Publicado 27/06/2026 04:12

50 anos da posse de Adolfo Suárez como presidente do Governo: uma história de “surpresas” e “ambição”

A nomeação ocorreu dois dias após a renúncia de Arias Navarro, promovida por Juan Carlos I

Adolfo Suárez prestando juramento ao assumir o cargo de Presidente do Governo perante o Rei Juan Carlos, o presidente do Conselho do Reino, Torcuato Fernández Miranda, e os conselheiros do Reino, no Palácio da Zarzuela. Europa Press / Europa Press 05/7/19
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MADRID, 27 jun. (EUROPA PRESS) -

Nesta quarta-feira, 1º de julho, completam-se 50 anos da renúncia de Carlos Arias Navarro ao cargo de presidente do Governo, o chefe do Executivo que Juan Carlos I “herdou” de Franco. Esse acontecimento abriu as portas de La Moncloa para Adolfo Suárez, que, um ano depois, como líder da UCD, venceu as primeiras eleições democráticas na Espanha após 40 anos de ditadura.

No dia seguinte, 2 de julho, Torcuato Fernández-Miranda, então presidente das Cortes e do Conselho do Reino, apresentou a Juan Carlos I uma lista secreta com três nomes, composta por Federico Silva Muñoz, ministro de Obras Públicas entre 1964 e 1970; Gregorio López Bravo, ministro da Indústria entre 1962 e 1969 e das Relações Exteriores entre 1969 e 1973; e Adolfo Suárez, ministro secretário-geral do Movimento no próprio gabinete de Arias Navarro e que, na época, tinha 43 anos.

Em meio à confusão na mídia sobre a composição dessa lista confidencial enviada ao Rei, foi a Europa Press quem esclareceu as dúvidas, no mesmo dia da indicação de Suárez. A agência desmentiu os rumores de que José María de Areilza, ministro das Relações Exteriores, figurava entre os candidatos propostos ao monarca.

Areilza havia sido ministro das Relações Exteriores no governo de Arias Navarro e acompanhou o rei Juan Carlos I em sua primeira viagem oficial aos Estados Unidos como chefe de Estado, durante a qual pronunciou pela primeira vez a palavra “democracia”.

“A Europa Press está em condições de afirmar que não há fundamento para a notícia divulgada em alguns setores de que, na referida lista de três candidatos, constava o nome de José María de Areilza. Essa notícia foi, aparentemente, uma das causas da confusão criada esta tarde em Madri em torno de quem seria o novo presidente do Governo”, afirmava o teletipo desta agência em 3 de julho de 1976.

Em 26 de abril, o monarca já havia demonstrado seu descontentamento com o imobilismo de Arias Navarro em uma entrevista à revista norte-americana ‘Newsweek’, na qual o definiu como “um desastre sem paliativos” à frente do Executivo.

Nesse contexto de surpresa, a historiadora e ganhadora do Prêmio Nacional de História em 2023, Encarnación Lemus, reconhece que “a decisão de se livrar de Arias parecia já estar tomada” e que o então vice-presidente e ministro do Interior, Manuel Fraga, e o já mencionado José María de Areilza, eram os nomes que “mais circulavam” para a sucessão.

Mas Fraga havia ficado “muito abalado” pela repressão exercida pela então Polícia Armada durante os primeiros meses de 1976, e Areilza pelas “desavenças” com o monarca, que ficaram evidentes durante a primeira viagem oficial de Juan Carlos I aos Estados Unidos.

UM CANDIDATO “COM AMBIÇÃO” E “DESCONHECIDO”

Alguns historiadores, como Francisco J. Leira, reconhecem que a decisão de Juan Carlos I de nomear Adolfo Suárez foi uma “surpresa”, mas afirmam que ele “não era tão desconhecido” para a sociedade espanhola. Ele havia sido diretor-geral da Radiodifusão e Televisão (a atual RTVE) e, de dezembro de 1975 até sua nomeação como presidente, foi ministro-secretário-geral do Movimento na Executiva de Arias Navarro.

Além disso, Suárez havia proferido um famoso discurso nas Cortes franquistas em 9 de junho a favor da Lei das Associações Políticas, no qual argumentou que o governo deveria “elevar à categoria política do normal aquilo que, nas ruas, é simplesmente normal”.

