Publicado 19/09/2026 05:15

Adolfo Suárez Illana: “A Lei da Memória Democrática vai na direção oposta ao que significa a concórdia”

Adolfo Suárez Illana, entrevistado pela Europa Press em 18 de setembro de 2026
EUROPA PRESS/ALEJANDRO MARTÍNEZ

Ele lamenta que os políticos reavivem o “conflito” para tirar proveito, quando a Transição rompeu com a “lógica dos vencedores e dos vencidos”

Afirma que continua atuando no PP, embora não pretenda retornar à vida institucional: “Vou tentar ajudar o máximo que puder”

MADRID, 19 set. (EUROPA PRESS) -

O advogado e ex-deputado do PP Adolfo Suárez Illana, filho do ex-presidente do Governo e líder da UCD, considera que a atual Lei da Memória Democrática “vai na direção oposta ao que significa a concórdia”. Ele também critica os líderes políticos que, em sua opinião, estão promovendo o “confronto” e “a agitação desse fantasma do passado”, que “todos nós fomos capazes de superar na época”, para “obter ganhos políticos”.

Em entrevista à Europa Press por ocasião do lançamento de seu livro ‘A concórdia é possível’ (Espasa), Suárez Illana defende o espírito da Transição como um processo baseado na ruptura com “a lógica dos vencedores e dos vencidos” e no acordo de “um marco comum no qual todos nos sintamos razoavelmente à vontade”, sem que “ninguém fique de fora”. “Somente no momento em que todos decidimos não pensar em vencer é que todos saímos ganhando”, resume ele.

Para Suárez Illana, a concórdia agora, no atual clima político, também deveria ser possível, embora ele ressalte que é algo que cabe a cada geração escolher. “Não é algo que se instale e permaneça para sempre. É algo que se alcança, que se aperfeiçoa e pelo qual se deve lutar todos os dias”, afirma.

Ele garante, no entanto, que não pretende “dar lições a ninguém”, mas sim oferecer o testemunho de alguém que “viveu por dentro um processo muito complicado” e explicar “como aquilo foi feito e que, de fato, funcionou”. Nesse sentido, ele destaca que os bons momentos dos últimos 50 anos coincidem com aqueles em que houve “respeito pelo adversário”.

Ele esclarece que “a concórdia não é, de forma alguma, um acordo”, mas sim a decisão de “compartilhar a casa comum”, em vez de tentar impor uma opinião ou deslegitimar o adversário. “A concórdia não é algo ingênuo. A concórdia é um modo de vida, é uma forma de fazer política”, defende.

O escritor indica que a concórdia “sempre é possível”, mas depende da “vontade dos espanhóis”. “É uma obra coletiva, social, que não pode ser imposta. Não é que venha alguém de um partido, um líder maravilhoso, e nos imponha a concórdia e pronto, o assunto está resolvido. Não, ela tem que nascer da sociedade”, ressalta.

MEMÓRIA E REPARAÇÃO

Suárez Illana, que já promoveu uma Lei da Concórdia na Convenção do PP em 2019, rejeita a Lei da Memória Democrática aprovada pelo governo de Pedro Sánchez, derivada da lei de memória histórica promovida por José Luis Rodríguez Zapatero na Moncloa, pois ela se situa “exatamente na direção oposta ao que significa a concórdia”, algo que ele considera que deve ser a “questão central”.

Em primeiro lugar, ele nega que as últimas leis de memória possam ser apresentadas como “a primeira grande tentativa de reparar as vítimas”, pois, conforme ele lembra, a Transição, desde o início, fez “um grande esforço”, inclusive orçamentário, “para indenizar as vítimas da guerra, da ditadura e da repressão”.

Ele cita, por exemplo, o relatório da Comissão Interministerial de 2006, que serviu de base para a primeira Lei de Memória Histórica, e onde se aponta que foram cerca de 574.000 os processos de aposentadoria ou indenizações relacionados à Guerra Civil e à ditadura que foram aprovados de 1977 a 2005. “Até 26% dos gastos com aposentadorias nos primeiros governos socialistas foram destinados à reparação das pessoas que haviam sido vítimas durante esse período (...) Acho que não é sério, depois de apresentar esses números, dizer-nos que nada foi feito ou que esta é a primeira tentativa”, ressalta.

