Eduardo Parra - Europa Press - Arquivo
Apela a “abrir o foco” diante de abordagens “apenas políticas”, que considera “reducionistas” e transfere a “verdadeira responsabilidade” para as empresas LOGROÑO 8 fev. (EUROPA PRESS) - “A proibição sem educação não serve para nada”. É o que afirma o pesquisador da UNIR Joaquín González Cabrera, sobre a problemática dos menores e sua relação com as redes sociais, na qual apela para “abrir o foco” diante de abordagens “apenas políticas”, que considera “reducionistas”.
Em entrevista à Europa Press, na sequência do anúncio feito esta semana pelo presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez, da sua intenção de proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, González Cabrera mostra-se favorável a “estabelecer, como em tantas outras coisas, um limite de idade”.
Assim, a limitação estabelecida em 16 anos “parece razoável”, podendo até “ser a menos ruim”, embora indique que a idade deve ser fixada “sempre dependendo do desenvolvimento maduro do menor, de suas capacidades e, acima de tudo, da mediação parental da família”.
De todo modo, ele ressalta que a principal preocupação neste debate não deveria estar tanto centrada nos discursos de ódio, mas “na saúde mental”, já que o uso das redes sociais “não é algo inofensivo, afeta muitos processos cognitivos e emocionais nos quais nossas crianças e adolescentes estão imersos”.
Para González Cabrera, os algoritmos sobre os quais as redes sociais são projetadas — “inclusive precisamente por sua total falta de design” — provocam uma distorção da realidade da qual as crianças e os adolescentes deveriam ser protegidos, “de modo que parece bastante oportuno levantar a necessidade de reduzir ou eliminar um consumo que sabemos ser problemático”.
Como membro do comitê de especialistas consultado pelo Escritório de Ciência e Tecnologia do Congresso dos Deputados (Escritório C), o pesquisador da UNIR participa do 'Relatório C: Redes sociais e menores', que sintetiza as evidências científicas mais recentes sobre a vulnerabilidade dos menores nessas plataformas, e acredita que esse debate “é necessário porque é algo que deve ser feito pela saúde mental deles”.
E embora concorde que “muitos especialistas falam da necessidade de ação dos poderes públicos nesta regulamentação do uso das redes, e nisso temos uma mensagem comum”, ele também adverte que “não apenas esses poderes públicos” devem se envolver, “todos os atores envolvidos na salvaguarda da saúde mental infantil e juvenil devem se unir”.
ALGORITMIA “AMPLIA”. É nessa defesa que González Cabrera vê a importância de “abrir o foco para o cenário completo”, não apenas centrado nos discursos de ódio, mas em “uma algoritmia que é muito mais ampla” e que constitui, em sua opinião, “o núcleo fundamental: como as redes afetam a saúde psicológica de crianças e adolescentes”.
Assim, ele coloca esse foco em aspectos como “qualidade de vida, mal-estar psicológico, ansiedade, somatização, estresse, ideação suicida, alteração da autoestima, problemas de comportamento ou até mesmo mudanças nos elementos do sono e da vigília”.
Como abordar a complexidade do problema, então? Para o pesquisador da UNIR, “a proibição sem educação não adianta nada”. “Temos uma situação anômala, a normalização do consumo”, alerta, e, além disso, adverte até mesmo sobre o “abandono do nativo digital: embora meninos e meninas usem as redes e saibam usá-las, isso não significa que as usem bem”.
Nesse contexto, ele argumenta que “na verdade, no final, talvez seja necessário proibir em um intervalo muito específico para proteger, para ajudar as famílias e o sistema a adiar seu uso”. “Mas apenas adiá-lo também não vai ajudar”, porque, como ele lembra, “em definitiva, as redes sociais são um produto, um negócio de atenção sustentada”.
RESPONSABILIDADE DAS EMPRESAS. E é nesse aspecto que González Cabrera coloca a ênfase nas próprias empresas, às quais atribui “falta de transparência, porque a transparência algorítmica não existe, os algoritmos são projetados para manter a atenção, de menores e adultos”.
“Atribuímos a responsabilidade final ao usuário ou, no caso das crianças, à família. Mas, nas redes sociais, a verdadeira responsabilidade é da indústria, que criou um modelo de design, um produto de engenharia comportamental projetado precisamente para fazer o que faz, e o faz muito bem”, destaca.
Ele cita, especificamente, “um scroll infinito com seu design pernicioso, que sabe que mantém a ideia de continuar deslizando o dedo para baixo, sempre mostrando coisas destinadas ao seu perfil, para que você nunca pare de olhar para a tela, criando um circuito que é dopamina para o cérebro”.
O problema, sublinha, “é que, para as crianças, podem aparecer vídeos de gatinhos”. “Mas e se, no final, o que elas estão vendo não são vídeos de gatinhos?”, questiona González Cabrera, que, por isso, considera que “as redes nasceram como redes, sim, mas se transformaram num negócio”, pelo que “não podemos transferir toda a responsabilidade diretamente para as famílias”.
Ele afirma, nesse sentido, que “a responsabilidade pela segurança de um aplicativo é da empresa” e ressalta que “há anos lutamos com a indústria dizendo que há riscos, que há uma necessidade mínima de cautela com os menores, mas ainda não há estudos conclusivos sobre esses riscos”.
“E enquanto esses estudos estão sendo feitos — lamenta — as redes continuam operando com total impunidade”, no que definiu como “uma luta de Davi contra Golias”, com “experimentos” como os da Austrália, que considera “discutíveis”, ou a possibilidade futura de uma regulamentação europeia, “mas enquanto isso não acontece, eles têm carta branca e, neste momento, com um clique, crianças e adolescentes têm, por exemplo, acesso à pornografia”. “Fazer coisas implica uma falha no sistema. Mas não fazer nada normalmente faz com que as coisas piorem”, diz o especialista da UNIR, que afirma que “há urgência” em encontrar soluções, mas saídas, também ressalta “que tenham maior profundidade” do que apenas anúncios políticos.
Por isso, conclui defendendo “um quadro de ação que permita a formação, que permita a avaliação, que permita saber se as coisas estão indo bem, precisamos de políticas não partidárias, mas estatais”. “Porque o debate sobre a proibição é bom, mas sem educação e sem um quadro geral para todos os envolvidos, isso acaba sendo uma promessa vazia”, conclui.
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