Lev Radin / Zuma Press / Europa Press
Ela afirma que “a democracia não depende da realização de eleições”, mas promete que elas ocorrerão
MADRID, 24 set. (EUROPA PRESS) -
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, apresentou perante a Assembleia Geral das Nações Unidas sua visão para uma nova etapa na Venezuela, centrada na reconstrução nacional, na transição democrática, na recuperação institucional e na busca de um acordo entre os diversos setores políticos do país, ao mesmo tempo em que defendeu a necessidade de superar anos de divisão e confronto para avançar rumo a uma nação fundamentada na justiça, na participação política e no bem-estar comum.
Rodríguez apresentou-se perante a comunidade internacional como “mais uma filha da Venezuela” que veio a Nova York para expor as aspirações de um país que, segundo ela, busca recuperar o rumo após anos marcados por conflitos políticos e modelos econômicos “impostos” que afetaram seu desenvolvimento.
Nesse contexto, a líder destacou que uma das principais tarefas do país é deixar para trás a divisão política e recuperar uma identidade nacional compartilhada.
“Por muito tempo, vivemos em um país dividido, um país em que a cor da bandeira de um partido tinha mais peso do que o nome comum que todos compartilhamos, que é o nome venezuelano”, declarou ela.
UMA NOVA ERA POLÍTICA
Rodríguez afirmou que a Venezuela deve entrar em uma etapa diferente, baseada na verdade, na justiça e na capacidade de seus cidadãos de lidar com suas diferenças por meio do diálogo — uma “nova era política”, em suma, marcada pela “capacidade de olharmos juntos para o futuro”.
Assim, durante seu discurso, ele anunciou o início de um processo de transição democrática que, segundo explicou, visa garantir o retorno do país a um sistema institucional mais livre, próspero e pacífico. Ele definiu esse processo como “institucional e verificável” e garantiu que a mudança não se limitará apenas à esfera política.
“É um processo de mudança política, econômica e espiritual e um momento de reformas estruturais para garantir o retorno da Venezuela, o retorno de nossa nação e de nossos povos”, esclareceu.
A reconstrução, acrescentou ele, deve evitar que a vitória de um setor dependa da derrota ou exclusão de outro. Em especial, ele fez referência às novas gerações que começam a se incorporar à vida política, ressaltando que todos os venezuelanos fazem parte do futuro do país.
INSTITUIÇÕES, JUSTIÇA E SEGURANÇA JURÍDICA
Rodríguez também situou a recuperação institucional da Venezuela entre os pilares da nova etapa e defendeu uma classe política comprometida com os interesses nacionais, ao mesmo tempo em que levantou a necessidade de estabelecer novas bases econômicas que permitam o desenvolvimento do país e garantam a justiça, independentemente da condição social e política de cada cidadão.
Nessa linha, ela vinculou a reconstrução nacional à reforma do sistema de Justiça, bem como a uma maior igualdade social. “Uma nação não pode ser reconstruída apenas com a reconstrução de edifícios, mas sim ao restabelecer a confiança em suas instituições”, acrescentou a esse respeito.
A presidente anunciou, além disso, dois pilares para levar adiante esse processo: uma transição jurídica ordinária e uma transição judicial. O objetivo, indicou ela, é evitar que as pessoas fiquem sujeitas a decisões arbitrárias e colocar o sistema de justiça a serviço da sociedade.
ELEIÇÕES E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA
A realização de eleições foi outro dos pontos centrais do discurso da presidente venezuelana, que defendeu que o processo político deve garantir a participação das diferentes forças políticas do país e destacou que a democracia não pode se resumir apenas à realização de eleições.
“A democracia não se resume à existência de eleições. A democracia é determinada pela qualidade da competição”, afirmou ela, antes de prometer que “na Venezuela haverá eleições”. De fato, conforme expôs, as autoridades venezuelanas já iniciaram um processo de diálogo político com setores da oposição que deverá conduzir a um cenário em que os diversos atores possam competir.
A esse respeito, Rodríguez afirmou que caberá ao povo venezuelano determinar o momento adequado para essas eleições e ressaltou que as instituições também deverão estar preparadas para garantir um processo inclusivo e transparente.
UM APELO PARA SUPERAR O CONFLITO
Para a líder venezuelana, isso não será possível se não se deixar para trás as dinâmicas de confronto político que — em sua opinião — marcaram a história recente do país. Por isso, ela convidou o povo venezuelano a abandonar um caminho em que o extremismo e a intolerância possam se sobrepor à convivência democrática.
Embora tenha defendido que “a Venezuela deseja viver livremente, exercer seus direitos como nação soberana, sem qualquer tipo de interferência”, Rodríguez também apelou à comunidade internacional para que acompanhe “de boa-fé” o país em seu processo de mudança.
A reconstrução, segundo Rodríguez, representa também a responsabilidade histórica de conduzir o país “da incerteza e do conflito para uma sociedade plena” e coesa. Nesse cenário, ele apontou a nova democracia como o ponto de partida para a recuperação nacional.
“Essa democracia, reconhecida por seu próprio povo e pelo mundo, será uma nova era de bem-estar a partir da qual a Venezuela renascerá”, afirmou.
VENEZUELA, PRONTA PARA SE RECONSTRUIR
Na parte final de seu discurso, Delcy Rodríguez dirigiu uma mensagem à comunidade internacional e aos venezuelanos que deixaram o país, garantindo que a Venezuela está preparada para estabelecer relações internacionais baseadas no respeito e fez um apelo especial aos jovens para que voltem a acreditar no futuro nacional.
“É hora de reconstruir o país para o qual muitos desejam voltar. Queremos que seja um país para o qual queiram voltar, e não apenas um país que queiram destruir”, afirmou.
Rodríguez alertou que a recuperação não será fácil, sobretudo após as perdas materiais e humanas causadas pelos terremotos de 24 de junho passado, mas, mesmo assim, colocou a reconstrução da identidade nacional entre as prioridades do processo.
“Reconstruir nossa alma nacional será nossa prioridade”, concluiu, convocando os venezuelanos a seguirem em frente unidos e a escolherem a esperança em meio à dor.
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