por exemplo, não está fazendo o que prometeu, não poderemos mais nos defender coletivamente. Não é apenas um problema para a Espanha. É um problema para todos”, destacou.
“É INGENUO PENSAR QUE SÓ ESTAMOS EM GUERRA SE OS TANQUES RUSSOS ENTRAREM EM MADRID”
Ao longo da entrevista à Europa Press, o almirante holandês aposentado enfatiza que os países europeus “já estão em guerra” com a Rússia no domínio cibernético e no campo da desinformação, que é considerada por toda a aliança como a principal ameaça à segurança euro-atlântica.
“Acredito que estamos em guerra. Estamos diariamente em uma guerra cibernética que vem da Rússia", ressalta, e faz referência aos ataques contínuos contra empresas, hospitais e infraestruturas, ao mesmo tempo em que alerta que a "desinformação" é também outro elemento de guerra que Moscou lança em todos os países, incluindo a Espanha.
“É ingênuo pensar que só estamos em guerra se os tanques russos entrarem rolando por Madri”, ressalta Bauer, para enfatizar que a economia global faz com que “ninguém seja independente” nem fique a salvo de uma crise de segurança. E dá como exemplo o apagão que ocorreu na Península Ibérica em abril de 2025 para insistir que esse tipo de situação de “caos” é o que precede ou ocorre durante as guerras.
“Os russos, como consequência de todos esses ataques cibernéticos dos últimos anos, se infiltraram em todos esses sistemas”, aponta ele, sobre possíveis interrupções em serviços básicos como o de energia elétrica.
De qualquer forma, o ex-chefe militar da OTAN não descarta que a Rússia possa lançar um ataque convencional contra território aliado. “Ninguém pensava que a Rússia realmente atacaria a Ucrânia. Todo mundo dizia que a nova guerra seria com ataques cibernéticos e inteligência, e que não teríamos mais guerras físicas. E, para surpresa de todos, eles atacaram fisicamente, como na Primeira Guerra Mundial: com trincheiras e bombardeios de artilharia”, argumenta sobre a ofensiva em grande escala lançada pela Rússia contra a Ucrânia em fevereiro de 2022, apenas oito meses após ele assumir o cargo na OTAN.
Bauer alerta que a Rússia combina essas operações com “tecnologia do século XXI”, como mísseis hipersônicos ou ataques cibernéticos e tudo o mais. “Depende da situação, mas estou absolutamente certo de que os russos farão todo o possível para garantir que não possamos nos organizar”, afirma.
E ressalta que o esforço de defesa recai sobre toda a sociedade, não apenas sobre as forças armadas, insistindo que, para defender a paz, é preciso estar preparado para a guerra e que a falta de preparação “aumenta a probabilidade de eclodir uma guerra”. “Se você é tão contra o Exército a ponto de não querer investir nele, na verdade, a probabilidade de ser atacado aumenta. Isso é o que é triste”, indicou.
A ADESÃO DA UCRÂNIA À OTAN SERIA POSITIVA
Em relação ao andamento da guerra na Ucrânia, Bauer considera que nem “a Rússia está vencendo, nem a Ucrânia está perdendo”, pelo que agora o futuro da guerra depende de “quanto tempo” Moscou e Kiev estão dispostas a continuar o conflito bélico.
Aqui ele faz uma pausa e destaca uma clara diferença entre a Ucrânia e a Rússia, insistindo que, se os ucranianos interromperem a guerra, “terão perdido seu país”. “Se a Rússia interromper a guerra hoje, a guerra acaba. Essa é a diferença”, resumiu ele, observando que Kiev não pode abandonar a luta e insistindo para que a Europa assuma um papel e dialogue com a Rússia, pois “o resultado” da guerra “é de interesse para a Europa”.
Sobre o resultado de eventuais negociações, Bauer ressalta que sua opinião é que não deveria ser “algo automático” que “tudo o que agora está ocupado pelos russos deva ser russo”, embora observe que depende da Ucrânia aceitar os termos da paz.
E quanto ao papel de mediação de Washington, ele cita as “mudanças de opinião” de Trump para indicar que ele percebeu a complexidade das negociações para o fim do conflito. “Ele descobriu que não é fácil, porque não é tão simples quanto pensava”, afirma sobre Trump. “Por muito tempo, acho que ele pensou que, se duas pessoas têm uma discordância e uma quer vender por seis e a outra quer comprar por quatro, ele poderia intervir e dizer a ambas: ‘É cinco’”, afirma sobre a abordagem do presidente norte-americano.
Da mesma forma, sobre a eventual adesão da Ucrânia à OTAN, expressa na cúpula de Bucareste de 2008, mas sem que tenham sido dados passos nesse sentido, o ex-líder militar da OTAN sustenta que seria positivo para a organização. “São as maiores Forças Armadas da Europa, com a experiência mais recente em uma guerra, responsáveis por muita inovação e por nos mostrar o que significa ser resiliente”, observa, embora lembre que, no momento, não há o consenso necessário na OTAN para admitir a Ucrânia enquanto o país estiver em guerra.
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