Publicado 20/07/2026 03:42

A Anistia Internacional exige uma investigação sobre o papel dos EUA em um ataque a uma embarcação equatoriana

A ONG denuncia que oito tripulantes do “Fiorella” continuam desaparecidos e aponta para um possível “assalto” à embarcação

Archivo - Arquivo - Ataque dos EUA a uma suposta lancha de contrabando no Pacífico Oriental
SOUTHCOM - Arquivo

MADRID, 20 jul. (EUROPA PRESS) -

A ONG Anistia Internacional (AI) exigiu nesta segunda-feira uma investigação sobre o papel dos Estados Unidos em um ataque perpetrado no início de 2026 contra uma embarcação equatoriana, da qual oito tripulantes continuam desaparecidos, no âmbito da política norte-americana de bombardear embarcações no Oceano Pacífico e no Mar do Caribe, alegando ter provas de que elas participam de operações de tráfico de drogas — uma conduta que já custou a vida a mais de 200 pessoas desde setembro de 2025.

“Em 20 de janeiro de 2026, o barco pesqueiro ‘Fiorella’ desapareceu em águas internacionais, após ter zarpado do porto de Jaramijó, no Equador, sete dias antes. Desde então, desconhece-se o paradeiro de oito dos dez tripulantes”, denunciou a Anistia Internacional, segundo a qual “os indícios apontam para que os Estados Unidos possam ter atacado a embarcação como parte de sua mais recente política antidrogas ‘Southern Spear’ (Lança do Sul), por meio da qual mais de 60 embarcações foram atacadas na região e mais de 200 pessoas foram assassinadas desde setembro de 2025”.

Nesse sentido, a organização destacou que, de acordo com a reconstrução da rota do barco realizada por seu laboratório de evidências, “o ‘Fiorella’ partiu do porto de Jaramijó, na província de Manabí, e navegou por águas equatorianas em direção às Ilhas Galápagos, que pertencem ao Equador”.

Além disso, funcionários da organização viajaram para as cidades de Manta e Jaramijó para entrevistar as famílias dos oito desaparecidos, que “procuram seus entes queridos e exigem respostas das autoridades equatorianas desde janeiro”, além de ter mantido reuniões com autoridades e analisado “declarações extraídas do processo administrativo elaborado pela Capitania do Porto de Manta (pertencente à Marinha do Equador)”.

À luz desse trabalho, a Anistia concluiu que, após zarpar na noite de 13 de janeiro de Jaramijó com dez tripulantes a bordo e alternar entre águas internacionais e a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Equador continental e das Ilhas Galápagos, “no quarto dia de navegação, a embarcação ‘Fiorella’ teria começado a ser alvo de um acompanhamento contínuo por parte de aeronaves, patrulhas e drones com símbolos dos Estados Unidos”.

“O capitão da embarcação, Juan Carlos Valencia, comunicava diariamente à sua família, por meio de mensagens via satélite, sua crescente preocupação com essa vigilância”, destacou a ONG.

Nos dias seguintes, Valencia informou sua família e os proprietários da embarcação sobre a presença de aeronaves, drones e até mesmo de uma patrulha marítima dos Estados Unidos.

Em 19 de janeiro, um dia antes da perda de comunicação, a tripulação avistou novamente drones, aeronaves e uma patrulha marítima, segundo relatou a Anistia Internacional, que informa que um dos sobreviventes contou ter visto vários drones e “uma grande embarcação com bandeira americana”. O segundo sobrevivente, acrescenta a organização, descreveu “uma patrulha, dois aviões que passavam voando baixo e exibiam um símbolo azul semelhante ao da NASA”.

Ao amanhecer de 20 de janeiro, dia do desaparecimento, “duas lanchas de pesca, cada uma com dois tripulantes, se separaram do navio-mãe Fiorella para lançar vários quilômetros de palangre com anzóis iscados, uma tarefa comum na pesca artesanal de alto mar”.

“Uma dessas lanchas, a ‘Primer Mandamiento’, manteve-se a uma distância consideravelmente maior do que a outra em relação ao ‘Fiorella’: cerca de 15 milhas náuticas (quase 28 quilômetros). Por volta das 6h, a tripulação do ‘Primer Mandamiento’ terminou de lançar a rede de palangre e se preparou para o café da manhã”, explicou a Anistia Internacional, que alerta que, sete horas depois, esses pescadores ouviram pelo rádio “gritos vindos da outra lancha: ‘Capitão, capitão, capitão!’”. Imediatamente depois, perdeu-se toda a comunicação com ambas as embarcações.

Os tripulantes do “Primer Mandamiento”, “os únicos que conseguiram voltar com vida”, afirmaram à Capitania do Porto ter avistado uma grande coluna de fumaça na direção do “Fiorella”, sem poder determinar com certeza se se tratava de um incêndio a bordo do navio-mãe, conforme informou a organização, que alerta que “não se teve mais notícias do ‘Fiorella’ nem da segunda lancha que se soltou”.

Diante dessas circunstâncias, a diretora para as Américas da Anistia Internacional, Ana Piquer, lamentou que “as famílias das oito pessoas cujo paradeiro é desconhecido temam que se trate de um desaparecimento forçado pelas mãos dos Estados Unidos”. “As autoridades americanas e equatorianas devem confirmar ou negar se houve participação de agentes estatais de qualquer um dos dois países, tomar todas as medidas necessárias para apurar o destino e o paradeiro das vítimas e apresentar provas conclusivas que demonstrem o que lhes aconteceu”, exigiu ela.

AMNISTIA PEDE INVESTIGAÇÕES SOBRE OS ATAQUES A EMBARCAÇÕES

“É como se o navio tivesse simplesmente desaparecido e ninguém se preocupasse em saber como isso aconteceu nem o que ocorreu com as pessoas a bordo. Será que ele voou? Mais de seis meses após o ocorrido, as autoridades equatorianas devem responder com clareza quais medidas tomaram para apurar os fatos, o que sabem, o que não sabem e como pretendem atender às reivindicações legítimas das famílias dos desaparecidos”, questionou, ressaltando que “a investigação criminal sobre esses fatos deve avançar até identificar os possíveis responsáveis e levá-los à justiça”.

Nesse sentido, o diretor de advocacy para as Américas da Anistia Internacional dos Estados Unidos, Daniel Noroña, defendeu que “a cooperação em matéria de segurança entre os Estados Unidos e o Equador”, dois países estreitamente aliados sob os respectivos governos de Donald Trump e Daniel Noboa, “deve se basear na proteção dos direitos humanos e no fortalecimento do Estado de Direito”.

“Ambos os países devem revisar os acordos bilaterais de segurança existentes para garantir que não contribuam para a impunidade nem impeçam o acesso à justiça das vítimas e de suas famílias”, acrescentou.

Quanto a Washington, Piquer defendeu que “o Departamento de Justiça e as autoridades investigativas das Forças Armadas dos Estados Unidos têm a responsabilidade de investigar e apurar possíveis responsabilidades penais, não apenas em relação ao caso do Fiorella, mas de todos os ataques a embarcações em alto mar”.

Da mesma forma, ele exigiu que o Congresso dos Estados Unidos promova “uma investigação legislativa sobre esse grave incidente, com audiências e relatórios que permitam esclarecer os fatos e determinar a possível participação de órgãos públicos ou entidades privadas sob seu comando”. “Além disso, todos os Estados devem suspender a cooperação internacional em matéria de inteligência e equipamento militar que possa ser destinado a esse tipo de operação ilegal”, concluiu.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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