Jin Haoyuan / Xinhua News / Europa Press
O Tribunal Eleitoral reconhece “dificuldades” decorrentes da prorrogação do horário de votação e destaca que nunca havia ocorrido uma extensão desse tipo
A participação nas eleições presidenciais de 2026 é a maior dos últimos 20 anos
MADRID, 26 out. (EUROPA PRESS) -
O candidato de extrema direita à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, anunciou que não reconhecerá os resultados do segundo turno das eleições realizadas neste domingo, nas quais o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu a reeleição, e adiantou que seu partido solicitará a anulação das eleições após a polêmica prorrogação do horário de votação.
Em uma declaração pública após a confirmação da vitória de Lula com 51,79% dos votos contra os 48,21% dele, o representante do Partido Liberal (PL) classificou como “inaceitável” o que ocorreu durante o dia de votação. Suas críticas se concentram na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Cristiano Zanin, de estender o horário de votação em todo o país por duas horas devido aos problemas registrados no transporte público.
Bolsonaro acusou Zanin — a quem se referiu como “ex-advogado de Lula” —— de mudar “as regras do jogo no meio da partida” e de “atropelar a justiça eleitoral especializada” ao tomar a decisão às 17h01 (hora local), momento em que as seções eleitorais deveriam fechar. “Isso nunca havia ocorrido na história do Brasil; houve uma quebra total da igualdade entre os brasileiros de diversas cidades e estados”, denunciou o candidato.
Nesse sentido, o líder conservador afirmou que os observadores de seu partido foram “retirados da sala-cofre” (o centro de processamento de dados) a partir do momento em que a decisão judicial foi tomada. “É impossível reconhecer os dados das eleições no contexto de como essas coisas aconteceram. Vamos entrar com ações judiciais e solicitar a anulação dessas eleições”, afirmou Bolsonaro, exortando seus apoiadores a “não desistirem”.
A prorrogação do horário de votação foi determinada pela Suprema Corte diante das denúncias sobre a falta de transporte para os eleitores, a pedido principalmente da campanha de Lula da Silva, embora a própria candidatura de Bolsonaro também tivesse solicitado anteriormente uma prorrogação, ainda que limitada a cinco estados (São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul). A medida adotada por Zanin obrigou à suspensão da apuração inicial e foi tomada apesar da oposição expressa do Ministério Público Eleitoral.
A JUSTIÇA ELEITORAL RECONHECE IMPACTOS TÉCNICOS, MAS GARANTE A RECONTAGEM
A controvérsia foi abordada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, que assegurou que, embora a Constituição atribua ao tribunal a competência exclusiva para conduzir o processo, a medida cautelar proferida pela Suprema Corte após o horário oficial de encerramento “gerou dificuldades no processo eleitoral”. Nunes Marques destacou que “nunca na história do TSE houve qualquer prorrogação desse tipo” e alertou que alterar os horários de uma eleição é algo que “precisa ser pensado, calculado e estruturado” devido aos efeitos colaterais no âmbito tecnológico.
Conforme explicou o magistrado em uma declaração pública, a decisão judicial foi proferida às 17h (hora local), quando “milhares de urnas (eletrônicas) no Brasil já estavam fechadas e sua programação impede a reabertura”. Para evitar irregularidades e vazamentos, o TSE se viu obrigado a executar um “bloqueio” urgente no sistema de recebimento de boletins, para que nenhum funcionário da Justiça Eleitoral tivesse acesso antecipado ao conteúdo dos votos. Essa situação provocou uma “retenção extraordinária” de dados em nível nacional, o que gerou incerteza técnica quanto à capacidade de armazenamento dos servidores.
Apesar de o cenário ter sido completamente “incomum”, o presidente do TSE afirmou que, graças aos esforços administrativos e técnicos da instituição, conseguiram resolver os problemas e liberar o fluxo de dados a partir das 19h (hora local) em um ritmo seguro. “Não houve nenhuma alteração decorrente da decisão judicial (...) Portanto, temos absoluta segurança em relação a todo o processo eleitoral”, afirmou.
Para reforçar a confiabilidade da eleição diante das reclamações dos apoiadores de Bolsonaro, Nunes Marques apresentou dados operacionais. Das 499.248 urnas eletrônicas habilitadas para este segundo turno, apenas 1.551 precisaram ser substituídas, o que representa apenas 0,31% do total. Além disso, ele destacou o trabalho das missões de observadores nacionais e internacionais, que tiveram pleno acesso aos mecanismos de auditoria e certificaram formalmente a “ausência de interferência externa no processo eleitoral”.
MAIOR PARTICIPAÇÃO DESDE 2006
De acordo com os dados da autoridade eleitoral brasileira, a participação neste segundo turno atingiu 80,78%. Dos mais de 158 milhões de cidadãos convocados às urnas (em um país onde o voto é obrigatório), compareceram 128 milhões, situando a abstenção em 19,22% (pouco mais de 30 milhões de eleitores).
Esses números fazem das eleições de 2026 as eleições presidenciais com maior mobilização desde 2006, ano em que a participação foi de 83,25% no primeiro turno e de 81,01% no segundo.
Justamente nessas eleições de 2006, Luiz Inácio Lula da Silva renovou o mandato que havia conquistado em 2002 ao derrotar nas urnas Geraldo Alckmin, seu atual vice-presidente.
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