Publicado 03/04/2026 05:55

A corrida pelas terras raras: a Espanha, um “depósito fundamental” para a autossuficiência europeia

A Espanha possui em seu território matérias-primas estratégicas
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MADRID 3 abr. (EUROPA PRESS) -

O constante desenvolvimento tecnológico desencadeou, em nível internacional, uma corrida pelo controle dos minerais essenciais para a produção de objetos como telefones ou carros elétricos. Em plena disputa pelo controle dos recursos, o olhar da UE está voltado para a Espanha, um dos centros geológicos com potencial para impulsionar sua posição estratégica.

A Espanha sempre abrigou em seu solo matérias-primas fundamentais que desempenharam um papel-chave e que levaram a indústria extrativa a faturar anualmente cerca de 3,5 bilhões de euros, segundo dados do Ministério da Transição Ecológica (MITECO). Mas a prioridade agora está voltada para a região oeste, no chamado Maciço Várisco: uma faixa mineral que atravessa a península desde o norte da Galícia até o sul da Andaluzia. Nela se escondem indícios de minerais com propriedades magnéticas e eletrônicas únicas, embora sejam pouco abundantes.

“Na maioria dos casos, esses minerais nos fornecem um elemento químico específico, mas encontram-se em concentrações muito baixas na superfície do nosso planeta. Por isso, são difíceis de explorar e, em muitas ocasiões, de explorar”, indica à Europa Press o professor de Cristalografia, Mineralogia e Química Agrícola da Universidade de Sevilha (US), Joaquín Delgado.

São essas características que fizeram com que haja, em todo o mundo, um número limitado de jazidas exploráveis, conhecidas como terras raras (REE, na sigla em inglês) e minerais críticos. “A China controla o mercado de REE, daí o interesse de outros países, como os EUA, em controlar os possíveis recursos que possam existir fora da China”, acrescenta à Europa Press a cientista titular do IGME-CSIC, Susana Timón.

“São ferramentas geopolíticas; quem tem o controle, tem a vantagem”, concorda Delgado. A Comissão Europeia sabe disso muito bem, já que a Europa depende da extração e produção fora da UE. Por exemplo, 97% do magnésio consumido pela UE provém da China e 98% do borato vem da Turquia. Isso coloca a região em uma situação delicada de desvantagem diante de possíveis alterações ou interrupções no abastecimento.

De fato, o Tribunal de Contas da UE alertou em fevereiro que, apesar das medidas adotadas para remediar esse problema, os resultados continuam sendo insuficientes.

OS 7 PROJETOS NA ESPANHA

Nesse contexto, a Espanha surge como um ponto de interesse nessa corrida pelos minerais. O país possui atualmente 15% das reservas mundiais de estrôncio — localizadas em uma mina a céu aberto em Granada — e é o único produtor na Europa, fornecendo 100% do que é utilizado, segundo o MITECO. Além disso, é o segundo maior produtor de cobre na Europa, com diversas explorações em atividade no momento.

A isso soma-se o fato de que na Península Ibérica foram detectadas 20 das 34 matérias-primas definidas como fundamentais por Bruxelas, e até 17 delas são classificadas como estratégicas — lítio, cobalto, níquel, tungstênio ou wolfrâmio, entre outras — por serem cruciais para setores como a transição ecológica, a indústria de defesa ou a aeroespacial.

Com esse potencial, o Conselho de Ministros decidiu aprovar, no mês de março passado, o Programa Nacional de Exploração Mineira (PNEM) 2026-2030, que contará com 182 milhões de euros. “Temos recursos abundantes, matérias-primas fundamentais e estratégicas, mas queremos saber quantos mais temos e se são extraíveis”, afirmou a terceira vice-presidente do Governo, Sara Aagesen, durante um Café da Manhã Informativo da Europa Press, no qual destacou que o hidrogênio e os minerais poderiam representar, em 2050, “80% do valor do comércio internacional de energia e outros produtos relacionados”.

