Clara Carrasco - Europa Press
BERROCAL (HUELVA), 19 (EUROPA PRESS)
O prefeito de Berrocal (Huelva), Ángel Luis Romero, anunciou que a Câmara Municipal realizará na próxima segunda-feira uma sessão plenária extraordinária, na qual os sete membros do conselho municipal solicitarão, por unanimidade, a declaração da área como gravemente afetada por uma emergência de proteção civil — o que é popularmente conhecido como zona catastrófica — após o incêndio devastador ocorrido no último dia 6 de agosto na área de Raboconejo, em Niebla — que resultou em 33.000 hectares queimados — e que afetou gravemente Berrocal.
Em entrevista concedida à Europa Press após a população ter podido retornar ao centro da cidade, Romero afirmou, diante do futuro incerto da localidade, que “o verdadeiro drama de Berrocal começa agora”.
O vereador de Berrocal expressou o alívio dos moradores por estarem em suas casas, embora tenha ressaltado que a magnitude da tragédia vai muito além do aspecto ambiental. “A catástrofe visível está no ambiente natural, mas na mesma lista estão as dimensões cultural, social e econômica”, destacou ele antes de apelar à necessidade de respostas e “certezas” imediatas por parte da Junta da Andaluzia e do Governo central.
Romero destacou a total união do conselho municipal para reivindicar ajuda institucional, sem distinção de filiação política. “Nesta segunda-feira, teremos uma sessão plenária extraordinária em que os seis vereadores e o prefeito não falaremos de partidos nem de nada. Vamos solicitar a declaração de zona de catástrofe ou a classificação que for adequada, mas precisamos que nos ajudem”, enfatizou.
Nesse sentido, o prefeito explicou que manteve conversas iniciais com representantes do Governo da Andaluzia, dos quais recebeu palavras de incentivo e o compromisso verbal de apoiar a cidade, embora exija concretização financeira e planos diretos de socorro. “Posso ligar para meus amigos para que venham me abraçar, mas o que realmente precisamos aqui são as autoridades. Vocês veem, eu vejo e qualquer um vê: somos um ponto branco em meio a um mar de cinzas e carvão. Ou nos ajudam ou não sabemos como sair dessa”, enfatizou.
O prefeito de Berrocal destacou que a principal prioridade neste momento é restaurar uma normalidade “muito necessária” para os moradores de Berrocal, uma recomendação transmitida “tanto pelos serviços de emergência quanto pelas equipes de atendimento psicológico” enviadas à região.
“A única coisa que nos restou, o que já é bastante, é a cidade. Temos que tentar manter a tragédia fora das casas, mesmo que cada um de nós a carregue dentro de si. Por isso, é vital que as crianças voltem o mais rápido possível à sala de recreação, que recuperemos os espaços públicos e que reconstruamos a piscina municipal o mais rápido possível”, afirmou Romero.
Entre as primeiras ações colocadas em prática ainda hoje pela Prefeitura está a reabertura do anel hídrico municipal, infraestrutura básica que abastece a rede de hortas familiares. “Além de seu valor econômico para as famílias, a horta aqui é como o campo de futebol onde nosso time joga; os pés de tomate são o time do povo”, destacou o vereador.
Paralelamente, ele explicou que as equipes e os operários avançam na limpeza e na recuperação da rede de vias principais para restabelecer a mobilidade na zona rural. Romero também insistiu na importância de reativar pontos de encontro entre vizinhos, como os bares da vila: “Dizer isso não é nenhuma frivolidade; estar em um bar é necessário para estarmos juntos e curarmos as feridas em comunidade”, acrescentou.
IMPACTO NAS ÁREAS DISPERSAS
Questionado sobre os danos em edifícios e casas de campo espalhadas pela serra do município, o prefeito classificou como um “milagre” o fato de o centro da cidade não ter sido destruído pelo fogo, dada a voracidade do incêndio e a grande quantidade de casas isoladas existentes.
Embora, nos primeiros momentos da emergência, tenham sido descartados danos em infraestruturas residenciais, Romero confirmou que há, de fato, danos em áreas periféricas, como a região de Mascotes.
Por outro lado, o prefeito elogiou a “impressionante” cadeia de solidariedade humana demonstrada durante a catástrofe, enfatizando que a gestão ultrapassou a capacidade formal da prefeitura para se tornar uma mobilização de toda a população. Particularmente emocionado, ele agradeceu a chegada de voluntários provenientes de municípios vizinhos, como El Madroño, bem como o envolvimento ativo da reserva de caça local e de grupos conservacionistas em tarefas essenciais, como o fornecimento de alimentos e água para o gado e a fauna silvestre.
MODELO FLORESTAL E DESPOBLAMENTO
O incêndio de Niebla despertou novamente em Berrocal os fantasmas do incêndio devastador que atingiu a região há 22 anos — o grande incêndio de Riotinto de 2004. Nesse contexto, Romero refletiu sobre a necessidade de “aprender” com a experiência e não limitar as soluções a “remendos temporários”.
“Há duas décadas, levamos um golpe que nos deixou nocauteados, quase mortos, e esse incêndio veio dar o golpe de misericórdia. Não devemos permitir que isso volte a acontecer. Devemos sair mais fortes e mais espertos, com soluções reais”, lamentou.
O vereador de Berrocal alertou contra os discursos sobre a gestão do território florestal na zona rural. “Isso não se resolve apenas com os avós recolhendo pinhas nem com a pretensão de ter centenas de criadores de cabras quando ninguém quer que seus filhos sejam criadores de cabras. Esses são discursos bucólicos de quem não conhece a realidade do campo. Isso tem muito mais facetas”, enfatizou.
Romero relacionou a vulnerabilidade diante dos grandes incêndios florestais com o declínio demográfico gradual que a localidade vem sofrendo desde 1970. “Somos uma vila predominantemente florestal, uma vila de trabalhadores diaristas. Aqui, a solução não é um ‘ibuprofeno para todos’; receitas genéricas não servem. É preciso dotar as comunidades de serviços públicos, estudar a realidade produtiva e oferecer facilidades para sustentar a vida no meio rural”, argumentou.
PATRIMÔNIO MEGALÍTICO A SALVO
Em meio à desolação causada pelas cinzas, o prefeito trouxe uma nota de esperança ao confirmar que o valioso patrimônio megalítico e arqueológico do município conseguiu ser poupado da ação do fogo.
Berrocal abriga conjuntos de dólmenes de importante valor histórico, entre os quais se destaca a peça pré-histórica encontrada e conhecida como a “Vênus do Casullo”, uma figura de terracota com mais de 5.000 anos de idade que se encontra no Museu de Huelva. Romero também se referiu ao estado do conjunto vizinho dos Dólmenes de El Pozuelo — no município de Zalamea la Real —, que, embora cercado por terreno carbonizado, mantém suas estruturas de pedra de pé.
“Nosso dolmen é o mais antigo da província de Huelva, com 5.000 anos. Ao longo de cinco milênios, os moradores de Berrocal passaram por inúmeras vicissitudes ao longo da história e não seremos nós que vamos desistir agora. Vamos renascer das cinzas. Uma cidade é seu povo, sua cultura, sua história e seu ambiente social. Isso não tem preço. Aqui não há espaço para disputas entre o Estado, a Junta da Andaluzia ou a Prefeitura: devemos nos unir, pois Berrocal precisa de uma ajuda séria e de verdade”, concluiu.
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