Publicado 05/08/2026 01:45

O Brasil convida o embaixador argentino a retornar a Buenos Aires e rebaixa as relações ao nível consular

A Argentina lamenta uma decisão “unilateral” e tomada “por questões puramente ideológicas”

25 de julho de 2026: O líder argentino Javier Milei (à frente) participa do encontro político do Partido Liberal (PL) em São Paulo, Brasil. O principal partido conservador do país formalizou a candidatura presidencial de Flavio Bolsonaro.
Europa Press/Contacto/Paulo Lopes

MADRI, 5 ago. (EUROPA PRESS) -

O governo do Brasil tomou a decisão de rebaixar o nível das relações com a Argentina e informou ao embaixador desse país em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, que ele pode retornar a Buenos Aires, ficando seu homólogo, Julio Bitelli, na capital brasileira, em vez de retornar à missão diplomática que chefiava na Argentina, em uma medida sem precedentes entre as duas maiores economias do Mercosul, que ocorre em meio aos ataques do chefe da Casa Rosada, Javier Milei, contra seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.

“Na tarde de hoje, o embaixador da República Argentina na República Federativa do Brasil foi convocado pelo ministro das Relações Exteriores daquele país, que lhe comunicou a decisão do governo brasileiro de reduzir o nível da representação diplomática bilateral ao nível de encarregados de negócios e solicitar seu retorno à República Argentina”, informou o Ministério das Relações Exteriores argentino em um comunicado.

O governo de Milei indicou que “toma nota da decisão adotada unilateralmente” por Brasília e que “lamenta sua decisão de continuar se isolando do restante da região por questões puramente ideológicas”, sem fazer qualquer alusão aos insultos do chefe da Casa Rosada contra Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

“Nos últimos anos, ocorreram inúmeros episódios de declarações e apoios políticos mútuos entre líderes de ambos os países. Em todos esses casos, sem exceção, a Argentina optou por não transformá-los em um incidente diplomático”, defendeu o Ministério das Relações Exteriores. “Nunca respondemos a uma divergência política com uma medida institucional. Esse é o critério que a Argentina mantém hoje”, ressaltou.

Nesse sentido, Buenos Aires alegou que “as relações entre os Estados devem atender aos interesses permanentes de seus povos e não ficar subordinadas às necessidades políticas e/ou pessoais dos governantes em exercício”, defendendo que “a política externa argentina continuará se orientando exclusivamente pela defesa do interesse nacional, soberania e o mandato conferido pelo povo argentino”.

A MEDIDA DURARÁ ENQUANTO DURAREM OS ATAQUES DE MILEI A LULA

Embora nem o Ministério das Relações Exteriores do Brasil nem o governo de Lula, de maneira mais geral, se pronunciaram oficialmente sobre a decisão, a mídia brasileira já deu destaque a essa medida, como é o caso do jornal “Folha”, que aponta que o esfriamento das relações diplomáticas se manterá enquanto persistirem as ofensas do ultraliberal, citando membros do governo.

A medida não constitui uma expulsão do embaixador, mas sim um passo prévio a ela. Ou seja, Raimondi não será considerado persona non grata no Brasil e não tem prazo para deixar o país, embora também não seja mais consultado sobre as relações bilaterais a partir de agora.

Seu homólogo brasileiro, Bitelli, em Brasília desde 26 de julho após ter sido chamado para consultas em meio à escalada das tensões diplomáticas, não retornará a Buenos Aires, conforme divulgado pelo jornal argentino “Clarín” e confirmado pelo “Folha” do Brasil, que manterá apenas um encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei contra o governo de Lula.

A CAMPANHA ELEITORAL BRASILEIRA, NO OLHO DO FURACÃO

O conflito com a Argentina começou há pouco mais de uma semana, quando Milei atacou as autoridades brasileiras durante o lançamento da candidatura do ultradireitista Flávio Bolsonaro — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — em São Paulo.

Em um discurso inflamado, o presidente argentino se referiu a Lula como “ladrão” e “preso”, e chamou de “lixo careca” o juiz Alexandre de Moraes, que vetou uma visita do presidente argentino a Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliar em Brasília devido à sua condenação a mais de 27 anos de prisão por liderar a tentativa de golpe de Estado contra Lula, que também tinha Moraes como alvo.

O magistrado fundamentou sua decisão no endurecimento das condições da prisão domiciliar do ex-presidente brasileiro por fazer campanha a favor de seu filho Flávio, entendendo que o ex-presidente violou as medidas cautelares de seu regime de detenção ao apresentar uma carta de apoio à pré-candidatura presidencial de seu filho, que é senador.

No dia seguinte à diatribe do líder argentino, o Brasil convocou o embaixador argentino para prestar explicações e chamou de volta a Brasília seu representante no país vizinho. No entanto, a crise não parou por aí: pouco depois, o ministro da Fazenda brasileiro, Darío Durigan, chamou Milei de “palhaço”, enquanto o secretário-geral da Presidência brasileira, Guilherme Boulos, descreveu o argentino como uma “caricatura patética” e um bajulador do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Lula, por sua vez, optou por ironizar, perguntando “Quem é esse cara?” ao ser questionado pela mídia sobre as declarações de Milei na semana passada.

De Buenos Aires, membros do governo argentino, como o ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, tentaram minimizar a situação ao longo de toda a semana. “Da nossa parte, não há possibilidade de romper relações. Não vamos levar isso para o nível institucional”, destacou Quirno.

No entanto, apenas alguns dias depois, Milei retomou os ataques em uma entrevista à rádio do jornal ‘La Nación’, a LN+: “Falam de ingerência política na região. Se há alguém que interfere politicamente na região, esse alguém é Lula, contaminando-a completamente com as ideias repugnantes do socialismo”, afirmou.

A decisão do governo de Lula é semelhante à tomada pelo Executivo dos Estados Unidos em relação à sua embaixadora naquele país, Maria Luiza Ribeiro Viotti, cujo visto foi revogado pelo governo Trump, limitando suas funções e impedindo seu retorno caso ela saísse do território norte-americano.

Essa decisão de Washington foi repudiada nesta mesma terça-feira por Brasília, que acusou uma “escalada deliberada de medidas hostis motivadas por razões ideológicas”. O Brasil denunciou ainda um “evidente” e “injustificado interesse” por parte dos Estados Unidos em “interferir nas próximas eleições presidenciais”, nas quais o atual chefe do Planalto enfrenta Flávio Bolsonaro, que já recebeu apoio tanto dos Estados Unidos quanto da Argentina.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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