"Queria mostrar quem eu sou, não apenas o zagueiro que disputa duelos", afirma sobre seu livro 'Por medo de decepcionar'
MADRID, 7 maio (EUROPA PRESS) -
O jogador do Atlético de Madrid Robin Le Normand publicou recentemente seu livro 'Por medo de decepcionar' com o "motivo principal" de mostrar seu "lado mais íntimo" e mostrar ao público que não é apenas “o zagueiro que disputa duelos”, admitindo que teve que aprender a conviver com uma “segunda voz” que, às vezes, age como “um sabotador interno” e à qual não pode permitir que “devore a ilusão” do que ele desfruta ao jogar futebol.
“Ainda tenho dificuldade em escrever dedicatórias, estou acostumado apenas a assinar”, reconhece Le Normand enquanto assina um exemplar de seu livro publicado pela “Planeta” antes de atender à Europa Press para falar sobre um relato a meio caminho entre a autobiografia e o testemunho pessoal.
Neste livro, o zagueiro hispano-francês abandona por um momento o gramado para explorar no papel a origem de seu “maior conflito”: a extrema autoexigência. “Não queria decepcionar meus pais, as pessoas. Eu tinha essa visão de mundo devido ao meu passado, ao que havia vivido, às experiências da vida, mas é verdade que não queria decepcionar ninguém. Esse foi, de certa forma, o principal motivo pelo qual quis escrever este livro, para me entender melhor”, explicou.
Com este relato, o jogador busca explorar o lado mais humano do atleta. “Um dos objetivos é humanizar um pouco mais a nossa profissão e as pessoas famosas, que muitas vezes vemos o lado bonito, mas esquecemos um pouco o ser humano que está por trás, as dúvidas, os medos, as responsabilidades de cada um, suas preocupações”, destacou.
“No meu caso, mostrar sobretudo a parte mais profunda de Robin Le Normand, mostrar quem eu realmente sou, não apenas o zagueiro e o cara que disputa duelos, porque também há um ser humano e, como todos, com seus golpes emocionais da vida”, afirmou.
Para o jogador da seleção espanhola, a escrita tem sido uma ferramenta terapêutica que começou “há três ou quatro anos”. “É algo muito profundo. Escrever permite organizar as ideias sobre como você vê o mundo, seu passado e os golpes, encontrando soluções nesse instrumento que é o papel”, detalhou o jogador do Atlético de Madrid.
Nesse processo, Le Normand revela a convivência com uma “segunda voz” que descreve como um “sabotador interno”. “Hoje em dia convivo melhor com ele. Comecei a ter mais paz, a distinguir quando essa voz nos ajuda e quando não, quando há perigo real e quando são apenas dúvidas ou medos em situações intensas do nosso trabalho”, afirmou, ressaltando que até mesmo sua psicóloga está “muito entusiasmada” com o projeto, pelo qual seus companheiros no vestiário do Rojiblanco já estão pedindo.
SEU PAPEL NA FAMÍLIA
O livro não apenas repassa sua carreira, mas serviu para reconstruir sua própria história pessoal. “Há histórias que eu achava que tinham acontecido de uma forma e, na verdade, foram de outra. Minha memória havia manipulado minha história para que fosse mais fácil de viver”, admitiu o jogador, que indica que esse caminho o levou a buscar respostas em seu entorno. “Voltei a conversar com meus pais para esclarecer ‘detalhes’ dessas histórias e foi incrível”, observou.
Ao relembrar sua infância, Le Normand se define como uma criança “muito feliz”, mas com uma carga de responsabilidade precoce como irmão mais velho. “Lembro-me de estar sempre sorrindo. Era o primogênito, então, com essa responsabilidade e esse medo de não decepcionar os pais, de guiar os irmãos mais novos”, refletiu, embora ressalte que há “uma certa tristeza”.
E é que o falecimento precoce de sua irmã Lou marcou a infância do agora jogador do Atlético de Madrid. “Tenho muitas lembranças de imagens que, felizmente, meu pai conseguiu gravar. Foi difícil, mas tive um ambiente incrível com meus pais, avós e irmãos. Nossos pais nos sentavam à mesa e tínhamos que conversar para poder dizer o que havia em nossos corações. Isso nos permitiu ficar mais unidos e não esquecer, mas será uma grande cicatriz”, confessou.
Mas escrever “Por medo de decepcionar” o aproximou de Lou. “Desde o início, ela sempre esteve comigo”, expôs, antes de elogiar a figura de seus pais, que são “motores incríveis” e exemplos de superação. “Meus pais nos mostraram como seguir em frente porque não havia outra maneira. É o que eu pude ver da perspectiva de um filho: vi pais seguindo em frente, lutando contra a vida e dando o melhor para os três filhos que restaram", comentou.
Além disso, ele agradece a reação dos pais ao lerem o relato, o que representou o fechamento de um ciclo terapêutico. "Eles perceberam coisas das quais nunca tínhamos falado. Eles puderam participar da minha terapia e se tornar figuras importantes do livro. Isso nos ajudou muito a nos curar”, contou.
“É PRECISO SEGUIR EM FRENTE QUANDO SURGEM MOMENTOS DIFÍCEIS”
“Não há tempo para lamentações. Quando surgem esses momentos difíceis, que as pessoas às vezes chamam de fracassos, é verdade que há um momento em que você se senta, sofre com isso, mas é preciso seguir em frente. E, nesse sentido, meus pais foram exemplos de superação, diziam ‘e agora, o que fazemos? O passado já passou, agora é hora de sair da cama’”, lembrou.
Por isso, o jogador internacional defende que a superação é “continuar buscando e avançando naquilo que você gosta”. “Para mim, superar-se é seguir com a vida, continuar trabalhando, tentando se esforçar para melhorar o que deu errado, melhorar a sua cabeça, o que há dentro de você para ser uma pessoa melhor”, afirmou.
Um Robin Le Normand que hoje se vê como uma pessoa “feliz e tranquila”, com um forte apego diário ao seu círculo familiar mais próximo. “Sou muito familiar. Preciso ligar para minha mãe, meu irmão, minha irmã. Preciso desse contato diário, mesmo que seja por videochamada, com as pessoas que amo”, contou.
Para o zagueiro, a vida consiste em encontrar o equilíbrio e praticar um certo “egoísmo” saudável. “Minha vida é me sentir bem, cuidar primeiro de como estão o corpo e a mente para ir atrás dos objetivos que te animam”, reflete. O futebol continua sendo sua grande paixão, mas agora com uma nova perspectiva: “Não posso deixar que esse sabotador interno devore a ilusão que tenho quando desfruto do futebol”.
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