David Zorrakino - Europa Press - Arquivo
MADRID, 23 ago. (EUROPA PRESS) -
A África tornou-se, nos últimos anos, o principal palco da violência jihadista em nível mundial, com o Sahel como o maior foco e a Al Qaeda e o Estado Islâmico disputando a supremacia por meio de suas filiais. Ambos os grupos terroristas vêm evoluindo seu modus operandi, adaptando-se às realidades regionais em constante mudança e tornando o uso de drones e a cobrança de resgates milionários por estrangeiros sequestrados uma nova marca de identidade.
De acordo com a estimativa do African Center for Strategic Studies (ACSS), um “think-tank” vinculado ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, no último ano foram registradas mais de 23.800 mortes relacionadas às atividades dos grupos jihadistas no continente, um dado que contrasta com as 10.000 vítimas de 2017 (um aumento de 150%) e as 13.500 registradas em 2021 (um aumento de 77%).
O Sahel concentrou 42% do total de mortes, seguido pela Somália, com 28%, e pela região do Lago Chade, também com 28%. No total, essas três regiões onde atuam grupos jihadistas somaram 92% das 166.000 mortes relacionadas à violência islâmica na África na última década, segundo dados do ACSS, consultados pela Europa Press.
AUMENTAM AS VÍTIMAS DE BOMBARDEMENTOS AÉREOS E DRONES
O relatório destaca que, nos últimos doze meses, houve um aumento de 42% no número de mortes relacionadas à violência remota — por meio do uso de aeronaves ou drones —, que passou de 4.221 para 5.980 mortos. “Embora se estime que 80% delas sejam decorrentes de bombardeios aéreos, as vítimas fatais relacionadas a drones estão aumentando, o que reflete uma mudança nas táticas empregadas tanto pelos exércitos africanos quanto pelos grupos islâmicos”, destaca o ACSS.
O uso de drones por grupos terroristas que operam na África não é novidade, embora a forma como eles os empregam esteja evoluindo. Além de utilizá-los para tarefas de vigilância e inteligência, bem como para a gravação de imagens com fins propagandísticos, cada vez mais os grupos jihadistas estão incorporando-os em suas ações armadas, aproveitando a experiência adquirida com a guerra na Ucrânia, onde essa arma tem sido fundamental para conter a Rússia, e seu custo reduzido.
Em seu último relatório, publicado em agosto, o comitê da ONU encarregado de monitorar as sanções impostas contra a Al Qaeda e o Estado Islâmico documentou o uso de drones em várias ações nos últimos meses por parte das filiais de ambos os grupos terroristas.
UMA FILIAL DA AL-QAEDA, A MAIS AVANÇADA
De acordo com esse documento, elaborado com base nas informações fornecidas pelos Estados-membros da Organização das Nações Unidas, o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM, filial da Al Qaeda no Sahel) é o que possui “a capacidade mais avançada em matéria de drones” entre as filiais de ambas as organizações que operam nessa região.
O grupo comandado por Iyad ag Ghali “utiliza drones comerciais modificados, em particular os modelos DJI Mavic 3, além de sistemas apreendidos das forças governamentais”, embora seus ataques com esse tipo de armamento “tenham continuado sendo rudimentares”.
Nesses ataques, aponta o relatório consultado pela Europa Press, o JNIM costuma “utilizar munição improvisada, como granadas de morteiro de 60 mm ou granadas de mão modificadas” e, na maioria dos casos, “as cargas eram lançadas no chão em vez de serem direcionadas ao alvo”.
No que diz respeito ao seu principal rival, o Estado Islâmico do Sahel (ISS), sua capacidade de utilizar drones “parecia mais limitada, embora o grupo tenha utilizado vários desses dispositivos no ataque ao aeroporto internacional de Niamey”, realizado em fevereiro passado, “provavelmente com fins de reconhecimento e coordenação tática”.
Esse ataque, executado por cerca de 40 combatentes organizados em dois grupos de assalto, resultou na destruição de “duas aeronaves leves, um caça de combate e um helicóptero, o que sugere que um dos principais objetivos era enfraquecer as capacidades antiterroristas” da junta militar que governa o Níger, destaca o comitê da ONU.
Por outro lado, o relatório constata que, em meados de fevereiro, o Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) adquiriu “cerca de 35 drones comerciais”, alguns dos quais foram utilizados em ações tanto no Sahel quanto na bacia do Lago Chade, onde essa filial da organização jihadista opera predominantemente.
No entanto, os especialistas ressaltam que, por enquanto, não há indícios de que o JNIM, ISS ou ISWAP tenham “utilizado drones de fibra óptica ou adotado táticas como ataques em enxame de drones”, em referência ao uso de múltiplos aparelhos para atacar um alvo, prática frequente no conflito na Ucrânia.
RESGATES PARA FINANCIAR ATAQUES
Quanto à cobrança de resgates, não se trata de uma prática nova entre os grupos terroristas que atuam no continente. Na época, a Al Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) fez do sequestro de ocidentais, entre eles espanhóis, uma de suas principais fontes de financiamento, cobrando resgates milionários dos governos dos países de origem dos reféns. De acordo com algumas estimativas, os países europeus pagaram cerca de 125 milhões de dólares entre 2008 e 2014 para libertar reféns nas mãos da Al Qaeda e de suas filiais no Sahel.
De acordo com o referido relatório do comitê da ONU, que analisa a situação não apenas na África, mas também em outros cenários, como a Síria, o Iraque e o Afeganistão, “os sequestros para obtenção de resgates continuaram sendo a principal tática empregada” tanto pela Al-Qaeda quanto pelo Estado Islâmico nos últimos seis meses “com o objetivo de gerar receita e deslegitimar as forças de segurança locais”.
Especificamente, o relatório destaca o fato de que o resgate de aproximadamente 50 milhões de dólares pago no final de 2025 — em referência ao pago pela libertação de um membro da família real dos Emirados Árabes Unidos (EAU) sequestrado pelo JNIM em Bamako — “foi crucial para o financiamento da ofensiva” que o grupo realizou no Mali, em conjunto com os rebeldes tuaregues da Frente de Libertação do Azawad (FLA), em maio passado, contra a junta militar, e “é provável que uma parte dos recursos tenha sido canalizada para a rede geral da Al-Qaeda”.
Coincidindo praticamente com a publicação do relatório, em 10 de agosto, ocorreu também a libertação, pelo Estado Islâmico do Sahel, do missionário norte-americano Kevin Readout, quase dez meses após seu sequestro no Níger e sua subsequente transferência para o norte do Mali.
Segundo algumas informações, a libertação teria ocorrido após o pagamento de uma quantia milionária e teria contado com a mediação do Exército Nacional da Líbia, comandado pelo marechal de campo Jalifa Haftar e, mais especificamente, seu filho, Sadam Haftar, a quem o próprio Readout agradeceu durante sua passagem pela Líbia antes de retornar aos Estados Unidos após ser libertado. Se for verdade que houve um resgate envolvido, o Estado Islâmico também teria aumentado seus recursos financeiros para poder realizar novos ataques.
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