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MADRID 23 mar. (EUROPA PRESS) -
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, reconheceu nesta segunda-feira seu fracasso no referendo sobre a reforma judicial promovida por seu governo, depois que quase 54% dos cidadãos rejeitaram a medida em uma consulta que representa um importante revés político para a líder de extrema direita, que assumiu o cargo em 2022.
“A soberania pertence ao povo e os italianos hoje se expressaram com clareza. O governo fez o que havia prometido: levar adiante uma reforma da justiça que estava prevista em nosso programa eleitoral. Apoiamos essa reforma até o fim e, depois, deixamos a decisão nas mãos dos cidadãos”, afirmou a líder italiana em uma mensagem em vídeo divulgada nas redes sociais.
Meloni reiterou, assim, que “respeita a decisão tomada pelos cidadãos”. “Fica claro o pesar por uma oportunidade perdida de modernizar a Itália, mas isso não altera nosso compromisso de continuar, com seriedade e determinação, trabalhando pelo bem da nação e para honrar o mandato que nos foi confiado”, argumentou a primeira-ministra.
De acordo com os resultados preliminares divulgados pelo Ministério do Interior, 53,92% dos cidadãos italianos votaram contra a reforma judicial, contra 46,08% que apoiaram a iniciativa, com mais da metade dos votos apurados, sendo a taxa de participação de 58,51% nos dois dias de consulta popular.
As seções eleitorais fecharam nesta segunda-feira por volta das 15h (hora local), após dois dias de votação. A questão que os cidadãos italianos tiveram de responder diz respeito a uma reforma dos artigos 87, 102, 104, 105, 106, 107 e 110 da Constituição.
A reforma, extremamente complexa e com aspectos muito técnicos, propõe, em linhas gerais, separar as carreiras de juízes e promotores em dois órgãos distintos, com dois conselhos superiores da magistratura separados, que funcionem de forma autônoma, e um novo órgão disciplinar comum para os magistrados.
Um dos pontos mais controversos é que alguns membros do Conselho Superior da Magistratura — composto por 33 membros, dos quais 20 são eleitos pelos próprios magistrados e outros dez pelo Parlamento — sejam selecionados por sorteio, um mecanismo defendido pelo Governo para pôr fim ao chamado “faccionalismo”.
Os críticos da medida argumentam que o sorteio eliminaria a representatividade sem garantir a imparcialidade, gerando assim uma forte assimetria entre os cargos eleitos pelo Parlamento e aqueles eleitos pelos magistrados, que não terão legitimidade e serão mais suscetíveis a influências políticas.
A oposição afirma ainda que a separação de carreiras é um problema inexistente, uma vez que a mudança de um cargo para outro só é permitida uma vez e durante os primeiros dez anos de carreira, com a condição de se transferir para outro distrito judicial ou região a fim de garantir a imparcialidade.
Por outro lado, transformar os promotores em um órgão independente — regulado por seu próprio conselho superior — acarretaria, na opinião de seus detratores, o risco de afastá-los de uma cultura profissional compartilhada com os juízes e poderia torná-los, assim, figuras mais semelhantes a agentes de polícia, dando lugar a uma lógica de resultados, com preferência por obter mais prisões e condenações.
A medida também não consegue mitigar as ineficiências do sistema judicial, segundo afirma a oposição, uma vez que multiplica os custos e a burocracia, atribuindo as mesmas funções que um único órgão desempenha a três diferentes.
A oposição a Meloni também levanta dúvidas sobre a convocação do referendo, uma vez que, se o governo quisesse intervir para separar as carreiras judiciais, bastaria propor uma lei ordinária. A consulta, além disso, é um referendo confirmatório no qual não é necessário atingir nenhum quórum para que seja válido.
A legislação — proposta por Silvio Berlusconi durante seu mandato como primeiro-ministro no contexto do escândalo “Mãos Limpas” — já havia sido aprovada pelo Parlamento em outubro de 2025; no entanto, por se tratar de uma reforma constitucional, precisava ser aprovada por consulta popular, uma vez que não obteve dois terços dos votos na Câmara.
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