A presença em novos territórios facilita o recrutamento de novos membros e a obtenção de recursos, mas aumenta o risco de fragmentação e de pressão militar MADRID 15 mar. (EUROPA PRESS) -
A expansão territorial do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), filial da Al Qaeda no Sahel, é uma realidade, mas não uma aposta decidida de seus líderes, que veem como sua presença em novas zonas e até mesmo em novos países traz alguns benefícios, mas também acarreta riscos que poderiam, em última instância, colocar em risco sua sobrevivência.
O grupo, criado em 2017 a partir da união de várias organizações jihadistas e liderado por Iyad ag Ghali, iniciou suas atividades no Mali e logo as expandiu para os dois países vizinhos, Burkina Faso e Níger, para posteriormente começar a perpetrar ataques a partir de 2019 também na Costa do Marfim, Benin e Togo, embora no primeiro deles não tenham ocorrido mais ações desde 2022.
No entanto, conforme destaca o think-tank Crisis Group em um relatório recente, a expansão territorial constitui um “dilema” para o JNIM. Embora, por um lado, “lhe permita recrutar combatentes e lhe ofereça benefícios materiais — e por isso seja incentivada pela base —, seus líderes temem que ela enfraqueça a coesão do movimento”.
O “coração” de sua atividade, segundo explica esse relatório consultado pela Europa Press, está nos vastos territórios que controla no norte, centro, sul e oeste do Mali; no norte, centro-norte, oeste e leste de Burkina Faso; e no sudoeste do Níger.
Aqui “desenvolveu uma forma de governo que lhe permite apresentar-se como alternativa aos Estados”, neste caso governados por juntas militares que depuseram os governos eleitos, entre outras coisas, sob o argumento de que não faziam o suficiente diante da ameaça jihadista. A Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por esses três países, tornou-se seu “alvo principal”.
Nessas zonas, o JNIM conseguiu instaurar “uma estrutura administrativa leve, mas suficiente para exercer um controle social inspirado em sua visão da lei islâmica, administrar a justiça e arrecadar impostos”. EXPANSÃO PARA ESPAÇOS SECUNDÁRIOS
Por outro lado, os países costeiros do Golfo da Guiné constituem “espaços secundários” de sua atividade, embora continuem sendo essenciais do ponto de vista do abastecimento logístico e da movimentação dos combatentes.
A primeira etapa da expansão para novos territórios é realizada por células não combatentes que realizam trabalhos de proselitismo por meio da oração, da criação de redes logísticas e, ocasionalmente, do recrutamento. De acordo com a análise realizada pelo Crisis Group, “essa fase pode durar vários anos sem evoluir”.
A segunda fase é caracterizada por ataques militares, como os que vêm ocorrendo no Benim, onde, no último ano, houve um forte recrudescimento das ações. Em geral, ela não é acompanhada pelo estabelecimento de bases permanentes nem pelo controle da população local; em vez disso, “os jihadistas vão e vêm” e, mais do que “impor um modo de vida”, recomenda-se à população que o siga.
Segundo o Crisis Group, Togo e Benim estariam atualmente nesta segunda fase de “expansão preparatória”, embora, no caso do norte do segundo país, “não se exclua que evolua, a longo prazo”, para a forma de ocupação que já existe nos três países da AES.
Para administrar todos esses territórios, o grupo conta com uma estrutura administrativa articulada em torno de uma direção central (shura), um nível intermediário estruturado em torno de regiões administrativas (matiqa) e batalhões (katiba), e um nível local organizado em torno de pequenas unidades militares (markaz e saryat), explica o Crisis Group.
Este “think-tank” sustenta que a expansão territorial vivida pelo grupo não responde necessariamente a uma prioridade e que, inclusive, “é provável que seus fundadores não a tivessem planejado” quando o JNIM foi formado. BENEFÍCIOS VS. RISCOS
Certamente, a expansão territorial oferece alguns “benefícios inegáveis” à filial da Al Qaeda — que, além de enfrentar as forças armadas desses países, também compete com o Estado Islâmico do Sahel (ISS), a filial regional de seu grande rival —: aumentar o número de combatentes, controlar os fluxos comerciais transfronteiriços, abrir novas frentes para diminuir a pressão militar e criar zonas de retirada para seus combatentes.
Mas, ao mesmo tempo, acarreta toda uma série de riscos: “exige a mobilização de combatentes de que o movimento precisa para defender seus bastiões no Sahel e expõe o grupo à chegada de recrutas menos confiáveis ou que perseguem suas próprias agendas, o que aumenta o risco de tensões, inclusive deserções”, destaca o relatório.
Se há algo que distingue o JNIM, aponta o Crisis Group, é que ele tenta manter o equilíbrio “entre a centralização das decisões estratégicas e a autonomia operacional das unidades no terreno”. No entanto, a presença em novos territórios, que costuma ser defendida pelos comandantes locais, gera receio no comando central de que a dispersão dos recursos possa levar a uma fragmentação, em vez da consolidação que buscam.
“Esses interesses divergentes poderiam explicar por que a progressão do JNIM em direção aos países costeiros tem sido menos rápida do que alguns observadores temiam no final da década de 2010”, aponta o relatório. INTERESSE EM NÃO CHAMAR ATENÇÃO
Em algumas zonas fronteiriças, o grupo terrorista tem mais interesse em “desenvolver uma presença discreta com o objetivo de se inserir na economia transfronteiriça, inclusive organizá-la, do que realizar operações militares que atraiam demasiada atenção sobre o movimento e a repressão”. No entanto, adverte que o fato de não haver ataques não significa que o JNIM não esteja ativo.
Da mesma forma, interessa-lhe contar com zonas seguras onde seus combatentes possam afastar-se da linha de frente, descansar ou receber tratamento e, por isso, optam por manter um perfil discreto para evitar confrontos com as forças de segurança. O Crisis Group aponta que o norte de Gana ainda não registrou ataques, entre outras coisas, porque esse espaço “serve como zona de retirada e descanso para os combatentes”, em particular aqueles que operam em Burkina Faso.
Os jihadistas “não cruzam a fronteira levianamente”, afirma o relatório, ressaltando que, embora nos últimos anos tenham realizado atividades militares em localidades fronteiriças com a Guiné e o Senegal, até agora se abstiveram de perpetrar ações armadas do outro lado da fronteira, certamente por medo de que “dois Estados dotados de aparelhos de segurança equipados e organizados” caíssem sobre eles.
Além disso, em sua competição com a filial do Estado Islâmico, para o JNIM é mais interessante sua presença no norte do Benin e do Togo, onde o ISS também realizou ataques, do que no norte da Costa do Marfim ou no leste do Senegal, que estão muito mais distantes da esfera de influência de seu rival.
Até agora, apesar de sua expansão, o JNIM conseguiu evitar cisões importantes como as vividas por outras organizações jihadistas, embora “existam atritos internos” que se devem, “em parte, à expansão territorial”. “Uma expansão mal controlada aumenta o risco de fragmentação, por meio da autonomia total de novos grupos ou de sua possível união ao ISS”, razão pela qual os líderes do grupo procuram privilegiar a consolidação em detrimento da expansão, conclui o relatório.
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