Publicado 28/08/2025 20:03

A Anistia pede que a Síria assuma um "compromisso inequívoco" com a verdade sobre os desaparecidos durante o governo de al-Assad

A ONG pede "justiça e reparações" para os desaparecidos "nas mãos de todas as partes em guerra na Síria".

Archivo - Arquivo - 22 de dezembro de 2024, Najha, Síria: Uma vala comum é encontrada onde inúmeros homens desapareceram em meio a relatos de tortura durante um regime brutal em Najha, na Síria, em 22 de dezembro de 2024.  Há necessidade de equipamentos p
Europa Press/Contacto/Carol Guzy - Arquivo

MADRID, 29 ago. (EUROPA PRESS) -

A organização não governamental Anistia Internacional pediu às novas autoridades instaladas na Síria após a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, que demonstrem um "compromisso inequívoco" com a busca da verdade e a reparação das dezenas de milhares de pessoas desaparecidas, dadas as dificuldades que suas famílias continuam enfrentando para buscar respostas e justiça.

A ONG afirmou em seu relatório 'The Truth Remains Buried: The Struggle for Justice by Families of the Disappeared in Syria' (A verdade continua enterrada: a luta por justiça das famílias dos desaparecidos na Síria), publicado por ocasião do Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, que o novo governo deve priorizar "uma busca nacional inclusiva por aqueles que permanecem desaparecidos" e "exigir responsabilidade".

O documento relata como, após a queda de al-Assad em 8 de dezembro de 2024, os parentes dos desaparecidos foram às prisões, centros de detenção e necrotérios em busca de seus entes queridos, ao mesmo tempo em que detalha a angústia e o trauma vividos por muitos deles devido à falta de progresso no esclarecimento de seu paradeiro.

O relatório baseia-se em entrevistas com mais de 20 parentes, sobreviventes e representantes de associações de vítimas e revela que "provas cruciais" foram perdidas ou destruídas após a queda do antigo regime, sendo que muitos dos responsáveis por esses abusos e violações de direitos humanos ainda estão soltos.

"As famílias das pessoas desaparecidas na Síria suportaram mais de uma década de sofrimento e incerteza inimagináveis", disse Kristine Beckerle, Diretora Regional Adjunta da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África.

"Embora a queda do governo anterior tenha oferecido um vislumbre de esperança, o medo de que os supostos perpetradores sejam inocentados e de que a busca pelos desaparecidos não seja abrangente e completa contribui para uma nova onda de trauma", acrescentou.

Nesse sentido, ele enfatizou que "a verdade, a justiça e a reparação para as pessoas desaparecidas na Síria devem ser uma prioridade urgente do Estado, inclusive garantindo a independência da recém-criada Comissão Nacional para Pessoas Desaparecidas (NCM) e fornecendo a ela recursos suficientes e a máxima cooperação de todas as instituições do Estado".

"A cada dia que passa, aumenta o tormento das famílias que aguardam respostas sobre o destino e o paradeiro de seus entes queridos", disse Beckerle, mas reconheceu que "o novo governo enfrenta uma série de desafios, incluindo condições econômicas terríveis e uma situação de segurança em deterioração, em meio à crescente violência sectária".

"Ele não pode avançar na construção de um futuro baseado na responsabilidade e no estado de direito, a menos que aja de forma decisiva agora para garantir um processo inclusivo que leve à verdade, à justiça e à reparação dos desaparecidos nas mãos de todas as partes em conflito na Síria", argumentou.

PRINCIPAIS DEMANDAS DAS FAMÍLIAS

As principais exigências das famílias dos desaparecidos incluem a descoberta da verdade sobre o destino de seus entes queridos, justiça, responsabilidade, reparações e garantias das novas autoridades, instaladas após uma blitzkrieg de jihadistas e rebeldes liderados pelo Hayat Tahrir al Sham (HTS), para garantir que tais eventos não se repitam.

A Anistia Internacional disse que estima-se que, entre a eclosão da guerra em 2011 e 2024, quando o regime de al-Assad caiu, mais de 100.000 pessoas desapareceram na Síria, a maioria delas vítimas de desaparecimentos forçados nas mãos das forças do governo na rede de centros de detenção do país, enquanto outros milhares desapareceram nas mãos de outros grupos armados.

A organização disse que a criação do NCM em maio é "um primeiro passo fundamental em direção à verdade, à justiça e à reparação desses desaparecimentos". O órgão foi criado juntamente com a Comissão Nacional de Justiça Transicional (NCTJ), embora a Anistia Internacional tenha argumentado que o mandato desta última deveria ser ampliado para abranger também os crimes perpetrados por grupos armados, já que se concentra apenas nas ações do regime de al-Assad.

A esse respeito, Wasel Hamidé, cujo irmão foi vítima de desaparecimento forçado, enfatizou que as famílias dos desaparecidos "exigem justiça para todas as vítimas: aquelas que perderam seus entes queridos para o regime de Assad e aquelas que os perderam para outros atores armados".

"Fazer justiça e responsabilizar os perpetradores de todos os lados é a única garantia de que nossa agonia não se repetirá. É a única maneira de viver em um país onde o estado de direito prevalece", explicou.

NOVOS SEQUESTROS

A Anistia Internacional disse que, nos primeiros nove meses desde a instalação das novas autoridades, documentou o sequestro de pessoas e criticou o fracasso de Damasco em realizar investigações sobre esses casos e em responsabilizar os responsáveis por esses novos crimes.

"O governo sírio deve atender aos apelos das famílias das vítimas e priorizar seus direitos à verdade, à justiça e à reparação", reiterou Beckerle, enfatizando que "sem verdade, justiça e reparação, o povo sírio nunca se curará verdadeiramente".

Ela acrescentou que "os governos doadores em todo o mundo também devem fornecer financiamento e apoio abrangente às associações familiares e aos grupos liderados por sobreviventes que ajudam as vítimas de desaparecimento para garantir que esses direitos sejam respeitados no contexto de um processo inclusivo".

"O governo deve conduzir prontamente investigações transparentes, imparciais, independentes e completas sobre todos os crimes de acordo com o direito internacional e garantir que todas as vítimas e suas famílias recebam reparação completa, adequada e eficaz, incluindo restituição, indenização, reabilitação, satisfação e garantias de não repetição.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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