Rober Solsona - Europa Press - Arquivo
MADRID 13 abr. (EUROPA PRESS) -
O renomado jornalista nicaraguense Carlos Fernando Chamorro observou que, embora seu país pareça estar fora das políticas de pressão que os Estados Unidos vêm exercendo nos últimos meses sobre outros países da região, o que ocorreu na Venezuela gerou um certo “estado de paranóia” no presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, e sua esposa, Rosario Murillo, que veem como “podem ser levados embora e não há nenhum aliado internacional que vá protegê-los”.
“A remoção, ou como se queira chamar, a intervenção militar dos Estados Unidos que tirou Nicolás Maduro do poder em 3 de janeiro, provocou um estado de paranóia na ditadura da Nicarágua”, relatou nesta segunda-feira o jornalista nicaraguense durante a apresentação em Madri do relatório ‘20 anos do desmantelamento da liberdade de imprensa na Nicarágua’, elaborado pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Chamorro, filho da ex-presidente Violeta Barrios de Chamorro, destacou que a operação para deter Maduro foi um sinal para o casal Ortega-Murillo de que o “imprevisível” governo de Donald Trump pode detê-los, sem que nenhum aliado, incluindo a China ou a Rússia, faça nada para impedir isso.
Assim, ele relatou que, naquele dia da detenção de Maduro, Rosario Murillo, que exerce a função de copresidente da Nicarágua ao lado de Ortega após uma emenda à Constituição em fevereiro de 2025, convocou secretamente uma reunião de emergência para estabelecer “um estado de alerta, vigilância e perseguição” a fim de evitar as possíveis repercussões que isso pudesse causar na sociedade nicaraguense.
No entanto, ele também envia uma mensagem à oposição nicaraguense, que reconhece como muito dispersa e fragmentada, de que uma eventual operação dos Estados Unidos contra a Nicarágua “não significa necessariamente que isso vá desmantelar a ditadura, restabelecer a liberdade e abrir caminho para uma transição democrática”.
“A política do atual governo dos Estados Unidos, a questão da democracia ou da ditadura, não é necessariamente seu principal foco de interesse, que é o que ocorre na Nicarágua. A Nicarágua, em todos esses indicadores, aparece como o país onde a democracia foi mais desmantelada”, destacou.
Um desses indicadores é aquele com o qual a Repórteres Sem Fronteiras mede o estado da liberdade de imprensa em 180 países, aparecendo a Nicarágua na 172ª posição e ultrapassando assim Cuba como o pior país da América Latina para se reportar, situando-se abaixo da Rússia, Birmânia e ao mesmo nível da China, Irã, Coreia do Norte ou Vietnã.
Para Chamorro, “há um duplo espelho: o do regime e, por outro lado, o da oposição nicaraguense, que também está no exílio e tem presença na Nicarágua, mas muito silenciosa, pois não pode se expressar de forma alguma”.
“Se na Venezuela o governo Trump excluiu a oposição venezuelana que venceu as eleições de 2024 com Edmundo González e María Corina Machado, o que pode acontecer na Nicarágua, onde a oposição tem menos articulação, menos força e está mais dispersa?”, questionou o fundador do histórico jornal ‘Confidencial’.
A NICARÁGUA NÃO É UMA PRIORIDADE DE WASHINGTON
Nesse sentido, ele destacou que a Nicarágua não possui uma fonte de recursos naturais, como o petróleo venezuelano, e nem mesmo está passando por um colapso econômico, motivos pelos quais o atual governo dos Estados Unidos, que “não está necessariamente focado em apoiar processos de transição para a democracia”, não a inclui em sua agenda internacional, ao contrário do que ocorre com Cuba ou a Venezuela.
Seu país, disse ele, exporta para os Estados Unidos no âmbito do Tratado de Livre Comércio e sua economia se alimenta em grande parte das remessas dos migrantes, que representam 30% do PIB. “É óbvio que a prioridade é a Venezuela, que se tornou um regime autoritário tutelado pelos Estados Unidos”, afirmou.
Apesar de tudo, ele acredita que “algo pode acontecer e pode ser algo imprevisível”, tendo em vista a forma como o presidente Donald Trump tem agido. “A Nicarágua não está na lista de prioridades, mas também não está completamente fora dessa agenda e dessa dinâmica”, avaliou.
Chamorro explicou que há também outro aspecto importante que explicaria essa sobrevivência do atual sistema nicaraguense, que é o “vácuo político latino-americano e europeu” que se gerou em seu entorno e que, no caso da Venezuela, por exemplo, “foi preenchido pela ação de força de Donald Trump”.
“É razoável argumentar que essa ditadura não é sustentável, que esse regime personalista e familiar não é sustentável, por mais que a economia ainda funcione hoje com certa estabilidade, e que as purgas internas, que também não provocaram uma fratura no regime, podem cobrar seu preço a qualquer momento e podemos ter algumas situações de crise”, expôs.
ATAQUES À LIBERDADE DE IMPRENSA
Maryórit Guevara, coautora do relatório e obrigada a deixar a Nicarágua devido ao seu trabalho como jornalista, relatou durante a apresentação que esses ataques contra a liberdade de imprensa têm um duplo impacto sobre as mulheres jornalistas, que frequentemente são vítimas de violência de caráter sexual, seja física ou simbólica através das redes sociais, como ela própria sofreu.
“As agressões não são apenas políticas, mas também sexuais, simbólicas e digitais. Há campanhas de difamação com viés de gênero, ataques à reputação ligados à nossa vida pessoal, ameaças específicas que buscam nos disciplinar por meio do medo”, relatou.
“O desmantelamento da liberdade de imprensa na Nicarágua não é um relato de fatos, é, na verdade, a história de como a ditadura de Daniel Ortega e de Rosario Murillo tentou, de forma sistemática, planejada e sustentada ao longo de duas décadas, privar a Nicarágua de sua voz”, denunciou a diretora de La Lupa.
Nessas duas décadas, a Nicarágua passou de um “ecossistema midiático diversificado” para se tornar um território onde informar pode custar a liberdade, o exílio ou a vida, lamentou Guevara. “Mais de 309 jornalistas fomos forçados ao exílio e 65% do território nacional se transformou em um deserto informativo sem acesso a informações independentes”, disse ela.
A jornalista nicaraguense situa o ponto de inflexão dessa situação em abril de 2018, durante a repressão às manifestações contra o governo, “que deixou mais de 355 pessoas mortas”, entre elas o jornalista Andy Gaona enquanto cobria os protestos. “Sua morte não foi apenas um crime, foi uma mensagem, uma tentativa de impor o silêncio por meio do terror”, afirmou.
Guevara explicou que o exílio ao qual 309 jornalistas foram forçados — há pelo menos uma vintena de redações operando do exterior — fez com que muitos tenham deixado de exercer a profissão ou tenham sido obrigados a conciliá-la com outros trabalhos não relacionados à comunicação para poder sobreviver em seus novos países de acolhimento.
“Muitos de nós sustentamos esse trabalho na informalidade, sob risco constante, em meio à incerteza”, disse Guevara, que, no entanto, destacou que o jornalismo no exílio é “um dos poucos contrapondos à propaganda oficialista”.
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