Marta Fernández - Europa Press
Relatora da ONU denuncia que se está tentando desviar a atenção da Faixa de Gaza enquanto Israel continua com seus ataques
MADRID, 6 maio (EUROPA PRESS) -
A relatora especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, destacou nesta quarta-feira que a Espanha “está praticamente sozinha diante da abominação” do genocídio na Faixa de Gaza e dos ataques por parte de Israel no Líbano e no Irã, e criticou a União Europeia por colocar “as corporações à frente das pessoas”.
“É isso que é a Europa três anos após o genocídio em Gaza”, afirmou a relatora da ONU sobre os Direitos Humanos dos palestinos em declarações à imprensa na sala onde está exposto o ‘Guernica’ de Pablo Picasso, no Museu Reina Sofía, em Madri.
Albanese agradeceu ao governo e à sociedade espanhola por “enfrentar a injustiça e fazer crer que existe a possibilidade de se manter firme” e, embora tenha reconhecido que “pode-se fazer muito mais”, a posição da Espanha contrasta amplamente com a de uma União Europeia (UE) que está demonstrando “o que realmente é”.
“É uma instituição que coloca os mercados, os interesses privados e os das corporações acima das pessoas, de seus direitos e da vida civil”, disse Albanese, que confia que a Espanha represente “o início de uma mudança a partir de dentro da Europa rumo a um multilateralismo descolonizado”.
“Por isso, não podemos ver o que o governo espanhol está fazendo como um simples ato de solidariedade para com os palestinos; é um ato de preservação do que resta de nossas democracias”, avaliou a relatora das Nações Unidas.
Albanese alertou que a campanha de ataques de Israel continua no enclave palestino, apesar da trégua anunciada em outubro de 2025. “Não há um cessar-fogo. Foi dada a ordem para desviar o olhar de Gaza. Foi dada a ordem para esquecer”, denunciou ela, criticando a comunidade internacional por sua “covardia”, que “só é superada pela criminalidade” que sufoca a região.
“A maior parte do mundo desviou o olhar para outro lugar, mas em Gaza as pessoas continuam morrendo”, enfatizou a relatora da ONU, que adverte que, se continuarmos permitindo “que o genocídio continue (...), mais cedo ou mais tarde essa realidade nos atingirá”.
ATITUDES “DA MÁFIA” PARA SILENCIAR OS QUE PROTESTAM
Albanese alertou que “ninguém está a salvo” de sair prejudicado se questionar os interesses de Israel e das corporações que estão se beneficiando do genocídio, e citou como exemplo as sanções que ela própria enfrenta por “pedir justiça para aqueles que sofreram o genocídio”.
“É pior do que ser criminoso, porque até mesmo aos criminosos é permitido se defender. Até mesmo aos criminosos é garantido o devido processo legal, e a nós não”, avaliou Albanese, que questionou por que as sanções dos Estados Unidos devem ter jurisdição na Europa.
“Hoje isso acontece comigo, mas amanhã pode acontecer com membros do seu governo ou com seus juízes. Portanto, trata-se de uma técnica de intimidação ao estilo da máfia para silenciar as pessoas, para obrigá-las a acatar as regras”, criticou.
A relatora da ONU lembrou que “Israel não teria podido cometer todos os crimes que cometeu contra os palestinos se não fosse pela impunidade de que tem desfrutado”, sendo o sequestro da Flotilha Global Sumud em águas internacionais do Mediterrâneo o exemplo mais recente de um caso que remonta a 1967, com o início da ocupação dos territórios palestinos.
“O que é novo é a escala, a magnitude das atrocidades, a arrogância, a ostentação e o fato de que continuam gozando de impunidade. É escandaloso (...) Na Europa, Israel avançou até mil quilômetros mar adentro a partir de sua costa para sequestrar pessoas que não se dirigiam a Israel”, destacou.
“As prisões israelenses são centros de tortura e agora um cidadão europeu e um brasileiro encontram-se dentro dessas prisões. Eles devem ser libertados imediatamente. Por isso, toda a pressão necessária deve vir da Europa. Ou se respeitam as normas básicas do Estado de Direito, ou é barbárie”, afirmou.
Albanese lembrou que as obrigações internacionais em relação ao genocídio são as mesmas que diante da ocupação e passam, por exemplo, pelo rompimento de toda relação comercial e de assistência de qualquer outro tipo, sem esquecer, também, a necessidade de exigir responsabilidade das empresas que lucram com o genocídio.
“Os interesses corporativos são mais importantes do que a democracia. Sei que é difícil de aceitar, mas é isso que venho observando há pelo menos um ano. Desde que comecei a investigar a cumplicidade das universidades, dos fundos de pensão, dos bancos e, é claro, da indústria de armamentos, e até mesmo do Airbnb e do Booking”, concluiu.
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