Publicado 12/04/2026 06:44

Décadas de desconfiança mútua acabam por minar as negociações de paz entre o Irã e os EUA em Islamabad

Vance lamenta a falta de garantias iranianas sobre seu programa nuclear, enquanto Teerã critica a falta de flexibilidade diplomática dos Estados Unidos

ISLAMABAD, 12 de abril de 2026  -- Esta foto, tirada em 12 de abril de 2026, mostra uma tela exibindo uma coletiva de imprensa televisionada da delegação dos EUA em Islamabad, no Paquistão. Não foi alcançado nenhum acordo entre os Estados Unidos e o Irã n
Europa Press/Contacto/Wang Shen

MADRID, 12 abr. (EUROPA PRESS) -

Os Estados Unidos e Israel encerraram sem acordo suas conversas de paz em Islamabad, capital do Paquistão, após uma maratona de negociações diretas sem precedentes desde a Revolução Islâmica, insuficiente para que dois dos maiores antagonistas internacionais por excelência conseguissem, de uma só vez, superar mais de 40 anos de rivalidade, e que volta a deixar no limbo as perspectivas de pôr fim ao conflito iniciado em 28 de fevereiro, agora sob um precário cessar-fogo de futuro incerto.

Quem deu o golpe final foi o chefe da delegação norte-americana, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, que se limitou a destacar, ao término do encontro no Hotel Serena, na capital paquistanesa, um único ponto de atrito entre os muitos que separam os dois países: a falta de garantias iranianas no que diz respeito à verificação da natureza pacífica de seu programa nuclear.

“A simples realidade é que precisamos ver um compromisso firme de que não buscarão uma arma nuclear e de que não buscarão as ferramentas que lhes permitam obter rapidamente uma arma nuclear”, afirmou Vance, insistindo que esse é o objetivo principal do governo americano. A única boa notícia, segundo Vance, foi o simples fato de se reunirem cara a cara e manterem “essas conversas substanciais” que se prolongaram por quase um dia inteiro.

“Acreditamos que fomos bastante flexíveis e razoáveis. O presidente nos pediu que viéssemos de boa-fé e fizéssemos o máximo esforço para chegar a um acordo, e foi isso que fizemos", indicou ele, antes de confirmar que a delegação norte-americana retorna ao seu país sem acordo e de alertar o Irã de que será a parte mais afetada: "Não chegamos a um acordo, e acredito que isso seja muito mais prejudicial para o Irã do que para os Estados Unidos da América", assinalou.

Vance deixa Islamabad com uma “oferta final”, a “melhor” que o Irã receberá de Washington, à espera da reação de seu chefe, o presidente Donald Trump, que passou a noite assistindo a uma noite de artes marciais mistas em Miami, acompanhado de seu secretário de Estado, Marco Rubio.

UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA

O chefe da delegação iraniana e presidente do Parlamento, Mohamed Baqer Qalifab, indicou que, para Teerã, tudo é uma questão de “confiança” e defendeu as “iniciativas progressistas” apresentadas por seus negociadores.

No final, porém, “a contraparte”, em referência aos Estados Unidos, “não conseguiu conquistar a confiança da delegação iraniana nesta rodada de negociações”, lamentou Qalifab antes de celebrar, por assim dizer, que “os Estados Unidos compreenderam nossa lógica e nossos princípios, e agora é o momento de decidirem se podem conquistar nossa confiança ou não”.

Outra avaliação oficial do Irã veio do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, que criticou a falta de flexibilidade diplomática de uma delegação americana que esperava, em sua opinião, resolver quarenta anos de divergências e 40 dias de combates de uma só vez.

“Essas negociações ocorreram após 40 dias de guerra imposta e em um clima de desconfiança. É natural que, desde o início, não esperássemos chegar a um acordo em uma única sessão”, explicou Baqaei.

Quanto aos detalhes concretos, fontes iranianas próximas às negociações confirmaram divergências em temas cruciais como o status do Estreito de Ormuz, atualmente sob controle iraniano, a situação dos quase 400 quilos de urânio altamente enriquecido em posse do Irã e a liberação de cerca de 25 bilhões de euros em ativos iranianos congelados pelas sanções.

Todas essas questões permaneceram sem solução após a reunião em Islamabad, especialmente a de Ormuz: a delegação iraniana informou, segundo fontes do “New York Times”, que só reabrirá completamente e sem restrições o estreito quando for assinado um acordo de paz definitivo.

A esse respeito, o ministro das Relações Exteriores e um dos principais negociadores iranianos em Islamabad, Abbas Araqchi, reconheceu no sábado que Teerã abordava essas negociações com total desconfiança, tendo em vista que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra com um “ataque traiçoeiro” em pleno andamento das conversas entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear.

Sem fechar as portas a futuras conversas, Baqaei insistiu que, se quiser resolver este conflito, os Estados Unidos devem demonstrar compreensão. “O sucesso deste processo diplomático depende da seriedade e da boa-fé da contraparte, da abstenção de exigências excessivas e demandas ilegais, e da aceitação dos direitos legítimos e interesses justos do Irã”, acrescentou.

Também não ajudou o confuso incidente ocorrido no Estreito de Ormuz em plena fase de negociações: uma operação preparatória para a remoção de minas, protagonizada por dois contratorpedeiros americanos, cujo aparecimento desencadeou um alerta generalizado no sistema de defesa iraniano. O Ministério das Relações Exteriores iraniano afirmou que a mobilização de resposta obrigou os dois navios a dar meia-volta, enquanto o Exército dos EUA garantiu que a missão exploratória, amparada no “direito internacional à livre navegação”, terminou sem incidentes.

Eventos como este desanimaram profundamente os negociadores iranianos, que têm lamentado constantemente que os Estados Unidos tenham chegado a Islamabad com ideias preconcebidas e com aspirações de obter um resultado já decidido a seu favor. Nesse sentido, vozes iranianas tão proeminentes quanto a do ex-ministro das Relações Exteriores Javad Zarif têm insistido na ideia de que os Estados Unidos adotaram a abordagem errada. “Vamos ver se aprendem que não se pode impor condições ao Irã. Ainda não é tarde”, afirmou ele nas redes sociais.

Outra opinião de destaque foi a do ex-embaixador da França nos EUA e negociador nuclear francês Gérard Araud, que lembrou nas redes sociais que a pior maneira de iniciar uma conversa diplomática com o Irã é adotando uma postura maximalista. “Negociar com os iranianos é como uma guerra de trincheiras diplomática. Linha por linha, palavra por palavra”, indicou Araud, participante das primeiras conversas que culminaram na histórica assinatura do acordo nuclear internacional com o Irã em 2015, e que Donald Trump acabaria por romper três anos depois, após anunciar sua retirada unilateral.

“O compromisso iraniano de não desenvolver armas nucleares”, lembrou Araud, “ficou explícito no acordo de 2015 que o governo Trump denunciou em 2018, e tal acordo foi respaldado pela resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU”.

“Do ponto de vista iraniano, as negociações não partem do zero, mas se baseiam em um acordo endossado pelo Conselho de Segurança da ONU. Qualquer nova negociação deve se fundamentar nesse precedente: as palavras têm significado e as propostas, história”, concluiu.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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