Publicado 08/05/2026 10:53

Antonio Ledezma recebe em Saragoça a Estrela da Europa “como um grito que rompe o silêncio”

O político venezuelano Antonio Ledezma recebe a Estrela da Europa das mãos da prefeita de Saragoça, Natalia Chueca
EUROPA PRESS

A prefeita de Saragoça diz ao ex-prefeito de Caracas que esse reconhecimento “é uma obrigação moral e significa que estamos do seu lado”

SARAGOÇA, 8 maio (EUROPA PRESS) -

O político e advogado venezuelano Antonio Ledesma, que foi detido e preso quando era prefeito de Caracas pelo regime de Nicolás Maduro, recebeu das mãos da prefeita de Saragoça, Natalia Chueca, a Estrela da Europa, um reconhecimento pelo qual agradeceu e do qual destacou que “não é como um adorno na lapela, mas um grito que rompe o silêncio”.

Esse grito, precisou ele, já não é de solidão, mas de uma “resistência corajosa” para indicar que recebe este prêmio em nome das famílias “deslumbradas pela diáspora”.

Na cerimônia de entrega desta distinção por ocasião do Dia da Europa, comemorado em 9 de maio, o político venezuelano sublinhou que “nenhuma ditadura é mais forte do que uma estrela que se recusa a se apagar”.

"Esta estrela não é minha — disse ele visivelmente emocionado —, será um ramo de flores sobre cada túmulo de nossos mártires, um bálsamo nas feridas abertas dos flagelados, uma bússola para encontrar o rastro das vítimas de desaparecimento forçado e, acima de tudo, um abraço fraterno para as famílias que, em meio à noite mais escura, persistem na teimosa coragem de continuar lutando”.

Em uma intervenção de quase meia hora, Ledezma relatou os crimes do regime chavista e deixou claro que os venezuelanos “não aspiram à vingança, mas à justiça”.

Nesse contexto, ele implorou: “Zaragoza, Espanha, Europa, não se esqueçam da Venezuela”, argumentando que “quando a liberdade se apaga em uma margem, o mundo inteiro escurece um pouco”.

Ele também quis compartilhar esse reconhecimento com “orgulho militante” com a líder da oposição chavista, María Corina Machado, a quem chamou de “minha irmã de alma”, e com o presidente eleito, Edmundo González Urrutia, porque “juntamente com os jovens que constroem o futuro sobre os escombros, eles são os verdadeiros artífices dessa esperança”.

Ele transmitiu aos espanhóis o apelo para que aprendam com a experiência da Venezuela, pois “a democracia não é um estado natural, é uma conquista frágil que precisa ser cuidada, renovada e defendida dia após dia”.

BLANQUEO

Ledezma apresentou alguns dados sobre a Venezuela, como o salário mensal de um trabalhador de 30 centavos de dólar, os 9 milhões de exilados e os mais de “700 bilhões de dólares saqueados”.

“Eles roubaram nosso ouro, levando-o em malas clandestinas, cometendo o roubo mais cínico da nossa história sob o pretexto de uma ideologia que só produziu miséria. Mas a pilhagem material não é o pior. O execrável é o custo em vidas humanas”, diferenciou.

Ele se referiu às mais de 18.000 execuções extrajudiciais, 20.000 detenções arbitrárias e aos mais de 500 prisioneiros políticos, civis e militares, cujos corpos são “profanados em centros de tortura que funcionam como moinhos da dignidade humana”.

“Fico chocado ao ver como, nos corredores de um progressismo mal interpretado, há quem busque branquear essas perversões, quem pretenda suspender sanções e apertar mãos manchadas de sangue, como se um barril de petróleo ou uma suposta afinidade política com ideologias infundadas valessem mais do que a vida de uma criança venezuelana, que só frequenta a escola por dois dias em uma escola em ruínas”. Por isso, esta medalha da Europa tem um destino “sagrado”, afirmou.

NARRATIVA DE ÓDIO

Ledezma transmitiu sua gratidão à prefeita de Saragoça, por seu “nobre gesto”, e assegurou que a levará “tatuada na memória do coração, lugar onde as lembranças perduram para sempre”. Ele disse a Chueca que ela lidera uma cidade que é o berço da hispanidade e, por isso, é “oportuno e imperativo denunciar essa narrativa de ódio, essa lenda negra que pretende semear rancores onde houve encontro”.

