Publicado 13/04/2026 08:39

Completam-se 45 anos da libertação de Luis Suñer: “Operação Apolo” narra o “estranho” sequestro do rei dos sorvetes

A reportagem jornalística traz o depoimento de um dos membros da ETA e informações do inquérito do caso

Archivo - Arquivo - Luis Suñer após ser libertado
DIPUTACIÓ DE VALÈNCIA - Arquivo

VALÊNCIA, 13 abr. (EUROPA PRESS) -

Um sequestro “estranho” na história do braço político-militar da ETA, com a participação de um madrilenho e um valenciano que eram casal e escolheram uma vila na região de La Safor para estabelecer o esconderijo onde o empresário Luis Suñer ficou cativo, é o pano de fundo da obra “Operação Apolo”, do jornalista Sergi Moyano.

Esta investigação jornalística — que situa a narrativa entre o microcosmo do sequestro e o sofrimento das negociações com a ETA — traz de volta à atualidade um acontecimento histórico ocorrido há mais de quatro décadas: os 90 dias que o chamado “rei dos sorvetes” passou em cativeiro em 1981, até ser libertado pelo grupo terrorista em 14 de abril. Nesta terça-feira, portanto, completam-se 45 anos.

Em sua obra, Moyano tentou “equilibrar” a atividade criminosa da ETA com o dia a dia dos jovens sequestradores, “sempre com respeito às vítimas”. “Para mim, era importante explicar por que uma pessoa de Madri e uma pessoa de La Safor acabaram se envolvendo com a ETA. E explicar não é justificar, é simplesmente contar, ajudar a entender”, expôs o jornalista em uma entrevista à Europa Press quando o livro foi publicado (em valenciano pela Institució Alfons el Magnànim, graças a uma bolsa da La Unió de Periodistes Valencians, e em espanhol pela Libros del KO).

Sergi Moyano, nascido em Carcaixent em 2000, chegou a essa história “por acaso”, embora já tivesse ouvido sua família falar do sequestro, quando uma amiga lhe contou que conhecia um dos membros da ETA que participaram. “Comecei a seguir a pista e cheguei até ele. Ele aceitou falar, mas antes me investigou para ver se eu era de confiança. É a primeira vez que ele fala”, destaca, já que ninguém do comando foi detido.

Este ex-membro da ETA, com o pseudônimo de Xavi no livro, viveu uma espécie de “confissão” ou de “catarse” ao contar ao jornalista “o maior segredo de sua vida”. Foi uma conversa “bastante natural” que se prolongou por seis horas, após o que Moyano iniciou um árduo processo de documentação para contrastar o relato, graças a depoimentos policiais e ao inquérito do caso na Audiencia Nacional.

DISTÂNCIA EMOCIONAL COM A ETA

Em todos os momentos, o autor se valeu de sua “distância emocional” em relação aos atos cometidos pela ETA — “para mim, a violência política é um elemento do passado” — para ousar narrar algo que “as pessoas vivem com muita paixão”. “Muitas vezes fala-se da ETA como um elemento para se jogarem uns contra os outros”, constata ele, e defende “explicar com todas as nuances o que foi o terrorismo em nosso país”.

Ao mergulhar nessa história, Sergi Moyano ficou surpreso ao ver que os sequestradores eram tão jovens e distantes da ETA, sem “nenhuma ligação com o País Basco ou com a esquerda abertzale”, algo que ele atribui à polarização da época. Javi, madrilenho, plantou a semente da operação ao se mudar para a Comunidade Valenciana depois que seu ambiente se tornou um “pólvora” durante a Transição.

Lá, ele passou a se chamar Xavi, formou “uma turma” e iniciou um relacionamento amoroso com Nello, que compartilhava sua intenção de pegar em armas. Ambos viajaram para Bilbao para entrar em contato com a ETA político-militar, o braço “menos sanguinário” do grupo. A partir das experiências dos dois, Moyano tenta “normalizar” a presença de homossexuais no grupo armado, sobre o qual “poucas histórias reais” foram contadas.

O JUAN ROIG DOS ANOS 80

Em 13 de janeiro de 1981, Xavi, Nello e outros cinco encapuzados invadiram a fábrica da empresa de sorvetes e congelados Avidesa, localizada em Alzira, para sequestrar Suñer, um empresário que vinha do franquismo e tinha valores que “colidiam com o novo mundo que se abria”. A ETA, que realizava sequestros para se financiar exigindo resgates vultosos, escolheu Suñer porque seu nome liderava uma lista do Ministério da Fazenda sobre os maiores contribuintes do Estado.

“Luis Suñer era uma figura extremamente importante: era o Juan Roig dos anos 80”, destaca Moyano, que descreve o empresário como um grande benfeitor e “um símbolo para muita gente”. De fato, quando foi libertado, ele saiu à varanda de sua casa para ser ovacionado pelos vizinhos de Alzira.

Nas páginas dedicadas ao sequestro, lê-se como Suñer viveu uma “espécie de síndrome de Estocolmo” com seus sequestradores: primeiro no minúsculo “esconderijo comercial” — no interior do negócio de Xavi e Nello em La Safor, cuja localização exata ainda é desconhecida —, onde começou a se afeiçoar a eles, chegando a jogar cartas e brindar com uísque com eles pouco antes de ser libertado. Uma atitude que “uma parte importante do Estado, especialmente os militares e a polícia, não via com bons olhos”.

A negociação, conduzida pela família e pelos homens de confiança de Suñer, foi “prejudicada” pelo 23F, “mas também porque a ETA achava que seria ‘chegar e beijar o santo’ para conseguir o dinheiro”. “O sequestro se tornou interminável”, observa Moyano, embora deixe claro que esse ramo da organização nunca considerou a possibilidade de assassinar o empresário.

“OS PRIMEIROS MEMBROS DA ETA A PERCEBEREM QUE ISSO NÃO FAZIA SENTIDO”

Os dois jovens sequestradores puderam “voltar à normalidade” quando Suñer foi transferido de um esconderijo para uma vila em Saragoça, após o que ambos largaram as armas em um processo de “autodissolução”. “Eles foram dos primeiros membros da ETA a perceber que a violência não faz sentido em uma democracia”, afirma o autor.

Ao ler a imprensa da época, Moyano percebe que esse sequestro ficou um pouco esquecido porque foram anos de “alta tensão política e social”. “Para mim, isso está muito distante, apesar de ter me documentado bastante”, afirma, “satisfeito” por ter podido contribuir com detalhes e testemunhos inéditos.

Ele tinha certeza de que a história agradaria ao público não valenciano, pois contém elementos universais. “Não é o típico sequestro da ETA: cada uma de suas personagens tem uma história única, estranha”, ressalta, e garante que ‘Xavi’ se sentiu representado ao ler o livro.

Sergi Moyano incentiva jovens jornalistas a embarcarem em um projeto de investigação dessa magnitude: “É um aprendizado brutal, foi o mestrado da minha vida; não apenas profissional, mas também pessoal”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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