VALLADOLID 3 abr. (EUROPA PRESS) -
O arcebispo de Oviedo, Jesús Sanz Montes, protagonizou nesta Sexta-feira Santa, na Praça Mayor de Valladolid, o tradicional Sermão das Sete Palavras, um ato no qual reivindicou o “drama da liberdade” diante do que chamou de “verborragia cínica” e das situações de “corrupção” que, em sua opinião, marcam a atualidade social e política.
O prelado iniciou às 12h25 sua intervenção a partir do púlpito instalado na emblemática praça, diante de milhares de pessoas de todas as idades que se reuniram em uma manhã ensolarada de primavera para assistir a este ato, para o qual foram convidados a participar os pregadores da Confraria das Sete Palavras que, a cavalo, percorreram previamente as ruas da cidade.
O sermão durou aproximadamente uma hora, até por volta das 13h25, sem incidentes e diante do olhar atento dos milhares de participantes voltado para o púlpito de onde Sanz Montes proferiu seu discurso, ladeado por cortinas negras que realçavam a sobriedade das andanças processionais ali presentes.
O ambiente foi marcado pelo recogimento e pelo silêncio próprios do ato, quebrados apenas pela voz do prelado e pela música de abertura executada pela Banda Sinfônica de Arroyo de la Encomienda, cujas marchas envolveram o epicentro do Sermão, ao qual compareceu uma ampla representação institucional que incluiu representantes municipais e comandantes da Polícia Nacional e da Guarda Civil.
O prelado, diante de todas as andanças das Sete Palavras que escoltaram o Cristo de las Mercedes, analisou as últimas intervenções de Cristo na Cruz, relacionando-as com as “luzes e sombras” da história humana contemporânea.
Em seu discurso, Sanz Montes destacou que as Sete Palavras constituem a “síntese concisa de uma doação sem igual” e lamentou que, atualmente, a sociedade se encontre frequentemente “sequestrada” por palavras vazias e “pretensões inconfessáveis”.
O orador defendeu a relevância deste sermão, iniciado na cidade em 1943, como um eco que responde à “contradição sórdida” da humanidade. Em sua análise da primeira palavra, o arcebispo destacou que a ignorância não é uma atenuante para a responsabilidade pessoal e social, denunciando que se mente “sem piedade” para salvar “privilégios e governos”.
“CODÍCIA” E “PÓS-VERDADE”
Nesse contexto, ele criticou aqueles que roubam com “codícia belicosa”, abusam dos inocentes ou relativizam a verdade por meio da “pós-verdade” e assegurou que a oração de Jesus continua pedindo um perdão que “suavize” as “altivas”.
Ao referir-se à figura do “Bom Ladrão”, São Dimas, o prelado destacou que este conseguiu “roubar honestamente a Deus” o paraíso por meio de um ato de fé e um exame de consciência. Nesse ponto, ele exortou os fiéis a não se deixarem distrair por “diversas corrupções” e a olharem para os “santos da porta ao lado”, pessoas simples que vivem o Evangelho em suas circunstâncias cotidianas.
Com relação à presença da Virgem Maria aos pés da Cruz, Sanz Montes definiu sua atitude como um “drama”, diferenciando-a da tragédia ou da comédia. Ele explicou que o drama é “liberdade em ação” e colocou Maria como exemplo de quem arrisca sua liberdade por aquilo que vale a pena, entregando seu Filho em benefício de toda a humanidade e acolhendo o discípulo João como novo filho.
O arcebispo abordou o grito de abandono de Jesus como um gesto de “solidariedade divina” com todas as dores humanas, tais como a solidão, a doença inesperada ou as catástrofes. Ele ressaltou que Cristo fez suas as mortes ceifadas pelo terror e pelas injustiças decorrentes de uma “má governança”, permitindo que ninguém se sinta sozinho diante das provações que ultrapassam a capacidade humana.
Sobre a sede de Cristo, o prelado alertou para o paradoxo de uma geração opulenta que parece “morrer de água” por não encontrar o sentido da vida entre “águas falsas” e lembrou, citando Santo Agostinho, que a oração “é o encontro da sede de Deus com a sede do homem”.
Sanz Montes destacou a expressão “tudo está consumado” como o selo de uma vida entregue à fidelidade filial, após uma trajetória em que Jesus “passou fazendo o bem”. Ele convidou os presentes a se verem refletidos na Via Crucis e a agirem como “cirineus” daqueles que hoje vivem mal em seus próprios caminhos dolorosos, e observou que os pecados humanos não têm a última palavra.
Na sétima e última palavra, o arcebispo descreveu a entrega do espírito como o fim de uma jornada que busca derrubar os “bastiões que nos separam” e devolver a dignidade de irmãos.
“CORRUPÇÃO” E “IMORALIDADE”
O prelado dedicou uma parte do epílogo a denunciar o “paisagem sombria” que cercou esta Semana Santa, quando a corrupção se “disfarça até o obsceno”, as mentiras se “normalizam como forma de governança”, a “imoralidade jorra” entre os “vendedores de moralina” e se observa a “irresponsabilidade dos chefões que roubam descaradamente”.
Diante desse panorama, ele propôs o “abraço sereno e livre” da fé e da caridade como único caminho para contemplar a realidade a partir do olhar de Deus.
Sanz Montes afirmou que as Sete Palavras julgam hoje as “situações sórdidas” que surgem em todas as camadas sociais, desde a deterioração institucional até os rumores de uma “jornada sem rumo”.
Ele destacou que, embora os nomes dos personagens mudem, os “Judas modernos” continuam vendendo sua deriva por 30 moedas e os “Pedros” continuam chorando nos “pátios da indiferença”. O arcebispo concluiu que o mistério de Deus só pode ser compreendido a partir da “teodramática”, evitando o riso frívolo e o choro inconsolável para buscar uma felicidade “dramaticamente” justa e santa. Afirmou que a ausência de Cristo após a Cruz se transformou em uma “presença ressuscitada” que continua hoje acompanhando a vida dos homens.
Na parte final de seu discurso, ele exortou os fiéis a assumirem a “palavra oitava” e indicou que cada pessoa deve escrever agora a página destinada à sua própria biografia; insistiu que o “sonho de amor” de Deus é “infinitamente” maior do que os “pesadelos fugazes” da humanidade e encorajou a compartilhar o dom recebido com os demais.
Sob temperaturas mais agradáveis do que no início da manhã, durante o Pregão, ao final do Sermão a Confraria iniciou o caminho de volta das andanças em uma Sexta-feira Santa com marcado caráter primaveril.
Assim, as diferentes imagens correspondentes às Sete Palavras e ao Cristo de las Mercedes percorreram novamente o centro pela Rua Santiago e Héroes de Alcántara até chegarem à Igreja Paroquial de Santiago Apóstolo, ponto onde terminou o trajeto.
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