Ele fez referência à descoberta da América, que não significou apenas atravessar oceanos, mas também deixar como legado a língua espanhola, falada por mais de 600 milhões de pessoas, ao mesmo tempo em que os ameríndios aprendiam latim, permitindo que essas sociedades sem escrita pudessem escrever em sua língua natural e que sobrevivessem até os dias de hoje. Ele comentou o fato de que a primeira impressora que saiu da Europa foi para o México, onde começou a produção de livros que exigiu a formação de técnicos locais, muitos deles indígenas.

“Não foi apenas uma transferência tecnológica daquela época, mas uma maneira de expandir uma cultura por meio do ensino da língua, ao mesmo tempo em que se incorporavam as características e contribuições das culturas originárias. Assim, ao longo de três séculos, foi-se construindo algo mais profundo do que uma estrutura de domínio”.

Ele lamentou que esses três séculos tenham sido relegados ou menosprezados pelo ensino da história, que “salta diretamente para o século XIX” e se detém em episódios militares, fazendo com que se “perca a compreensão de um período decisivo, sem o qual é impossível entender o que somos da Espanha”.

“Veneramos o nome da Espanha, porque significa o direito, as ciências positivas, a moral e a tradição cristã”, sublinhou.

OBRIGAÇÃO MORAL

“A Espanha tem a obrigação moral e real de apoiar vocês nessa luta pela liberdade”, enfatizou a prefeita. “É colocar-nos ao seu lado e mostrar que esta cidade está ao lado daqueles que defendem a liberdade contra aqueles que a oprimem, porque é nossa responsabilidade para com as próximas gerações”, disse Chueca na ode que leu a Antonio Ledezma.

Ela comentou que há uma certa tendência a dar como certo que a democracia é algo garantido e, embora se critiquem as imperfeições, “ela também precisa que se façam perguntas, porque a democracia não teme as perguntas”.

Ela relatou que há vozes que "semeiam cinismo e outras equiparam a liberdade ao caos ou apresentam o autoritarismo como uma alternativa eficiente", pelo que os cidadãos têm de se perguntar o que significa realmente viver sem democracia, o que significa viver num país onde quem ganha as eleições não governa ou onde quem protesta "desaparece ou onde quem pensa diferente vai para a prisão", para responder que "basta olhar para a Venezuela".

Em sua ode, ele elogiou a coragem de Ledezma e sua família, assim como a de tantos venezuelanos “muito valentes e corajosos” que decidiram que sua vida, sua segurança e seu bem-estar pessoal eram um preço que estavam dispostos a pagar para defender a liberdade de todo o povo venezuelano.

Chueca quis deixar a reflexão de que, nestes tempos “difíceis” em que a democracia precisa de defensores, Antonio Ledezma foi e continua sendo um desses “grandes defensores” da democracia. “Você é um exemplo para todos os democratas, desde o exílio, e com a energia de quem sabe que a luta não terminou, com a esperança de quem sabe que a Venezuela voltará a ser livre”.

ZARAGOZANO DE ADOÇÃO

A prefeita, em nome de toda Zaragoza, agradeceu a Ledezma por “não desistir e por nos lembrar que a liberdade vale muito a pena”. Ela disse ao político venezuelano que esta cidade lhe abre as portas e lhe estende os braços “para que, com toda a emoção e convicção, você sinta Zaragoza como sua casa” e acrescentou: “você é um zaragozano de adoção, Antonio”.

Antes de concluir, Chueca enfatizou que Saragoça continuará sendo uma cidade que acredita na Europa, defende a democracia e que “nunca desvia o olhar quando a liberdade de alguém está em jogo”.

Após a intervenção da prefeita, foi exibido um vídeo gravado de Maria Corina Machado, no qual ela transmite seu agradecimento à Prefeitura por este reconhecimento a Ledezma, que “merece por sua trajetória, pelo que fez pelo seu país e pelo que continuará a fazer nesse futuro de prosperidade e liberdade que esteja próximo para a Venezuela”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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