Rocco Spaziani - Europa Press
Israel nega ter autorizado ataques que previam 500 civis mortos, conforme mostra o documentário 'NAZA'
MADRID, 14 set. (EUROPA PRESS) -
O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Eyal Zamir, anunciou que ordenou ao responsável jurídico militar de mais alto escalão que estude a possibilidade de iniciar ações judiciais contra os autores do documentário “NAZA”, os israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, bem como que investigue possíveis vazamentos de informações confidenciais utilizadas na produção do filme.
“De acordo com as informações que surgiram até o momento, não se trata de um filme que critique as Forças de Defesa de Israel (FDI) nem de uma tentativa de chegar à verdade. Baseia-se em calúnias sangrentas (antisemitas), distorção deliberada da realidade e acusações falsas contra soldados e comandantes das FDI”, afirmou durante uma reunião com a alta cúpula militar, segundo a imprensa israelense.
O filme “adota a narrativa daqueles que odeiam Israel, difama nossos soldados e comandantes e busca apresentar as FDI como se agissem ilegalmente de forma deliberada”, segundo Zamir.
Por isso, constitui “uma tentativa perigosa de nos privar da legitimidade de nos defendermos contra o pior de nossos inimigos e, ao fazer isso, representa um perigo real para os soldados e comandantes das FDI”, argumentou.
“Não permitiremos que os soldados das FDI se tornem alvos por meio de mentiras e calúnias sangrentas. Diante disso, devemos agir com determinação, empregando todas as ferramentas à nossa disposição: legais, de comando e de diplomacia pública”, afirmou.
Assim, ele ordenou a criação de “uma equipe interdepartamental e multidisciplinar” liderada pela Diretoria de Planejamento para “formular estratégias e ferramentas para enfrentar essas alegações falsas contra as FDI e seus soldados, em colaboração com especialistas de Israel e de todo o mundo”.
Ele também ordenou ao procurador-geral militar, Itai Ofir, que “examine e proponha possíveis ações legais contra o filme e aqueles que participaram da divulgação de alegações falsas contra os soldados das FDI, bem como suas possíveis implicações para a segurança pessoal deles e para a segurança do Estado”.
Quanto a possíveis vazamentos de informações publicadas no ‘NAZA’, Zamir ordenou que a alta cúpula militar investigasse “possíveis indivíduos envolvidos no vazamento de material confidencial utilizado na produção do filme”.
AUTORIZAÇÃO PARA 500 CIVIS MORTOS
Anteriormente, as Forças Armadas de Israel divulgaram um comunicado classificando como “totalmente falsa” a alegação de que suas forças planejariam e executariam um ataque na Faixa de Gaza no qual se previa cerca de meio mil de vítimas civis, após a divulgação, neste domingo, nas redes sociais, de um trecho do ‘NAZA’ em que um militar israelense, sob condição de anonimato, faz essa afirmação.
“Isso é totalmente falso. As FDI nunca planejaram, aprovaram nem realizaram um ataque em Gaza no qual se previsse a morte de 500 civis ou de um número sequer próximo a esse número”, declarou o Exército nas redes sociais, citando a publicação, por um usuário, de um trecho do ‘NAZA’ no qual um militar descreve esse ataque.
Acrescentando que “também não foi apresentada, durante toda a guerra, nenhuma afirmação credível que sugerisse que um ataque das FDI tenha causado um número de vítimas fatais nem mesmo próximo desse número”, as forças israelenses criticaram que os diretores “não tinham como verificar essa afirmação, não há provas concretas que a sustentem e, mesmo assim, a publicaram”.
“Além disso, não é possível comprovar nem verificar de forma independente nenhum dado sobre o entrevistado, nem seu serviço nem sua função”, argumentou o Exército israelense sobre o documentário, que se baseia em depoimentos de militares entrevistados sob condição de anonimato para expor o uso de Inteligência Artificial (IA) para perpetrar ataques contra civis na Faixa de Gaza.
“Nunca foi planejado, aprovado nem executado nenhum ataque desse tipo e, no entanto, essa é a afirmação que os realizadores escolheram para promover seu filme. Julgue o restante em conformidade”, concluiu o Exército.
Especificamente, na sequência à qual as FDI se referiram, um militar israelense descreve o funcionamento da interface do ‘NAZA’, nome da IA que dá título ao documentário e que é um acrônimo militar derivado do termo hebraico ‘nezek agavi’, utilizado pelas tropas israelenses para indicar o número de civis que se prevê que morram em um ataque aéreo como dano colateral.
Esboçando em um caderno o funcionamento desse sistema, ele afirma que este não faz “nenhuma distinção” entre menores e adultos e que “alguns bombardeios mataram 20, 30 e até 300 pessoas”. Em seguida, questionado sobre o ataque mais mortal, ele afirma não saber “quantas pessoas morreram de fato, porque isso nunca foi avaliado, mas houve uma aprovação certa vez para matar 500”.
Por sua vez, o porta-voz do Exército israelense, Effie Defrin, pediu aos diretores de ‘NAZA’ que “permitam que representantes das Forças de Defesa de Israel (FDI) assistam ao filme na íntegra” para “abordar de maneira fundamentada cada uma das afirmações apresentadas nele”. “O debate público em torno do filme deve basear-se em fatos, não em deturpações nem em difamações”, acrescentou.
O documentário — produzido pelo “The Guardian” — foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza, onde comoveu os espectadores, que aplaudiram os diretores por quase 25 minutos após a estreia, a ovação mais longa já registrada. O filme conquistou o Prêmio Especial do Júri nesse festival.
Após a exibição, o ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, pediu que a cidadania israelense fosse retirada de Yuval Abraham e Rachel Szor por “traição”. “É uma traição ao país (...). Como ministro da Cultura, vou agir imediatamente para revogar a cidadania israelense desses diretores desprezíveis por traírem o país”, anunciou ele no domingo.
Em 80 minutos, “NAZA” analisa a campanha de ataques sistemáticos de Israel no enclave palestino por meio do depoimento de 24 oficiais e soldados da Inteligência, que detalham estratégias de espionagem telefônica e sistemas de Inteligência Artificial para identificar alvos. Segundo denúncias dos diretores, esse mecanismo funciona como um sistema em grande escala que provoca deliberadamente a morte de centenas de vítimas civis colaterais em um único ataque.
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