Publicado 03/10/2026 04:21

O Brasil vota neste domingo entre os modelos antagônicos de Lula e Flávio Bolsonaro, em uma disputa muito acirrada

SÃO PAULO, 26 de setembro de 2026  -- O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (ao centro, na frente), candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores, atualmente no poder, participa de um comício de campanha em São Paulo, Brasil, em 26 de
Paulo Lopes / Xinhua News / Europa Press

Mais uma vez, a governabilidade depende de conquistar o apoio de um “centrão” que exigirá ministérios e recursos multimilionários

Uma notícia falsa sobre o apoio de Bolsonaro à retirada do título de padroeira do Brasil da Virgem de Aparecida marca a campanha

MADRID, 3 out. (EUROPA PRESS) -

O Brasil realiza neste domingo uma mega-rodada eleitoral com eleições presidenciais, legislativas e regionais, marcada pela profunda polarização gerada pelos dois principais candidatos ao Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, e que representam dois modelos políticos diametralmente opostos.

Ao todo, são mais de 1.650 cargos a serem decididos nessas eleições, nas quais tudo indica que haverá um segundo turno muito acirrado entre Lula e Flávio, no próximo dia 25 de outubro. O evento ganhou ainda mais relevância, já que o presidente brasileiro é um dos poucos líderes de esquerda em uma região dominada pela extrema direita, para alegria do governo de Donald Trump.

Da mesma forma, o bolsonarismo também tem muito em jogo, com o chefe do clã familiar em prisão domiciliar por motivos de saúde, após ter sido condenado a mais de 27 anos de prisão por seu papel como principal ideólogo na tentativa de golpe de Estado após sua derrota eleitoral de 2022.

A vitória de Flávio seria determinante para as pretensões de liberdade de Bolsonaro, seja por meio da aprovação de uma lei de anistia em um Congresso previsivelmente inclinado à direita, seja concedendo-lhe diretamente um indulto. O ex-presidente é uma das 1.400 pessoas condenadas pela tentativa de tomar as instituições em janeiro de 2023, em Brasília.

MODELOS ANTAGÔNICOS E O APOIO DO ‘CENTRÃO’

O modelo de Lula aposta em um desenvolvimento com forte presença estatal, um sistema tributário mais progressivo, aumentos do salário mínimo e um reforço dos programas sociais, como o Bolsa Família ou o Minha Casa. Além disso, em matéria de política externa, defende um multilateralismo que não se cansou de defender em fóruns internacionais.

Por outro lado, Flávio herda um legado de seu pai marcado por políticas de cortes, desregulamentações, reduções de impostos, exploração de recursos naturais em grande escala, endurecimento das penas e a suposta recuperação de valores tradicionais, amplamente influenciados pelos movimentos evangélicos.

No entanto, enquanto a disputa pela Presidência concentra toda a atenção da mídia, o poder volta a ser disputado dentro de um Congresso em que a bancada do “centrão” — um bloco informal de partidos com tendência à direita — volta a se erigir como a força política mais determinante do Brasil.

Há décadas, todo aquele que chegou ao Palácio do Planalto precisou contar com a aprovação desse grupo, que derrubou leis e governos tanto da direita quanto da esquerda, para levar adiante suas iniciativas ou promover um impeachment, como já pôde constatar a ex-presidente Dilma Rousseff em 2016.

Os partidos que compõem esse bloco não apresentaram candidaturas e se abstiveram de apoiar publicamente, neste primeiro turno, qualquer um dos dois favoritos, mantendo assim esse pragmatismo e flexibilidade para poder negociar e influenciar ambos os lados, sobretudo no que diz respeito à distribuição de verbas.

Assim como já ocorreu em 2022, a partir deste domingo pode se dar a situação paradoxal de Lula sair vitorioso das eleições presidenciais, mas ter que lidar com um Congresso dominado pela direita, como aconteceu nesta legislatura, com negociações complexas para levar adiante suas propostas.

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NA RETALHA FINAL DA CAMPANHA

O bolsonarismo surgiu no Brasil em grande parte como reação ao descrédito dos últimos anos dos governos de esquerda — corrupção por toda parte, o impeachment de Rousseff ou a prisão de Lula — e veio acompanhado do auge dos movimentos evangélicos, que deram um tom religioso às suas políticas.

Uma confissão que vem se espalhando rapidamente não apenas no Brasil, onde já representa 31% dos fiéis, mas por todo o continente, desde a década de 1960 como resposta do governo dos Estados Unidos à teologia da libertação, presente no catolicismo, da qual se inspiraram muitos movimentos revolucionários.

Assim, a religião é também um dos pontos em que Lula e Flávio divergem, sendo o primeiro um católico praticante e o segundo, um evangélico neopentecostal, o que também define o voto entre o eleitorado de uma e de outra confissão.

Embora a religião sempre tenha estado presente em outras eleições — é comum ver os candidatos se reunirem com diferentes igrejas e confissões para tentar conquistar ou reafirmar votos—, na reta final desta campanha, uma polêmica em torno do status legal da Virgem de Aparecida como padroeira do Brasil obrigou os tribunais a intervir para conter a desinformação.

Tudo começou com a divulgação de notícias falsas e fora de contexto sobre o suposto apoio de Flávio a uma proposta legislativa de 20 anos atrás para retirar dessa Virgem o título de padroeira do Brasil, como uma forma de agradar sua base eleitoral evangélica mais radical, provocando grande comoção entre os católicos.

Em meio aos ataques e recriminações entre fiéis e às piadas na internet, a confusão aumentou quando o juiz progressista do Supremo, Flávio Dino, anulou a decisão de seu colega conservador do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), André Mendonça, que exigia a retirada dessas informações falsas das redes sociais.

Por fim, a decisão foi mantida, e além disso o tribunal suspendeu os recursos de campanha que fossem utilizados para atacar os candidatos por motivos religiosos e advertiu com sanções os líderes das diversas confissões que usassem seus púlpitos para pedir voto a um ou outro candidato ou divulgar desinformação.

INTENÇÃO DE VOTO

Ambas as equipes de campanha aproveitaram essa conjuntura para angariar mais alguns votos em uma disputa na qual Lula, com 42% dos votos, parte como favorito neste primeiro turno, quatro pontos percentuais à frente de Flávio. Um cenário que se prevê mais acirrado no segundo turno, no dia 25.

O Brasil é um dos países com uma das geografias socioeconômicas mais marcantes do planeta, com uma industrialização notável no Nordeste — embora com um interior muito dependente da agricultura —, e no qual se concentra, em maior medida, a distribuição de auxílios estatais, como o já mencionado Bolsa Família.

Esse auxílio econômico direto às famílias brasileiras foi criado em 2003, durante o primeiro mandato de Lula, natural de um desses municípios do Nordeste, onde essa assistência teve grande impacto e onde o Partido dos Trabalhadores (PT) construiu seu principal reduto eleitoral.

Por outro lado, o Sul, o Centro-Oeste, bem como os grandes centros urbanos do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro — berço do bolsonarismo —, tendem a votar em candidatos liberais e conservadores; com exceção de Minas Gerais, que, desde o retorno da democracia em 1989, define a tendência do vencedor das eleições.

Já na região Norte, onde fica a Amazônia, o voto está mais disperso, com as áreas urbanas se inclinando para a direita, enquanto as áreas rurais e indígenas tradicionalmente votam no PT de Lula.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

Contador

Contenido patrocinado