Tanto esse argumento quanto o que ele formulou em 10 de setembro de 1976 em defesa do projeto de Lei para a Reforma Política — que significou a dissolução das Cortes franquistas “de lei para lei” —— lhe renderam uma “má recepção por parte de todos os setores, tanto do ‘bunker’ quanto dos abertistas”, afirma o historiador.

“Era uma pessoa ambiciosa e com grande habilidade no manejo da mídia”, segundo destacam os depoimentos de protagonistas da Transição entrevistados para a pesquisa de Leira, que culminou no livro ‘Retrato da Transição: a memória que escondemos no sótão’.

Por sua vez, o historiador da Universidade Complutense Juan Carlos Pereira Castañares afirma que um dos fatores-chave para a escolha de Suárez em detrimento de outros candidatos é que “ele pertencia a uma nova geração de políticos que não havia vivido a Guerra Civil”.

Nessa mesma linha de pensamento, concorda o doutor em História pela Universidade Autônoma de Barcelona e professor de História Contemporânea da Espanha na Universidade Carlos III, Guillermo García Crespo, que esclarece que Suárez “não estava ligado a nenhuma das grandes famílias do franquismo” e que o rei o via como “um jovem, mas politicamente flexível”. No mesmo sentido, Leira o define como um “desclassificado”.

INFLUÊNCIA DOS EUA NA ELEIÇÃO DE SUÁREZ?

Em plena Guerra Fria e com a Transição espanhola sob o olhar atento dos Estados Unidos, Washington acompanhava de perto a evolução política do país com o objetivo de “garantir a estabilidade” do processo. Nesse contexto, diversos historiadores analisaram até que ponto a opinião do governo norte-americano pode ter influenciado a escolha do sucessor de Arias Navarro.

“O rei estava ciente de que Suárez havia causado uma boa impressão no então embaixador dos Estados Unidos na Espanha, Wells Stabler, quando se conheceram”, afirma García Crespo, apontando que isso poderia ter influenciado a decisão do monarca.

No entanto, outros historiadores, como Pereira Castañares, negam que essa influência tenha vindo dos EUA e apontam para a figura decisiva de Fernández-Miranda, principal mentor político do rei e “orientador” na escolha entre os três candidatos à presidência.

Nesse contexto, durante a mencionada viagem de Juan Carlos I aos EUA, o monarca manteve uma reunião a sós, no dia 4 de junho, com o secretário de Estado, Henry Kissinger, na qual já lhe comunicou sua intenção de destituir Arias Navarro, embora não haja registro historiográfico de que, nessa conversa, o nome de Suárez tenha sido mencionado como sucessor.

“VONTADE EXPRESSA DE ALCANÇAR UMA DEMOCRACIA MODERNA”

Sentado em um sofá, livre do ambiente franquista e apenas alguns meses após a morte do ditador, Suárez começou a demonstrar seu talento comunicativo em seu primeiro discurso como presidente do Governo, em 6 de julho, um dia após tomar posse do cargo na Zarzuela, na presença do rei, ajoelhado diante de uma Bíblia e de um enorme crucifixo. “Ele sabia utilizar os meios de comunicação, não apenas no ‘o quê’, mas também no ‘como’”, afirma Leira.

Em sua primeira mensagem aos espanhóis, Suárez estabeleceu como “primeiro dever o realismo”, o que o levou a três considerações que explicavam seu projeto político.

A primeira, a intenção de ser o “gestor legítimo para estabelecer um jogo político aberto a todos”. A segunda, sob a fórmula já empregada de “elevar à categoria política normal o que, no nível das ruas, é simplesmente normal”. E a terceira: que o “desejo de mudança” deveria ocorrer entendendo a Espanha como “uma tarefa comum”, valorizando “o diálogo aberto” como “único instrumento de convivência”.

Suárez também aceitou o desafio de Juan Carlos I e assegurou que “a coroa tem a vontade expressa de alcançar uma democracia moderna” e especificou a “meta final” de seu Executivo: “Que os governos do futuro sejam resultado da livre vontade da maioria dos espanhóis”.

Ele também destacou sua pertença a uma geração de espanhóis “que só havia vivido a paz” e retomou um princípio fundamental da filosofia política sobre o contrato social e a legitimidade do exercício do poder: “Governar com o consentimento dos governados”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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