A invasão da Halophila continua avançando para o oeste, o que representa um indício da “tropicalização” do Mediterrâneo. “Se o nosso mar continuar se parecendo cada vez mais com o Caribe, veremos cada vez mais espécies tropicais se estabelecendo em nossas costas”, afirmam. PALMA 10 mar. (EUROPA PRESS) -
Pesquisadores do Instituto Mediterrâneo de Estudos Avançados (Imedea, centro misto do CSIC e da Universidade das Ilhas Baleares), juntamente com cientistas do Centro de Estudos Avançados de Blanes (CEAB-CSIC) e do Centro Balear de Biologia Aplicada, detectaram pela primeira vez nas Ilhas Baleares a presença da planta marinha invasora tropical Halophila stipulacea.
A descoberta, localizada na baía de Palma, constitui o registro mais ocidental conhecido até agora desta espécie no Mediterrâneo e é o primeiro documentado na Espanha. O estudo, liderado por pesquisadores do Imedea, evidencia o avanço progressivo das invasões biológicas em um contexto de aquecimento do mar. Esses resultados foram publicados recentemente na revista Mediterranean Marine Science e a primeira observação ocorreu em outubro de 2023, a cerca de três quilômetros do porto de Palma, após o aviso do Centro Balear de Biologia Aplicada. Posteriormente, a equipe realizou mergulhos e prospecções submarinas que confirmaram a presença de pequenas manchas estabelecidas sobre fundos arenosos. “Este registro confirma que a invasão da Halophila no Mediterrâneo continua avançando para oeste”, explicou o pesquisador do Imedea Andrés Arona, primeiro autor do estudo. Além disso, acrescentam que isso constitui “um indício claro da ‘tropicalização’ do Mediterrâneo”, pois se essa espécie está conseguindo se estabelecer nas Ilhas Baleares, “é porque as condições ambientais estão mudando”. UMA ESPÉCIE COM ALTO POTENCIAL INVASOR
A Halophila stipulacea é uma fanerógama marinha originária do Mar Vermelho, do Golfo Pérsico e do Oceano Índico. Chegou ao Mediterrâneo após a abertura do Canal de Suez há mais de 150 anos e é considerada uma das primeiras espécies “lessepsianas”, ou seja, aquelas que colonizaram o Mediterrâneo a partir do Mar Vermelho através desta conexão artificial.
Embora sua expansão no Mediterrâneo ocidental tenha sido lenta, em outras regiões, como o Caribe, seu comportamento tem sido muito mais agressivo. “No Caribe, em menos de 20 anos, ela colonizou vastas áreas e deslocou espécies nativas”, disse Arona.
“No Mediterrâneo oriental, ela já está muito mais estabelecida, e agora chegar e se estabelecer nas Ilhas Baleares é mais um passo nessa expansão”, disse. A pesquisadora do Imedea Fiona Tomàs ressalta que a descoberta não deve ser interpretada como um fato isolado. “Estamos nos ‘tropicalizando’. O Mediterrâneo está aquecendo e se tornando cada vez mais favorável para espécies tropicais. Por exemplo, outras espécies tropicais de algas ou peixes já estão estabelecidas no Mediterrâneo oriental, e algumas já também se encontram nas costas das Ilhas Baleares", explicou.
A equipe considera provável que a espécie possa ter chegado anteriormente às Ilhas Baleares através do transporte marítimo, mas que não tenha encontrado condições adequadas para sobreviver. “É possível que tenha chegado antes e não tenha se estabelecido”, observa Tomàs, que acrescenta que “agora as temperaturas estão mais altas e isso pode estar facilitando seu estabelecimento”.
No verão, a planta pode crescer rapidamente com temperaturas da água próximas a 30 graus, valores que já foram registrados recentemente no mar das Baleares. A proximidade da descoberta a um porto reforça a hipótese de que o transporte marítimo, especialmente através de âncoras, cascos ou águas de lastro, seja uma das principais vias de dispersão.
QUAIS IMPACTOS ECOLÓGICOS ISSO PODE TER? O possível impacto ecológico da espécie dependerá de sua expansão futura e do tipo de habitat que colonizar. Em áreas degradadas de fundo arenoso, a sua presença poderia aumentar a complexidade estrutural e atrair novas espécies, mas também poderia deslocar espécies de fundos moles. Nas Ilhas Baleares, já se observou um fenómeno semelhante com a alga tropical invasora Halimeda incrassata, que deslocou o 'pedaç' (Bothus podas), um peixe achatado importante na pesca local.
Além disso, alertam que, se vier a deslocar fanerógamas marinhas autóctones como a posidonia (Posidonia oceanica) ou a cymodocea (Cymodocea nodosa), o impacto poderá ser ainda maior. “A posidonia é como uma sequóia, a Halophila é muito mais pequena”, explica Tomàs.
Segundo ele, “ela não gera estruturas tão complexas nem armazena carbono na mesma magnitude. Uma mudança na dominância das espécies pode alterar profundamente o ecossistema”. No Caribe, observou-se que, em algumas áreas colonizadas pela Halophila, a biodiversidade diminui em relação às pradarias nativas. No Mediterrâneo oriental, também há evidências de deslocamento de espécies locais. DETECÇÃO PRECOCE E SINAL DE MUDANÇA NO MEDITERRÂNEO A equipe destaca que a detecção em uma fase inicial é fundamental para avaliar sua evolução e elaborar estratégias de acompanhamento. “Quanto mais cedo detectarmos essas espécies, mais capacidade teremos para entender como elas se expandem e quais efeitos geram”, afirma Arona, que também aponta para o papel da ciência cidadã e de plataformas como Observadores do Mar na identificação precoce de novas invasões.
Atualmente, a equipe está realizando acompanhamentos para avaliar a magnitude real da expansão, sua interação com outras espécies e o possível consumo por peixes herbívoros e outros organismos. Além do caso específico, os pesquisadores consideram que essa descoberta é um sinal de um processo mais amplo. “O fato de essa espécie estar aqui e se estabelecer não é coincidência”, conclui Arona, que considera que se trata de “uma consequência do aquecimento do Mediterrâneo e da crescente conectividade marítima”. “Se nosso mar continuar se parecendo mais com o Caribe, veremos cada vez mais espécies tropicais se estabelecendo em nossas costas”, afirmou.
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