Por sua vez, Bruxelas lançou em 2025 uma lista com 47 projetos focados na obtenção de matérias-primas na Europa. Destes, sete estão na Espanha. “O objetivo é garantir que, em 2030, a extração, o processamento e a reciclagem cubram, respectivamente, 10%, 40% e 25% da demanda interna”, afirma Timón.

Os projetos selecionados na Espanha foram El Moto (Ciudad Real), Doade (Orense), Las Navas e P6 Metals (Cáceres), Aguablanca (Badajoz), CirCular (Huelva) e Cobre las Cruces (Sevilha), embora, por enquanto, estejam apenas em fase de exploração. Segundo Delgado, o objetivo dessas iniciativas é que haja “um acesso mais rápido ao financiamento e que as licenças sejam concedidas com prioridade”. “Não com mais facilidade, porque isso seria perigoso”, esclarece. Mas o potencial vai além dessa lista em regiões como Salamanca ou Sierra Morena.

No entanto, não é tão simples quanto começar a extrair os recursos. Timón garante que todos os projetos selecionados cumprem os requisitos técnicos e econômicos exigidos. Assim, devem garantir o abastecimento para a UE, ser “tecnicamente viáveis num prazo razoável”, apresentar “os volumes de produção previstos” e que sua execução seja feita “de forma sustentável”. “Também têm de demonstrar que sua implementação trará benefícios transfronteiriços”, acrescenta.

Por outro lado, há o desafio da sustentabilidade ambiental, uma das grandes preocupações da população, que encara os projetos com profunda desconfiança devido aos efeitos poluentes associados à mineração.

De fato, muitos moradores se uniram para reivindicar a proteção do meio ambiente. Também surgiram iniciativas cidadãs como o Observatório Ibérico da Mineração, que compila relatórios sobre os locais onde foram registradas más práticas de instituições e multinacionais, incidentes no acesso público às informações dos projetos ou os riscos ecológicos que eles acarretam.

RESTAURAÇÃO DE ÁREAS DE MINERAÇÃO E RECICLAGEM DE RESÍDUOS

Nesse contexto, surgem projetos centrados na reciclagem dos materiais depositados nas 21.673 bacias de rejeitos e pilhas de resíduos existentes na Espanha, tanto ativas quanto abandonadas, segundo o PNEM. “São alternativas para reduzir a dependência da exploração dos jazigos”, aponta Timón, que alerta para a complexidade técnica envolvida. “Em algumas instalações-piloto, consegue-se separar esses elementos, mas os métodos precisam ser economicamente viáveis para que possam ser aplicados em grande escala”, explica.

Delgado é justamente um dos cientistas dedicados à recuperação de materiais. Ele codirige, juntamente com o também professor de Cristalografia e Mineralogia, Antonio Romero Baena, uma equipe de pesquisa da US para a Restauração de Espaços Mineiros Abandonados, com a qual buscam melhorar a qualidade das águas e o estado ambiental das bacias mineiras afetadas pela drenagem ácida. Ao mesmo tempo, realizam um estudo geoquímico detalhado das águas para obter metais básicos.

“Podemos recuperar esses elementos químicos na forma de um sólido”, a partir do qual é possível extrair RRE e outros materiais críticos, conta Delgado. O objetivo é, portanto, “dar uma segunda vida útil a esses elementos que buscamos em outras fontes para poder extraí-los da drenagem da mina e dar-lhes uma utilidade em nível industrial”, detalha.

O projeto, que ainda está em fase preliminar para testar os processos de fracionamento dos elementos químicos, está focado em Río Tinto (Huelva), onde várias explorações estão abandonadas: “A ideia é instalar uma planta experimental em Peña del Hierro, a mina mais tradicional”.

Para Delgado, é fundamental “criar um sistema em que haja uma sinergia com a sociedade”. “Muitas vezes, a mineração é vista como algo negativo”, explica ele, destacando ao mesmo tempo a importância dessa atividade: “Não podemos querer viver em uma sociedade em desenvolvimento sem ter recursos minerais, e os recursos minerais são limitados, não são renováveis a curto prazo”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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