Publicado 27/02/2025 09:51

Santiago Tarín resgata casos judiciais em um livro: "Quando o mal se torna humano, você pode vê-lo nos olhos".

Archivo - Arquivo - O autor de 'Crimes of the Lost Steps', Santiago Tarín
ALREVÉS - Arquivo

O autor compila suas anotações de julgamento em "The Crimes of the Lost Steps".

BARCELONA, 27 fev. (EUROPA PRESS) -

O escritor e jornalista Santiago Tarín publica 'Los crímenes de los pasos perdidos' (Alrevés), um livro no qual ele traz de volta à vida um punhado das milhares de histórias que foram armazenadas no sótão invisível dos passos perdidos, o nome popular dado ao salão central do Palácio da Justiça em Barcelona: "Quando o mal se torna humano, você pode vê-lo no olhar".

Todos os tipos de criminosos passaram por esse saguão, que o autor visitou pela primeira vez em 1981, quando trabalhava como jornalista para a Radio Nacional e para o extinto jornal 'Ya', alguns movidos pela miséria e pelo desespero, outros pela maldade.

Desde então, Tarín (Barcelona, 1959) tem feito anotações sobre os casos que mais chamaram sua atenção, não necessariamente pelo número de vítimas, explica ele, mas por sua singularidade: "Tentei ir a julgamentos que estavam fora do padrão. Você não precisa de 50 cadáveres para ter uma boa história, você precisa de uma história extraordinária. E um cara que percorre 100 quilômetros em uma estrada reta me pareceu uma história muito especial", explica ele à Europa Press sobre um cego que acabou sendo acusado de fraude por excesso de velocidade.

As anotações que ele fez ao longo de décadas nos tribunais serviram de base para as histórias de seu último livro: "Tenho aquela mania de que alguns de meus colegas sempre fazem piadas sobre meus pequenos cartões".

Entre elas, Tarín guardou histórias como a de Rafael Bueno Latorre, um fugitivo com um passado sangrento cujo paradeiro é desconhecido há mais de 40 anos; Mohamed, um pastor de cabras que acabou sequestrando um avião, ou Juan Carlos Firpo, que se tornou um falsificador de cheques porque seus livros de poesia não lhe rendiam dinheiro suficiente para ganhar a vida.

Também a de "El Mula", uma história que lhe foi contada por seu pai, o jornalista Manuel Tarín, a quem ele homenageia na capa e a quem diz nunca ter tentado convencê-lo a escolher sua própria profissão, embora tenha lhe dado um dos conselhos mais valiosos de sua carreira: "O jornalismo é um trabalho de cinco minutos: você tem que chegar cinco minutos antes dos outros e sair cinco minutos depois. E nesses cinco minutos está a história".

Tarín confessa que acabou cobrindo eventos e tribunais por acaso, não por vocação, depois que um tiroteio ocorreu enquanto ele trabalhava na Radio Nacional e ele foi enviado para cobrir o fato, embora admita que continuou porque era lucrativo e que teve a sorte de ter o jornalista Enrique Rubio como vizinho: "Eu não escolhi, eles me escolheram".

O MAL

Tarín viu passar pelo Palácio da Justiça pessoas aparentemente "normais", que ele confessa que não teria notado se tivesse passado por elas na rua, mas que cometeram atos horríveis, fato que o levou a perguntar a advogados e psiquiatras forenses sobre o mal, um conceito moral que, para esses últimos, é irrelevante, explica ele.

"Eu vi o mal de muito perto. Você percebe que o mal se tornou humano, assumiu a forma de uma pessoa e cometeu atos horríveis sem nenhum problema, sem medo das consequências e sem pensar no que estava fazendo a outro ser humano que talvez nem conhecesse, então, para mim, o mal existe", reflete o escritor.

"Quando o mal se torna humano, você pode vê-lo nos olhos", diz Tarín, que afirma tê-lo detectado em pelo menos três pessoas, incluindo dois assassinos - um deles uma mulher - e um vigarista.

ASSALTOS, TRAIÇÕES E TUMULTOS

Em 'Los crímenes de los pasos perdidos', Tarín também se refere aos numerosos roubos dos anos 80, realizados por 'El Vaquilla' ou 'El Lute', um tipo de crime que gerava uma grande sensação de insegurança e que agora desapareceu, como o dos 'quinquis', que ameaçavam suas vítimas com seringas que diziam ter infectado com AIDS: "Não sei se suportaríamos a violência que existia agora".

Desse período, o autor relata um episódio em que, aos 25 anos de idade, ele e seu parceiro Rafa Manzano se transformaram em dois funcionários do La Modelo que estavam sendo mantidos em cativeiro pelos detentos enquanto ocorria um motim, que finalmente se dissipou: "Tivemos que colocar uma unidade móvel no pátio e jogar mais de 100 metros de cabo com um microfone, que passamos pelo buraco da fechadura".

Tarín ainda se lembra do som da porta de metal se fechando atrás dele, o que o deixou mudo durante a transmissão, e do cheiro de desinfetante, sabão e superlotação, que levou vários dias para ser eliminado: "Eu disse que era o cheiro do desespero das pessoas que estavam lá dentro".

EMPATIA

O autor também aborda muitas outras questões sociais, como os mortos sem nome, as favelas - que ainda existem em Barcelona - e a imigração, e confessa que, de todos os protagonistas que aparecem no livro, há um pelo qual ele sente uma empatia especial: Samuel Yaw, queimado vivo em El Raval: "Eu adoraria saber quem ele era".

Ele também reflete sobre a miséria, que ele entende como um dos fatores determinantes de um tipo de crime ou criminoso, em suas palavras: "A economia e a sociologia são fatores determinantes no crime", ressalta.

No entanto, independentemente das causas, Tarín acredita que todos podem ser reintegrados, com exceção de uma minoria: "Há pessoas que caem no crime ou têm um revés e isso não significa que não seja possível que, após um período de tempo, após uma punição pelo que fizeram, tenham a oportunidade de reorientar suas vidas".

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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