Publicado 20/09/2025 04:35

O Cartel dos Sóis: a suposta rede criminosa venezuelana que serve de pretexto para os ataques dos EUA

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela
PRESIDENCIA DE VENEZUELA

O governo venezuelano afirma que se trata de "uma invenção" e defende o exercício de sua "legítima autodefesa" em face de "agressões".

Os especialistas rejeitam a ideia de uma organização hierárquica liderada por Maduro e apontam para objetivos "puramente econômicos".

MADRID, 20 set. (EUROPA PRESS) -

A guerra contra as drogas se tornou o mais recente epicentro das tensões entre a Venezuela e os Estados Unidos, que acusam o presidente do país caribenho, Nicolás Maduro, de abrigar e liderar uma "organização terrorista" ligada ao tráfico de drogas: o Cartel dos Sóis.

A suposta gangue criminosa, que o Departamento de Estado acrescentou à sua lista de sanções no final de julho, foi acusada de apoiar outros grupos do gênero, como o Tren de Aragua e o Cartel de Sinaloa do México, e agora serve de pretexto para Washington introduzir restrições e realizar ataques contra navios no Caribe.

O governo de Donald Trump acusa essa rede venezuelana de "fornecer apoio a outras organizações terroristas estrangeiras que ameaçam "seriamente" a paz e a segurança dos Estados Unidos". Para o líder republicano, trata-se de um "perigo" que está "corrompendo as instituições venezuelanas".

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, defende sua inclusão na lista de sanções; ele considera que essa designação permite destacar os "vínculos com o narcotráfico" do cartel e enfatiza que a medida responde às "promessas" de Trump de priorizar questões de importância vital para os Estados Unidos.

O magnata nova-iorquino, que afirma que três "narcobarcos" foram destruídos no Mar do Caribe pelas forças norte-americanas como parte das operações lançadas para conter o fluxo de drogas, insiste que esses narcotraficantes "serão caçados" em seus esforços para trazer drogas para os EUA.

REDE DE CORRUPÇÃO

Apesar de alguns especialistas argumentarem que se trata de uma rede de corrupção formada por membros do alto escalão das Forças Armadas e não de uma quadrilha dedicada ao tráfico de drogas, a administração Trump impôs uma recompensa de 50 milhões de dólares (cerca de 42 milhões de euros) a Maduro, a quem considera diretamente responsável pelas ações desse grupo e por incentivar a entrada de drogas em território americano com o objetivo final de financiar seu governo.

O grupo de reflexão Insight Crime assinala que essa organização, que a priori não tem uma organização hierárquica - como assinalam os Estados Unidos -, se assemelha mais a "uma rede de corrupção na qual altos funcionários militares e políticos se beneficiam dos acordos estabelecidos com os traficantes de drogas". "O pacote de sanções dos EUA reforça uma visão equivocada dessa rede, (...) quando, na verdade, trata-se de um sistema de corrupção estatal", disse o think tank.

Em outras palavras, essas autoridades fariam "vista grossa" ao tráfico de drogas por terceiros, em vez de fazerem parte ou estarem à frente de uma organização criminosa ilícita e mafiosa estruturada em torno de um líder. As sanções impostas pelas autoridades dos EUA também têm como alvo indivíduos que, em sua maioria, já enfrentavam restrições impostas no passado.

CONTEXTO DOS EUA

No entanto, isso deu ao governo Trump maior aprovação para operações no Caribe, que foram fortemente criticadas por organizações de direitos humanos, que alertam para um "precedente perigoso" na área.

Entre essas ONGs está a Anistia Internacional, que vê "legalidade duvidosa" e está "profundamente alarmada" com esse evento, no qual vê uma "clara violação do direito à vida". "O uso de força letal nesse contexto não tem justificativa alguma.

Os EUA abateram um primeiro barco em 2 de setembro, quando alegaram que a embarcação estava sendo usada para transportar drogas pelo Trem de Aragua e apesar do fato de terem chegado anteriormente a um acordo com Caracas para a troca de centenas de prisioneiros e a retomada das operações da empresa petrolífera americana Chevron.

Embora Trump afirme que o próprio Maduro também lidera algumas das atividades da gangue, a inteligência dos EUA não tem provas disso e nega claramente essa suposta ligação.

A Insight Crime insiste que a organização, cujo nome se refere à insígnia nos uniformes dos militares venezuelanos, não tem motivos ideológicos, mas puramente econômicos, e não apoia realmente o Tren de Aragua, ao qual é erroneamente vinculada.

POSIÇÃO INTERNACIONAL

A situação, que se repetiu em duas outras ocasiões, levou diversos países da região, como Colômbia, Paraguai, República Dominicana, Equador e Argentina, entre outros, a declarar o Cartel dos Sóis uma organização terrorista, apesar de o governo venezuelano reafirmar que se trata de uma "invenção".

O ministro do Interior, Diosdado Cabello, afirmou recentemente que "toda vez que alguém causa problemas, é colocado como chefe do Cartel dos Sóis", algo que alguns países, como os Estados Unidos, "estão inventando há anos".

Além disso, o Parlamento Europeu solicitou uma resolução semelhante de todo o bloco da UE contra a suposta rede criminosa, que eles apontam por "dar cobertura a grupos armados", uma iniciativa que também foi colocada sobre a mesa em nível nacional por meio da Comissão Conjunta da União Europeia, que na segunda-feira aprovou uma iniciativa promovida com a Vox e concordou com o PP em instar o governo a promover a inclusão do suposto cartel na lista de organizações terroristas da UE.

Caracas continua cautelosa: nesta semana, Maduro disse que estava exercendo seu "direito legítimo de defesa" diante das "agressões" dos EUA e ameaçou com uma "luta armada" se a Venezuela fosse "atacada".

Os EUA, que não parecem ter preceitos legais suficientes para realizar tais ataques no Caribe no momento, parecem estar tentando colocar Caracas nas cordas enquanto expandem sua presença militar na região, como dizem os especialistas.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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