Assim, Suárez Illana também considera especialmente negativo estabelecer “uma espécie de linha reta entre a revolta de 1936, a Guerra Civil, a ditadura, a Transição e que a Constituição seja, digamos, o capítulo final dessa guerra”. “Isso é uma deslegitimação geral, exatamente o oposto do que a Transição e a Constituição da concórdia pretendem”, afirma. “A concórdia não exige esquecer, mas também não é vingança”, acrescenta.

“FOMOS TODOS”

Questionado sobre quem são os responsáveis por a memória ter se tornado uma arma política, Suárez Illana ressalta que “fomos todos”, embora “sempre haja alguém mais culpado do que outro”, observando que o governo sempre “é mais responsável do que quem está por trás”.

“Sempre há um responsável maior, mas está bem claro quem está promovendo a agitação desse fantasma do passado que fomos capazes de superar na época, para tentar obter ganho político. Isso é o que não deveria ser razoável”, critica.

Dito isso, ele repreende os políticos que querem interpretar a história. “A história não é dos políticos, é dos historiadores”, afirma. Além disso, ele critica que a Lei da Memória Democrática estabeleça “que certas coisas não podem ser ditas” e fala até mesmo de “uma responsabilidade administrativa”.

NÃO QUER VOLTAR À VIDA INSTITUCIONAL

Incorporado inicialmente por Aznar à diretoria do PP e, após ser derrotado pelo socialista José Bono nas eleições de Castela-La Mancha de 2003, Suárez Illana afastou-se temporariamente até retornar à política ativa com Pablo Casado, que o incluiu nas listas eleitorais para o Congresso como segundo colocado por Madri e chegou a ser membro da Mesa entre os anos de 2019 e 2022, ano em que se afastou novamente da política.

Ele conta que deixou seu mandato após conversar com o atual presidente do PP, Alberto Núñez Feijóo, por considerar que seu tempo na linha de frente havia chegado ao fim, embora afirme que continua comprometido com o partido. “Sou militante do PP, ativo, pago minha contribuição e tentarei ajudar o máximo que puder para levar o partido adiante”, ressalta.

Suárez Illana garante, no entanto, que não pensa “de forma alguma em voltar à vida institucional”. “Mas não pretendo abandonar nunca a vida pública nem a influência política que possa ter, seja ela maior ou menor”, admite o ex-deputado, que acredita, além disso, que “a política é importante o suficiente para não ser apenas atividade dos políticos, mas também de toda a sociedade”. “A democracia não consiste em votar a cada quatro anos e depois se dedicar a criticar. Exige que cada um se informe e exerça sua influência na medida de suas possibilidades”, esclarece

“A ANISTIA NÃO ESTÁ INCLUÍDA COMO EXCEÇÃO NA CONSTITUIÇÃO”

Questionado sobre a lei de anistia aprovada pelo governo de Pedro Sánchez para beneficiar os indiciados pelo ‘procés’ da Catalunha em 2017, o autor se mostra categórico e afirma que, diante do caráter excepcional do indulto, “a anistia não está incluída como exceção na Constituição e, se não é uma exceção, não se pode pretender incluí-la pela porta dos fundos”. Ele sustenta ainda que, durante a elaboração do texto constitucional, “foram apresentadas emendas para incluir a anistia como uma das exceções e votou-se contra”. “A vontade do legislador constituinte ficou muito clara, assim como a letra da Constituição”, acrescenta.

Segundo Suárez Illana, essa questão ficou “tão clara” que até mesmo um governo do PSOE afirmou o mesmo quando os indultos foram aprovados. “Curiosamente, depois eles mudaram de opinião. Mas isso já é outra história”, conclui.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

Contador

Contenido patrocinado