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MADRID, 14 jun. (EUROPA PRESS) -
A Bolívia, um país mergulhado em uma crise multifacetada, está se aproximando das eleições programadas para agosto próximo por um caminho repleto de incertezas e marcado por tensões políticas entre os partidários do presidente Luis Arce e do ex-presidente boliviano Evo Morales.
Esse conflito dentro do histórico partido Movimento para o Socialismo (MAS), central na política boliviana, levou a novos bloqueios e surtos de violência em um país que já está cada vez mais volátil nos últimos anos, um cenário que só aumentou o mal-estar geral de um governo que até agora não conseguiu aliviar as consequências da crise econômica e da falta de combustível.
Morales - que insiste que foi vítima de uma tentativa de assassinato em 2024, quando o veículo em que viajava foi alvejado quatorze vezes por um grupo de "homens encapuzados" - defende a possibilidade de se candidatar, apesar de sua desqualificação, e mais uma vez reuniu o apoio dos setores camponeses e indígenas, que se concentram na região de Cochabamba e são acompanhados por líderes sindicais e membros da ala mais "pró-evista" do partido.
Apesar da controvérsia causada pelas graves acusações contra o ex-presidente Morales sobre sua suposta relação sexual com uma menor e os supostos crimes de tráfico humano, Morales acusa o governo de orquestrar um plano contra ele e insiste que continuará a lutar para "garantir um futuro de justiça social" para o povo boliviano.
O ex-presidente chegou a ameaçar realizar uma marcha em La Paz para se registrar como candidato presidencial na sede do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), uma situação que poderia levar à sua prisão, conforme alertado pelo governo, que atribui a crescente tensão à atitude do próprio Morales.
Além disso, ele foi rápido em garantir que as acusações feitas pelo governo são "falsas" e argumentou que os protestos e bloqueios são uma resposta à "crise, à fome e à injustiça", bem como à inflação, que "leva pessoas humildes a fazer fila para comprar arroz e óleo".
Essas diferenças vêm aumentando a ponto de até o próprio presidente - que desistiu de concorrer às eleições - acusar Morales de tentar dar um "golpe de Estado" com sua convocação para manifestações, apesar de o Tribunal Constitucional ter endossado sua desqualificação - conforme indicado na Carta Magna que ele mesmo promulgou. Ele também pediu que Morales se afastasse em relação ao processo eleitoral.
TENTATIVAS FRACASSADAS DE MORALES
Apesar dessa resolução judicial e do fato de o líder indígena já ter liderado o país por três mandatos consecutivos, o político boliviano tentou se candidatar de várias maneiras, todas sem sucesso até o momento.
A última dessas tentativas ocorreu há duas semanas, quando ele tentou se candidatar pelo Partido Nacional Boliviano (Pan-Bol), uma tentativa que foi rejeitada pelos tribunais com base no fato de que a candidatura estava fora do prazo e que o partido havia obtido menos de 3% dos votos nas eleições anteriores, conforme estabelecido pela lei eleitoral boliviana.
Anteriormente, as autoridades eleitorais determinaram que sua formação Evo Pueblo "não existe", impedindo também sua candidatura, depois que a Frente para a Vitória (FPV) será deixada de fora após perder seu status legal por não ter passado no padrão estabelecido pela lei eleitoral nas eleições de 2020.
No entanto, seus partidários o defendem e apontam para a perseguição, como já aconteceu durante a crise de 2019, quando Morales foi acusado de fraude eleitoral após o primeiro turno das eleições e acabou renunciando e deixando o país, situação que levou Jeanine Áñez (então vice-presidente do Senado) a ser empossada como chefe de Estado em um ato que muitos viram como a confirmação da "deriva ultradireitista" da "revolta" contra Morales.
VIOLÊNCIA NAS RUAS
Do outro lado dessa disputa estão os autodenominados "arcistas", aos quais se juntaram os anteriormente considerados choquehuanquistas - partidários do vice-presidente David Choquehuanca - agora unidos para defender a administração de Arce e conseguir a renovação do mandato do MAS, desta vez nas mãos de Eduardo del Castillo.
Esse bloco, que está comprometido com a renovação, tem o apoio das forças armadas, que agora têm novos comandantes nos principais corpos militares depois do que aconteceu em 2024, quando as autoridades denunciaram uma tentativa de golpe contra Arce por um grupo de soldados liderados pelo general Juan José Zúñiga.
Apesar de tudo isso, a tensão continua a aumentar nas ruas, e o governo decidiu processar Morales por terrorismo como resultado do bloqueio das estradas, que já causou milhões em prejuízos. O governo também está considerando a possibilidade de recorrer ao exército "se necessário" para garantir a realização de eleições e está defendendo a possibilidade de levar a crise à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e às Nações Unidas, que já estão em alerta sobre a situação dos direitos e liberdades dos bolivianos.
O próprio Arce, que disse ser o alvo dos bloqueios, reprovou os manifestantes por buscarem "morte, luto e dor" para a Bolívia. Ele rejeitou novamente a possibilidade de renunciar: "é importante mencionar que a renúncia não resolve os problemas, de forma alguma". "Se resolvesse os problemas, nós já teríamos saído", garantiu.
O PAPEL DO TRIBUNAL ELEITORAL
O TSE, por sua vez, parece estar no caminho certo: em 6 de junho, o órgão eleitoral confirmou a participação de dez candidatos nas eleições após uma sessão plenária que teve de ser transferida de La Paz para Santa Cruz devido à pressão dos partidários de Morales, cuja candidatura continua sem sucesso.
"As eleições estão garantidas, embora haja algumas pessoas que queiram impedi-las", disse o presidente do TSE, Óscar Hassenteufel, que apresentou a lista de dez candidatos, inclusive a do presidente do Senado, o jovem Andrónico Rodríguez, que já havia recebido sinal verde do Tribunal Constitucional, mas por meio da Alianza Popular e como parte do Movimiento Tercer Sistema (MTS).
Morales tem negado sistematicamente sua adesão a Rodríguez devido a "profundas diferenças ideológicas" e a uma suposta "ruptura com os princípios e valores do movimento que ele lidera". Para ele, a candidatura de Rodríguez foi concebida nos Estados Unidos, onde foi decidido que "a esquerda não deveria voltar ao poder" na Bolívia.
Nesse sentido, ele denunciou ações "estratégicas" do exterior para "dividir os movimentos sociais e deter as mobilizações que exigem soluções para a crise dos combustíveis", à qual se soma a escassez de dólares. A oposição, por sua vez, pôde contar com velhos conhecidos da classe política boliviana, como o ex-presidente Jorge Tuto Quiroga e o ex-ministro Samuel Doria Medina.
Enquanto isso, o debate sobre a crescente judicialização da política continua. O MAS criticou mais uma vez as ações do Tribunal Constitucional, que acusa de tomar decisões de "natureza política" que incentivam esse tipo de confronto entre os poderes.
Diante dessa encruzilhada política, que se agrava à medida que as eleições se aproximam, a Bolívia deve agora enfrentar uma polarização crescente e deixar para trás uma situação um tanto incomum, na qual candidaturas sem partidos e partidos sem candidatos foram favorecidos.
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