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SANTIAGO DE COMPOSTELA, 1 mar. (EUROPA PRESS) -
O psicólogo clínico Miguel Perlado estuda e trabalha com vítimas de cultos há 25 anos e, nos últimos 10 anos, dedicou-se a promover o Encontro Nacional sobre Abuso Psicológico e Cultos, que celebra sua 10ª edição neste fim de semana em Santiago de Compostela.
Minutos antes da inauguração, o fundador da Associação Ibero-Americana para a Investigação do Abuso Psicológico falou à Europa Press sobre o ecossistema dos cultos.
"Os cultos mudaram substancialmente. Além da imagem popular que muitas pessoas ainda podem ter de que esse fenômeno se reduz ao âmbito religioso ou espiritual, a expansão desses grupos vai muito além, afetando inclusive dinâmicas que têm mais a ver com questões de cura, terapêuticas e de crescimento pessoal", assegura.
Esses últimos grupos, ele adverte, estão entrando "com força", com um boom considerável, especialmente após a pandemia. Nessa linha, ele insiste na importância de usar o conhecimento sobre seitas para entender essas novas formações que estão surgindo on-line, pois "muitas delas talvez não atendam aos critérios para serem descritas como seitas no sentido estrito", mas vemos a proliferação de muitas narrativas "sectárias" que "não estão livres de riscos".
Nessa linha, Perlado insiste em colocar o foco nesse novo contexto digital, para onde ele acredita que o "mundo sectário" se moverá nos próximos cinco a dez anos.
"Temos que estar muito atentos a que tipo de contexto cultural estamos criando, que tipo de identidades estamos construindo, porque há cada vez mais fragilidade, mais dificuldade de as pessoas construírem histórias sobre si mesmas e de se vincularem a outras", reflete.
"CULTOS DIGITAIS".
Para o especialista, o individualismo e o narcisismo crescentes no mundo digital "estão desconectando ainda mais as pessoas", causando "uma proliferação de todos os tipos de propostas instantâneas, imediatas e feitas sob encomenda". "O digital é um terreno fértil para isso", observa.
"O foco deve estar nessas novas narrativas que são claramente sectárias (...). Estamos testemunhando um desvio autoritário que está arrastando a população para baixo, desenvolvimentos entre os jovens, onde muitos deles podem dizer que preferem uma ditadura a uma democracia, e estamos observando isso em um contexto cultural que, de alguma forma, também pode ser um terreno fértil para todos os tipos de propostas surgirem e florescerem", diz ele.
Mais especificamente, as redes sociais desempenham um "papel fundamental" não apenas no recrutamento de seguidores, mas também na publicidade desses grupos. Tanto que ele chega a falar em "seitas digitais".
"Estamos vendo o que poderíamos descrever como seitas digitais, seitas que surgem na Internet e que grande parte da tarefa de sedução e atração e também de doutrinação é feita on-line. Embora, em um estágio posterior, haja algum contato off-line que encerre o processo, mas grande parte dos recursos que eles usam é implantada por meio de redes", ressalta.
MOMENTOS-CHAVE: SITUAÇÕES DE MUDANÇA E ADOLESCÊNCIA
Os cultos se diversificaram, insiste ele, de modo que não é possível estabelecer um público-alvo a ser protegido. Encontramos grupos que visam níveis socioeconômicos mais baixos, outros visam níveis mais altos... Há uma grande variabilidade". Há uma grande variabilidade.
Tanto que, segundo ele, provavelmente 1% da população total entrará em contato com uma seita em algum momento de suas vidas. Na Espanha, foram contados entre 250 e 300 grupos.
Embora ele ressalte que não há um perfil único de um possível seguidor, há "certas situações na vida" que podem torná-lo mais propenso. Essas situações são, fundamentalmente, situações de mudança, transição e crise.
"Isso torna as pessoas mais vulneráveis e elas buscam algum tipo de recurso ou ajuda. E é justamente aí que a sedução das seitas atrai com grande força e as flechas que elas atiram acertam em cheio", explica.
Esses tipos de vulnerabilidades "situacionais ou contextuais" - separações, afastamento de amigos, morar no exterior - "tornam a pessoa mais frágil e mais facilmente atraída".
Outro momento particularmente sensível é a adolescência, quando a identidade ainda está se formando; um grupo que também é nativo digitalmente. "A sedução desses grupos pode ser muito mais atraente para um jovem adolescente por causa da identidade completa e total que eles oferecem e por causa desse programa de transformação absoluta", ressalta.
"DESPROGRAMAÇÃO" DE VÍTIMAS
Como em tudo o que envolve os cultos, o processo de saída também é "muito particular", diz Perlado, que ressalta que pode levar anos. "Muitos pequenos elementos de dúvida vão se acumulando e acabam fazendo com que a pessoa comece a repensar sua adesão. Há pessoas que passaram 15, 20 ou mais anos em um contexto sectário até que finalmente saíram", ressalta.
Dependendo do tempo passado, do nível de apego ao grupo e do impacto específico desse grupo, haverá consequências diferentes, explica ele.
A primeira coisa que você percebe, explica ele, é uma ruptura e um dano à sua própria identidade. "Eles não sabem quem são. Portanto, parte da tarefa é conseguir ajudar as pessoas a se reconectarem com quem elas eram e, em seguida, conseguir remover todo o alcatrão, digamos, que foi deixado na mente pela tarefa de doutrinação, por várias entradas ao longo de muitos anos que mudam todos esses circuitos cerebrais", explica ele. É uma questão, ele resume, de "desprogramar" as vítimas.
O PAPEL DA MÍDIA
A reunião abordará, entre outras questões, o caso galego de "Los Miguelianos", bem como outras questões como abuso espiritual, o impacto nas famílias e também a abordagem jornalística desse problema.
Perlado incentivou os profissionais a irem além da manchete sensacionalista e de impacto, "que pode ter muita circulação", mas "pode ter o efeito oposto" ao pretendido.
"Estou observando que, com todas as séries que estão sendo exibidas nos canais temáticos, os telespectadores ficam fascinados", alertou, algo que esconde outro efeito mais velado.
"Eles dizem: 'Isso está acontecendo lá, eu nunca entraria lá, posso ver que funciona como um culto, mas quem pensaria em entrar lá? Mas é claro que isso acontece porque eles estão assistindo a um produto final, que foi compactado para que eles entendam todo o processo", explica ele.
Por esse motivo, ele pede que o foco seja colocado na experiência subjetiva das vítimas, "no que elas vivenciam em sua intimidade e no que acontece no mundo interior das pessoas, porque é aí que entendemos melhor qual é a natureza final da experiência sectária: entrar em sua mente, em sua consciência e em como você se sente e se vê, mudar e distorcer sua percepção".
Essa é a raiz para Perlado e, portanto, a importância de lançar luz sobre esses momentos mais "invisíveis", mas que "lançam as bases para a ocorrência de abusos em maior escala".
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